Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

2390-5
Igor Dias

 



xxxxxx A solidão cavalga ao redor, em trote constante, como o tic-tac dos relógios de parede. Mas as paredes aqui não têm relógios, apenas um pôster de Joni Mitchell sentada na carcaça de um Ford, e rabiscos a giz que tentam inutilmente medir a passagem do tempo. E o cavalo põe seu focinho entre as grades, contraindo os lábios - caracterizando o feio sorriso de um pangaré.

- É hora do almoço, ele diz.

xxxxxx Quando as grades dividiram o mundo em dois, imediatamente pensei que o cárcere seria o avesso da liberdade. Que enxergar entre as frestas de aço o visitante ocasional seria a confirmação de que eu estava do lado de dentro da cela, ou seja, do lado errado. Como se todos dançassem em sincronia num rodopiar anti-horário, e eu simplesmente adiasse o giro por conta duma tontura repentina. Então vinha a pesada mão da ordem e empurrava-me para a margem do palco, de costas para a platéia, cuspido para o lado errado do espetáculo.

xxxxxx Porém, estou convencido de que aqui, dentro dessas três paredes sujas e unidas pela grade, reside toda a verdade da vida. Verdade que passa longe dos bailarinos ensaiados em seus movimentos precisos, porque os aplausos ecoam mais para quem está do lado errado do palco. Se fui expulso do balé marcado, é porque não me juntei à multidão. Mas já não quero convencê-los de minha inocência; quero dizer-lhes que estou do lado certo da cela.

xxxxxx Nunca imaginei que alguém ainda fosse visitar-me. Era uma idéia tão remota esta de rever um rosto do passado, constrangido pelo clima estático da masmorra, tentando disfarçar o impacto com expressões brancas: "Você está fazendo falta lá fora, cara..." Mas o que não entendo é aquele rosto estranho à minha espera. O sujeito parece ansioso, com um movimento das mãos que me lembra uma engrenagem, o que me causa a impressão de que o dono dessas mãos desconhecidas possui algum poder, alguma força oculta a mim.

xxxxxx Falar com o visitante pareceu-me um desafio tão sem sentido quanto a visita inesperada. Eu estou frente a frente com este sujeito que não diz nada, apenas me observa como quem avalia uma possibilidade. Também estou em silêncio, não quero assustá-lo com perguntas, talvez seja alguém que não vejo há muito e que a face esfacelou-se em minha memória, o que acho muito pouco provável, pois então este homem já deveria ter falado alguma coisa que viesse a ser uma luz no arquivo morto e escuro das minhas lembranças.

xxxxxx Daqui a pouco chega o outro homem, este fardado, e anuncia o término da visita sem que tenhamos dito qualquer palavra. O meu olhar não foge do seu, encaro-o horizontalmente, mesmo que o terno que o vista seja tão ameaçador para mim, que me cubro com estes trapos onde se lê: 2390-5. Por ele não ter conferido, nem sequer notado, a presença desta numeração, acho que não faz parte da administração carcerária, nem de nenhum programa estatal de recuperação social, psicológica ou moral. Então será um pastor evangélico?

xxxxxx Não. Pastores falam muito, põe suas mãos abençoadas nas pessoas, dando-lhes conselhos ou expulsando demônios. O sujeito não me parece nem um pouco religioso, alisando em alguns instantes o bigode brilhoso que posso jurar ser postiço. Estalou a língua, parece levemente desapontado com alguma coisa. Não vou mais analisar seu bigode, fingirei agora que penso tratar-se de um autêntico bigode negro. Mas ele já não parece o mesmo, tira um papel do bolso do paletó, confere alguma coisa e inclina as sobrancelhas para o alto, delineando ondas de pele na testa oleosa.

xxxxxx O desconhecido arrasta a cadeira para trás, produzindo um barulho muito desagradável, que acaba chamando a atenção do homem fardado para a nossa mesa. O sujeito faz um sinal de positivo através da expressão do rosto e levanta-se. Lança um último olhar em minha cara confusa, depois some por uma porta intransponível para mim.

- A visita acabou, sentencia o pangaré risonho.

xxxxxx Volto para o lado certo da cela arrependido de nada ter dito. O pôster de Joni Mitchell agora me parece despropositado, já que estou no Brasil e provavelmente ninguém por aqui a reconheça nesta foto antiga, onde há ao seu lado um rapaz empunhando um violão folk. Acho que é década de sessenta ali, apesar de ser um cenário hippie demais, que acaba insinuando os anos setenta. Tento imaginar o que poderiam estar tocando naquele momento, mas estou inquieto demais com a figura daquele sujeito em silêncio.

xxxxxx Ele poderia ter me dito qualquer coisa. Que eu fui escolhido para um processo de reintegração prisional, que era um advogado interessado no meu caso, que era um psiquiatra decidido a estudar minha mente, que era parente de alguma vítima, ou até alguém que devia me informar que eu seria executado nos próximos dias. Mas não, o homem permanecera no mais rígido silêncio. Fez com que eu me sentisse suscetível pela primeira vez. Também ficarei calado se ele voltar novamente, e mesmo que me pergunte ou afirme algo, nada direi.

xxxxxx À noite, a solidão desce de seu cavalo e chora desesperadamente. Segura as grades como que para torcê-las, e não conseguindo, atira-se ao chão em lágrimas epilépticas. A solidão é fraca na hora de dormir, não quer morrer sobre o colchão de espuma mofada, e de tão frágil deixa cair a espada e o escudo que carrega durante o dia. E foi com a espada da solidão que, durante a madrugada, rasguei o pôster de Joni Mitchell.

xxxxxx Acorda-se sempre com o relinchar do cavalo. E este estranhou a ausência do pôster na parede, mas não falou nada. Uma semana depois, fui chamado para a sala de visita. Era o homem do bigode postiço novamente. Agora usava óculos e não vestia um terno. Esperei que dissesse alguma coisa, eu mal podia disfarçar o desejo de ouvir sua voz impossível. Ele nada disse, então pensei em intimidá-lo de alguma forma, um soco na mesa ou um olhar ameaçador. Mas, eu sabia que não adiantaria: eu era o mais fraco. Estava na condição de presa não por questões físicas, mas por algo que não consigo definir ao certo. O fato é que o silêncio deste sujeito que vem aqui olhar meu rosto é mais ameaçador do que qualquer assassino que jamais conheci.

xxxxxx Isso se repetiu por não sei quantas vezes durante não sei quanto tempo. O homem vinha, lançava seu olhar inquietante, consertava a posição do bigode (acho que a esta altura já desconfiava que eu sabia que era postiço) e ia embora. Uma vez veio com o mesmo terno da primeira vez, e sem os óculos também. Estalou a língua como na primeira visita, verificou o mesmo papel que tirara do bolso do paletó, só que desta vez anotou algo atrás. Li seus lábios que pareciam repetir o que a caneta escrevia, eram números, ditos no esboço da boca, um a um no mais profundo silêncio: 2390-5. Levantou-se, cruzou a porta e nunca mais voltou.

xxxxxx E eu permaneço do lado certo da cela, só que transformado em presa, vencido por um sujeito inexplicável que me fez vítima de seu mistério.

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