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Samir, o claustrofóbico
Igor Dias

 



xxxxxx Puerto Pobre era considerado um país do quarto mundo. Nunca se fala dos países do quarto mundo na televisão e creio que eles nem apareçam nos livros de geografia. Talvez seja esta a razão pela qual as pessoas não saibam da existência desses países, que devem ocupar alguma gaveta esquecida nos suntuosos escritórios da ONU. O clima de Puerto Pobre era temperado. Eu não sei como um clima pode ser temperado. Para mim, apenas comidas possuem temperos. Observação rústica demais para quem se julga capaz de escrever uma história que aconteceu em Puerto Pobre, país de quarto mundo cuja moeda corrente era o dracma. Com três dracmas comprava-se uma cerveja.

xxxxxx Economicamente, Puerto Pobre escorava-se nas exportações de caju. Mas nos últimos tempos houve uma considerável queda no fluxo portuário de Puerto Pobre, que não possuía navios aptos para cruzar uma piscina olímpica, e muito menos o oceano. Sei que navios (nem os menores) não cabem em piscinas olímpicas (nem nas maiores); foi apenas uma piada. Assim, os cajus eram transportados nos navios dos países que compravam o caju puerto pobreño, o que trazia lentidão e sucessivos extravios. Ultraje inaceitável para um país em cuja bandeira nacional havia um suculento caju.

xxxxxx A rede Croquete de televisão, principal canal do país, exibia longas reportagens a respeito de como Puerto Pobre livrou-se da ditadura militar, após a eclosão de sete guerras civis. Era ano eleitoral. As eleições presidenciais ouriçavam a ganância (patriótica) dos chamados homens públicos, que tinham duvidosas vidas privadas. Havia muito que fazer em Puerto Pobre.

- Há que instaurar uma indústria naval!, berravam os militantes do PZF (Partido do Zíper Fechado), partido que lançara a candidatura de Jacó Sarrego, carismático pastor evangélico, sempre sorrindo e citando passagens bíblicas.

xxxxxx O Partido do Zíper Aberto tinha a pose de revolucionário e por isso tinha menos tempo na Rede Croquete. A cúpula do PZA havia bolado uma tática audaciosa para a campanha presidencial. Como eram democratas ao extremo e tinham como lema "Poder Para o Povo", decidiram que lançariam como candidato qualquer transeunte que encontrassem à noite pelas ruas de Puerto Pobre. Poderia ser um mendigo ou um pândego, bastaria que fosse Puerto Pobreño. Devido a isso, ainda não tinham candidato fixo e anunciavam durante seus poucos minutos na tv: "Fique atento, você pode ser o nosso candidato. E você não votaria em você mesmo? Poder Para o Povo, vote PZA!"

xxxxxx O principal esporte praticado em Puerto Pobre era o Flictum, espécie de atletismo onde os corredores competiam de olhos vendados. No Flictum, vencia aquele que chegasse na segunda posição. O governo Puerto Pobreño fizera diversas tentativas de difundir a prática do Flictum pelo mundo, mas o esporte era apenas causa de riso em outros países, por ser considerado bizarro e ingrato com os vencedores.

xxxxxx Numa segunda-feira, dezenove de maio de um ano longínquo, foi enterrado num dos três cemitérios de Puerto Pobre um sujeito chamado Samir Dalazi. Um marceneiro que fora parar em Puerto Pobre por uma desgraça do destino. Dizia-se que Samir perdera a memória numa queda ao tentar fotografar pontos turísticos no país. Diziam que era turista e depois da queda, destituído de memória, foi levado para um hospital, permanecendo lá por cinco meses. Não encontraram seus documentos, sua nacionalidade era desconhecida e esperaram Samir acordar para ouvir seu idioma, mas ao recuperar-se, levantou-se da cama e apresentou-se como Samir Dalazi, em bom Puerto Pobrês.

xxxxxx Samir foi para as praças oferecer seus serviços de marceneiro. Consertava alguns móveis, construía outros e aos poucos foi acumulando dracmas, até comprar uma casa e fazer nela a sua marcenaria.

xxxxxx Sujeito esquisito aquele marceneiro do final da rua. O estrangeiro, como alguns o chamavam pelas alcovas, passava corpulento dentro daquele macacão azul cheio de bolsos. Dizia sempre à Dona Rúbia, sua vizinha mais próxima e assídua cliente, que queria ser enterrado com os bolsos cheios de chaves de fenda. "Mas, você é jovem Samir, ainda vai construir muitos móveis...".

xxxxxx Dona Rúbia foi ao quarto buscar um dicionário. Lembrava vagamente da palavra, mas queria ter certeza. "Claustrofobia!" E Samir, apertando um parafuso renitente, pensou lentamente em seu novo adjetivo: Claustrofóbico.

