




Ser
escritor
Eduardo Oliva
xxxxxx Quando penso na palavra escritor, lembro-me da aula do primeiro período da faculdade, em que o professor explicou a diferença entre política e ciência política. A primeira é a ação, a paixão e intuição; a segunda analisa a estrutura das relações políticas, sociais e econômicas. Depois, ele argumentou que para ser político pode ser qualquer um: médicos, advogados, professores.
xxxxxx No caso do escritor também há uma diversidade. Encontramos jornalistas, psiquiatras, sociólogos, engenheiros, desembargadores e entre outros. Para exercer essa função, necessita ser intuitivo e entrar na ação. Recordo-me dos sambistas e dos repentistas, que com a sensibilidade e o saber da cultura popular fazem canções cativantes e até críticas sociais. Lógico que não se deve desprezar a leitura. Ajuda o desenvolvimento das idéias.
xxxxxx Mas se o indivíduo não tiver o dom de contar histórias, não será um contista, romancista e cronista. Seguirá o caminho de ensaísta, pesquisador ou gramático. Tenho uma colega, por exemplo, que escreve muito bem artigos e resenhas. Sua monografia final de curso de graduação foi considerada melhor ou igual às teses de mestrado e doutorado. Nunca quis escrever ficção. Contudo, há pessoas que exercem as duas funções: a de escritores e a de estudiosos, possuindo múltiplas habilidades.
xxxxxx Fiz uma entrevista com Paulo Henriques Britto: tradutor, poeta e contista. Publicou quatro livros: Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003). Coordena o Departamento de Letras da PUC-Rio. A primeira pergunta que fiz a ele foi:
- Existe escritor, médico, professor, engenheiro, jornalista, físico.... Qual a necessidade de fazer curso superior para formação profissional de escritor? Britto me respondeu:
- Eu respondo com outras perguntas: Por que motivo todos acham necessário que um músico estude num conservatório, que um artista plástico estude numa escola de belas-artes, porém acham estranho um escritor entrar na faculdade para aprender a escrever? Por acaso é só música, pintura e cinema que exigem técnica — escrever qualquer um pode fazer sem aprender? Literatura não é arte? Ou será que escrever boa literatura é tão fácil que ninguém precisa estudar para aprender? Por que motivo nos Estados Unidos há mais de quarenta anos funcionam programas de criação literária (em que se formaram vários escritores famosos hoje) e lá ninguém acha isso desnecessário?
xxxxxx Realmente só a idéia não dá conta de escrever um gênero literário, precisa-se aprender a técnica e trabalhar muito. Quando fiz em 2004 duas oficinas, percebi que melhorei um pouco no desenvolvimento das idéias e na escrita. Infelizmente, por motivos financeiros, não posso mais fazer nenhuma oficina literária. Hoje em dia, com especialização em voga, é importante o escritor aprender novas técnicas para se inserir no mercado de trabalho. Para mim, fazer até uma faculdade de formação de escritores me ajudaria a ter uma base cultural e técnica para desenvolver melhor minhas idéias, já que não sou uma pessoa muito intuitiva e autodidata. Existem pessoas com pouco estudo, mas, com uma sabedoria fabulosa e pessoas que não precisam fazer faculdade, aprendem sozinhas.
xxxxxx O artigo de Sigmund Freud "Escrever e brincar" parte do princípio de como os escritores despertam interesses nos leitores, em relação à criatividade.
xxxxxx "Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem o mais claro insight dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos.".
xxxxxx O escritor e sua obra tornam-se uma esfinge, a qual leitores comuns e especialistas tentam destrinchar. Freud, para entender o processo criativo, compara a criança com o escritor. Ela inventa histórias e brincadeiras, tem uma imaginação à flor da pele.
xxxxxx “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. Dá [em alemão] o nome de ‘Spiel‘ [‘peça’] às formas literárias que são necessariamente ligadas a objetos tangíveis e que podem ser representadas. Fala em ‘Lustspiel‘ ou ‘Trauerspiel‘ [‘comédia’ e ‘tragédia’: literalmente, ‘brincadeira prazerosa’ e ‘brincadeira lutuosa’], chamando os que realizam a representação de ‘Schauspieler‘ [‘atores’: literalmente, ‘jogadores de espetáculo’]. A irrealidade do mundo imaginativo do escritor tem, porém, conseqüências importantes para a técnica de sua arte, pois muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.”
xxxxxx Há uma dialética entre a realidade e o brincar. Quando crescemos e deixamos de brincar. Esforçamos-nos por muito tempo enfrentar as realidades da vida e nos colocamos às vezes numa situação mental, na qual mais uma vez desaparece essa oposição entre o brincar e a realidade.
xxxxxx “Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Da mesma forma, a criança em crescimento, quando pára de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada.”
xxxxxx As fantasias dos adultos são menos evidentes de observar do que o brincar das crianças. Ela brinca sozinha ou “estabelece um sistema psíquico fechado com outras crianças, com vistas a um jogo, mas mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo.”. Já a pessoa adulta envergonha-se de suas fantasias, não as mostram para ninguém. Cultiva suas fantasias no seu intimo.
xxxxxx “O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo — que auxilia o seu desenvolvimento —, o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela não tem motivos para ocultar esse desejo. Já com o adulto o caso é diferente. Por um lado, sabe que dele se espera que não continue a brincar ou a fantasiar, mas que atue no mundo real; por outro lado, alguns dos desejos que provocaram suas fantasias são de tal gênero que é essencial ocultá-las. Assim, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas.”
xxxxxx O indivíduo que devaneia esconde discretamente suas fantasias dos outros, porque sente vergonha delas. Mesmo que ele as dissesse para nós, o relato não nos causaria prazer. Teríamos repulsa ou seriamos indiferentes ao tomar conhecimento. Todavia quando um escritor nos mostra suas peças, poemas ou prosas sentimos prazer em lê-las, escutá-las e ouvi-las. A autenticidade está na técnica de transpor o sentimento de repulsa, ligada às barreiras que separam cada ego dos demais.
xxxxxx “O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Denominamos de prêmio de estímulo ou de prazer preliminar ao prazer desse gênero, que nos é oferecido para possibilitar a liberação de um prazer ainda maior, proveniente de fontes psíquicas mais profundas.“
xxxxxx O prazer estético que o escritor nos dá está relacionado com a liberação de tensões em nossas mentes. Aproveitamos-nos com nossos devaneios, sem auto-acusações ou vergonha. Um escritor de ficção nos faz viajar pela sua imaginação e pelas palavras. Molda o seu texto como se fosse um pintor ou artesão. Um dia, quem sabe, deixo de ser uma pessoa que escreve para ser um escritor criativo. Para isso, preciso juntar o lúdico com a técnica.