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Busca por justiça
João Paulo Ristow

 


Capítulo V
Muitos anos atrás...



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Era véspera de Natal quando aconteceu. Eu era o filho mais novo do Duque de Valois, um dos mais influentes vassalos do rei da França. Meu irmão mais velho, Brito de Valois, estava se preparando para assumir o cargo de meu pai, que estava prestes a morrer. Eu, como era o mais novo, fui enviado a um monastério franciscano para me sagrar padre, e livrar minha família de todos os pecados cometidos por ela.

xxxxxx Foi uma dura mudança em minha vida. Estava acostumado com todas as comodidades e regalias de ser o filho de um nobre, e de repente, havia sido enviado para um mosteiro que pregava a pobreza absoluta. O único pertence que tinha era uma roupa surrada e de tecido porco, a qual não podia retirar do meu corpo. Isto aconteceu quando eu completei dez anos de idade.

xxxxxx Passei mais doze anos da minha vida dentro daquele mosteiro, sem sair uma vez sequer de suas dependências, sem ver qualquer outra pessoa a não ser os frades que moravam comigo. Tive doze anos para aprender a escrever o latim, para estudar a bíblia e para rezar. Era a única coisa que fazia. Embora a vida no mosteiro fosse muito monótona, éramos todos felizes. Creio que o último dia feliz da minha vida foi o ultimo dia que passei no mosteiro.

xxxxxx Ao completar vinte e dois anos abandonei meus colegas frades e voltei para o feudo de minha família. Encontrei-o completamente mudado. Meu pai havia morrido, e meu irmão havia assumido seu cargo. Passei dias chorando sobre a tumba de meu pai. A partir daquele dia nunca mais fui o mesmo.

xxxxxx Após alguns meses de meu regresso, já havia me estabelecido completamente na paróquia do feudo. Passei a escutar as confissões e as reclamações do povo. Havia me tornado, além de um conselheiro espiritual, um porta voz do povo para a nobreza.

xxxxxx Ouvia a reclamação dos camponeses sobre os altos impostos, sobre o mau tratamento, sobre os abusos de poder. Fui ter com meu irmão, mas ele me ignorou. Assim como todo o feudo, ele também estava muito mudado. Havia se tornado um déspota, alguém que não se importava com a vida dos seus.

xxxxxx A partir desse momento tudo aconteceu muito rápido. A população estava cada vez mais revoltada com a administração de meu irmão, e me culpavam por não conseguir com ele as suas reivindicações. Estavam completamente descontrolados, e não suportavam mais pagar os altos tributos cobrados por Brito. Eu roguei a Deus que ele acalmasse os corações dos aldeões, mas Ele não me escutou.

xxxxxx No outro dia o pandemônio estava armado. Acordei com o som da população raivosa a bradar infâmias contra minha família. A nobre cavalaria foi armada, mas os três guerreiros do feudo não foram capazes de conter a rebelião. Vi toda minha família ser morta, empolada e depois decapitada pelos camponeses, que se banhavam em seu sangue, num ritual macabro. As mulheres, antes, eram violadas pelos líderes da revolta, e logo após eram entregues para a diversão da população. Muitas morreram devido ao ato, e nem chegaram a sentir a dor de serem empoladas.

xxxxxx Fui o único sobrevivente. A maioria dos camponeses temia me matar, pois eu era o enviado de Deus naquela região. Fugi. Corri como jamais havia corrido em toda minha vida. Sem destino. Entre as casas dos assassinos da minha família eu corria e via o sangue azul derramado no solo.

xxxxxx A tristeza levou-me ao frenesi, levou-me ao pecado. A vingança. Com uma tocha incendiei a maior quantidade de casas que consegui. Além do sangue, agora o fogo também jorrava pelo feudo. Continuei minha corrida, mas logo estaquei. Estava ali, o líder da revolta, deitado entre duas casas com minha irmã, violando seu corpo como se fosse um animal. Os gritos e o choro da minha irmã entraram pelos meus ouvidos assim como o ópio entra no corpo de uma pessoa. Limpou minha mente, deu-me coragem. Saltei para cima daquele porco como um leão para abater sua presa. Tentei derrubá-lo com meus próprios punhos, mas não tive sucesso. Passei toda minha vida me preocupando apenas com livros, enquanto aquele homem, provavelmente, teve sua vida centrada no labuto e na dureza. Enquanto eu jejuava em homenagem a Cristo, ele jejuava simplesmente pelo fato de não ter o que comer. A vida o havia tornado muito mais forte do que eu.