xxxxxx No dia seguinte, a velha Rúbia morreu. No enterro estava Samir e um parente, que só agora visitava, mesmo que postumamente, a falecida. Samir não se recordava de alguma vez ter ido a um cemitério, e contemplou lápides e esculturas, alimentou aves e leu epitáfios. Foi embora à tarde, quando já escurecia. Na saída do cemitério, esbarrou com um grupo de meninos que corriam o Flictum.

xxxxxx Samir Dalazi deitou-se na cama. Pensou no que sempre pensava: Nora, a mulher do início da rua que encomendava cadeiras aos sábados de manhã. O que fazia com tantas cadeiras? Samir construía cadeiras fracas para Nora, que sempre voltava. Trocavam poucas palavras, mas Samir amava-a. Talvez por não ter em quem pensar, em quem depositar fantasias ou cuidados. Sinceramente, não há romantismo algum num marceneiro sem passado que amava uma cliente desconhecida. Puro logicismo: todos nutrem e precisam de fantasias, mesmo que infundadas.

xxxxxx Escreveu num pedaço generoso pedaço de papel: "Quero ser enterrado com os bolsos cheios de chaves de fenda, porque sou claustrofóbico." Dormiu, enfim.

xxxxxx Fazia três dias que a pequena marcenaria estava fechada. Alguns clientes, mais curiosos, espreitavam pelo portão, mas nada avistavam. Chovia forte e o vento multiplicava a chuva, que parecia vir de todas as direções. O coveiro Silas estava decidido a pagar os onze dracmas que devia a Samir pelo conserto de uma enxada. Ao encontrar a marcenaria fechada, Silas achou que seria apropriado forçar o portão e ir até a porta de Samir para pagar-lhe a dívida. E assim fez.

xxxxxx Bateu por completos cinco minutos na porta de Samir, mas ninguém o atendia. Pôs a mão na maçaneta e, sem o menor esforço, esta girou num ranger que caía bem à situação. O coveiro Silas encontrou Samir morto. Pensou em ir embora, mas não podia fazer isso com Samir, o bom Samir que consertara sua enxada e permitira o pagamento na semana seguinte. Silas leu o bilhete que estava em cima da cabeceira feita pelo marceneiro. Encontrara uma forma de pagar sua dívida.

xxxxxx Enterraria Samir num bom túmulo, de graça. Sabia da história do marceneiro misterioso e decidiu levar o corpo para o cemitério durante a madrugada. Preparou o corpo, encontrou um carrinho-de-mão, acomodou o cadáver e cobriu-o com um lençol.

xxxxxx Aquela madrugada de segunda-feira foi apocalíptica: uma feroz tempestade ao som de trovões estrondosos, o que facilitou o sigilo daquele cortejo secreto. O coveiro não encontrou ninguém no caminho. Andou durante meia hora pelas ruas escuras. O lençol que cobria o corpo de Samir estava ensopado, colado ao seu corpo. Raios cortavam o céu negro, quando o coveiro abriu o portão do cemitério. Já sabia onde sepultar Samir: num empoeirado jazigo de uma família que já não existia.

xxxxxx O velho Silas teve força para acomodar o corpo dentro do caixão. Lembrou de verificar se os bolsos continham as chaves de fenda, como pedira o finado naquele bilhete estranho. Empurrou o mármore do jazigo até obter o espaço suficiente para encaixar o caixão de Samir. Aquele era provavelmente o último defunto que desfrutaria daquele jazigo. Era um morto penetra, mas o velho coveiro Silas não hesitou ao empurrar o mármore para sua eterna posição. A dívida estava paga.

xxxxxx Não dormiu bem naquele resto de madrugada. Acordou cedo, realizou alguns reparos no cemitério, a tempestade havia deixado um rastro de lama e sujeira. Usou a enxada e, ao lembrar imediatamente de Samir, passou pelo jazigo e limpou-o.

xxxxxx O coveiro começou a ter pesadelos. Sonhava que toda a família que foi enterrada no jazigo particular levantava do sono da morte, para reclamar com o coveiro picareta que estava enterrando pessoas em lugares errados. Não se arrependia. Samir era um bom homem.

xxxxxx Na noite de quarta-feira, a cúpula do PZA decidiu mandar Fito Ayala e seus acessores para ir às ruas em busca do candidato do povo. Ayala estava otimista e orientou seus acessores para que procurassem bem aquele que seria o representante maior daquele país miserável. A equipe do PZA rodou toda a cidade, mas ninguém agradava totalmente ao decidido Ayala, que nunca fumara tantos charutos num único dia. Decidiram que só voltariam para o comitê do PZA quando encontrassem o candidato.

