




Depoimentos
2
João Carlos Escosteguy
Filho
xxxxxx
Ah,
mas você sabe o quanto isso dói. Se não sabe, só pode ser burro. Porque
sentir você sente, eu sei. Agora
cadê a vontade? Tá feito bicho. Bicho é que corre quando a gente grita.
Assim, um cachorro perambulando pelos cantos da casa velha, esperando um
resto, sobra de almoço para se banquetear. E ainda rói o osso depois, veja
só! Só cachorro mesmo. Um bicho. É isso que define bem, não é?
xxxxxx Mas bicho sente também, esse é o problema da definição. Chuta um cão pra você ver! Se tiver dente, te morde. Se tiver medo, for um bicho meio frouxo, vai só rosnar. Vai se afastar, sim, claro, mas se afasta rosnando.
xxxxxx Você nem isso faz. E sabe o quanto dói, não é? Se não soubesse, porra, aí teria fácil explicação! Não pensei nisso: se você não soubesse, estaria explicado. Mas você sabe, e isso me dá raiva. Raiva mesmo, de ódio. Ódio mesmo, de matar de porrada. Nem um bicho você é. Mais parece uma planta, uma planta que não se mexe pra nada. Nem pra aproveitar um dia alegre de sol, nem pra fugir da tempestade insinuante que teima em fazer doer. E dói, não dói? Eu sei que dói.
xxxxxx E vai continuar. E vai se renovar. E você vai morrer um dia, desgraçado, vai morrer de qualquer jeito. Covarde ou cagão, vai morrer nem que seja de morte morrida. Disso, ah, com certeza absoluta você sabe. Ainda não vale a pela ter vontade? Batalhar? Pega em armas, porra!, sua arma é a paixão. É a gula. É a sede de justiça e histórico de lutas. Ou continua assim, meio bicho meio planta, meio seco meio fraco, meio homem meio nada.
xxxxxx Você tem tudo dentro de si, tudo que precisa pra ser gente. Todo mundo tem isso. Você não é nada importante pra ser diferente. Mas tem que pegar essa porra, tem que usar. Se não usar, enferruja. Vai continuar uma vida à mercê.
xxxxxx Você não sabe ler, eu compreendo, mas eu não sei escrever e tô aqui tentando. Não tem desculpa, vagabundo. Aliás, tem sim. Você não é homem. Não sabe pensar. E pior: não tem coração.