xxxxxx O velho coveiro não se sentira bem durante todo o dia, por isso recolheu-se por volta das dezenove horas. Os cemitérios são sempre silenciosos quando é dia, mas à noite pode-se ouvir tudo, tudo que o nada produz. O jazigo era parte do nada. Mas, dentro daquele caixão intruso, havia algo. E algo abriu os olhos e viu-se sepultado. Samir não se desesperou, sabia que estava morto, porém sentia um desconforto terrível. Aquele pequeno espaço o atordoava. E então, ao pôr as mãos dentro de um bolso, sacou uma chave de fenda. Com a perícia do marceneiro que fora, foi vencendo cada dobradiça do caixão. E em poucos instantes, já podia empurrar a sua tampa.

xxxxxx Sentiu que havia um pesado mármore sobre sua cabeça, mas não teve dificuldade para removê-lo. Sua cabeça morta estava fora do jazigo, olhou ao redor e reconheceu o cemitério. E uma voz que parecia arrastar-se pelos túmulos, advertiu-o: "Volte para o seu buraco. Há regras e você deve cumpri-las." Outras vozes foram surgindo e logo havia um acalorado bate-boca entre as sombras. Um cadáver descontente teve a coragem de levantar-se! Era um escândalo no mundo das sombras.

- Eu sou Samir. Sofro de claustrofobia e preciso sair um pouco do meu caixão...

- O quê? Você não é mais coisa alguma! Você sofre de morte, isso sim!

xxxxxx Gargalhadas sinistras parodiavam a declaração de Samir. E de repente, todas as sombras ficaram sérias, e uma voz, mais potente que todas as outras, ordenou para que Samir voltasse para o jazigo e desse fim àquele rebuliço. Mas Samir insistiu, até que a voz concedeu-lhe um último passeio pelo mundo. Só havia uma exigência: duas sombras deviam acompanhá-lo.

xxxxxx Era meia-noite quando Samir cruzou o portão do cemitério, seguido pelas duas sombras. Caminhou pelas calçadas pensando em Nora. Arrependeu-se profundamente por não ter tentado, ao menos, declarar o seu amor platônico. Agora é tarde. Era apenas um cadáver claustrofóbico que passeava por ruas escuras, e acompanhado por sombras que nada diziam.

xxxxxx Ayala já estava nervoso. Amaldiçoava a proposta idiota do partido. Era ridículo! Não se pode entregar uma campanha política nas mãos de um desconhecido! As pesquisas de ibope apontavam Jacó Sarrego como líder, com uma grande diferença sobre o segundo colocado, que nem nome possuía ainda. Pelo rádio do carro, a equipe do PZA ouviu uma declaração do carismático Jacó:

- Estamos confiantes na vitória. O povo Puerto Pobreño tem fé, por isso o Senhor não permitirá que outro os governe, senão o seu servo... Ayala desligou o rádio e disse:

- O primeiro pobre diabo que cruzar o nosso caminho será o candidato do PZA!

xxxxxx A criatura parecia sem rumo naquela calçada. As sombras rodeavam-no como que num lembrete do imperioso regresso. Samir parou, já tomara bastante ar, e estava resignado com a morte. Virou-se para tomar o caminho de volta ao cemitério, quando ouviu:

- Ei!

xxxxxx Ayala desceu do carro e foi até Samir. Eis o nosso candidato! Enfiaram Samir no carro e partiram para o diretório do PZA. Conversaram longas horas, deram detalhes de tudo a Samir, que aceitara o desafio observando as sombras inquietas e preocupadas. Samir pediu para ir ao banheiro e lá avisou às sombras que não voltaria mais ao túmulo. O país precisava dele. Que as trevas o esperassem!

xxxxxx Providenciaram sessões de fotos com Samir sorrindo dentro de um terno negro e bem cortado. Em nada se assemelhava ao marceneiro de outrora. Gravou o comercial de campanha, no qual possuía pleno domínio de suas propostas e planos de governo. O debate na rede Croquete havia sido acalorado. Jacó acusara Samir de possuir contas duvidosas no exterior, e por sua vez, Samir apontara fragilidade cultural nas declarações de Jacó.

xxxxxx Samir venceu a eleição e era o novo presidente de Puerto Pobre. Antes de subir à tribuna para fazer o discurso de posse, percebeu que as sombras não mais o acompanhavam. A rede Croquete transmitia ao vivo a posse de Samir que, emocionado, prometia que iria elevar Puerto Pobre ao terceiro mundo. O velho coveiro Silas ligou a televisão e deparou-se com Samir, o novo presidente. Foi tomado pelo espanto e aproximou-se do aparelho. Era o defunto! Meu Deus! A alma penada queria levar Puerto Pobre para o terceiro mundo. Onde fica o terceiro mundo? Será o mundo dos mortos como ele? O coveiro assustado desligou a televisão, não queria ir para o além. Antes pensava que política era a arte de mentir, mas agora sabia: política é coisa de cadáver.

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