xxxxxx Fui abatido e rolei no chão, enquanto o líder se levantava de olhos fixos em mim. Iria matar-me. Eu não podia mais escutar o choro de minha irmã. Arrastava-me no chão, tentando fugir daquele monstro. Apenas não morri, pois naquele momento o mais nobre cavaleiro do feudo, e talvez até de todo o reino, Sir Wilian de Breankwood, apareceu imponente atrás de mim. O assassino, temeroso, debandou em uma corrida alucinante, fugindo do poderoso guerreiro que ostentava uma nobre armadura de placas de bronze e uma grande espada desembainhada.

xxxxxx Corri para minha irmã, mas já era tarde. Peguei-a nos braços e senti a vida esvaindo de seu corpo. Beijei-lhe a testa e lhe dei a benção antes dEle levá-la. Roguei a Deus pela vida de minha irmã, mas Ele novamente me abandonou. Logo o corpo dela desfaleceu em meus braços.

xxxxxx Virei-me para agradecer ao nobre cavaleiro, mas ele também tinha me abandonado. Corri para fora do feudo e nunca mais voltei ao local. De longe pude ver a barbárie dos camponeses, alguns saudando a liberdade, outros ocupados para eliminar as chamas. Num último olhar para trás vi as cabeças de meus entes sobre os muros da fortificação, mostrando que ali não havia mais um comando. Desde então dez anos se passaram. Dez anos em que eu abandonei a ignorância e estudei tudo de mais estranho que acontecia por todo o mundo.

xxxxxx Larguei a palavra de Deus. Ele não me ajudou naquele dia, e percebi que nunca havia me ajudado. Tudo de bom que havia acontecido na minha vida tinha sido por meu próprio esforço e esmero, assim como tudo de ruim havia sido por meu desleixo. Foi isso que eu percebi e que me tornou tão cético. É isso que todos devem descobrir em si próprios. É esse conhecimento que leva à sabedoria e à razão.

xxxxxx Vivemos num mundo onde o único conhecimento levado em consideração é a fé. Quando toda população do mundo se der conta de toda a capacidade do homem, acredito que nosso mundo entrará numa era de grande avanço. É isso que eu espero, e é isso que eu tento mudar nesse tempo. Esse é meu desígnio.




Capítulo VI



- Agora entendo porque és tão cético. Mas te digo, Deus não abandona nenhum de seus filhos. E agora acabo de me convencer disso, falou Benedito com uma voz triste.

- E o que achas que Ele faz comigo? Ele deixou-me a própria sorte. Tive fé nEle, rezei para Ele, mas Ele me abandonou. Não me diga que foi Deus quem botou aquele cavaleiro no meu caminho, pois não irás me convencer disso. Sou certo de que tanto como o demônio não é o responsável pelos atos de maldade provocados pelo homem, Deus não é o responsável pelas coisas boas que fazemos. Tudo é uma questão de escolha.

- Dizes que este fato se passou há dez anos, certo? E que o homem que salvou sua vida foi Sir Wilian de Breankwood, correto? Pois lhe digo que como tu conheces o oculto, eu conheço os documentos da história, e já li em muitos deles que o nobre cavaleiro Wilian de Breankwood tombou em um combate nos reinos Nórdicos há quinze anos atrás! Como poderia ele ter te salvado a vida?

- Como tombou em combate? Queres me dizer que ele morreu há quinze anos? Isto é impossível, eu vi ele, vi seu brasão, sua armadura, sua espada, pelo que sei ele não tinha filhos parra repassar esses bens.

- Correto, Wilian não tinha filhos para repassar sua armadura. Armadura essa que logo após a morte do cavaleiro foi levada a Roma, onde está até agora.

- Como isto é possível? Tenho toda a certeza do mundo que aquele homem era Wilian de Breankwood! Como poderia ele estar morto? Jamais me esquecerei da face dele, assim como a do assassino de minha irmã!

- Garanto-lhe, ele já estava morto. E é por isso que digo que Deus pode influenciar em nossas vidas, assim como em nossos destinos. Pois acho que não é coincidência tu seres enviado para investigar assassinatos em um feudo que a alguns dias atrás teve a visita de uma mendigo que vinha da região do duque de Valois e que está há dez anos vagando pela Europa.

- Que dissestes? Este mendigo devia morar no feudo quando aconteceu a revolta. Talvez ele conheça o líder da rebelião.

- Seria capaz de reconhecer o assassino? Ele era um normando?

- Como sabes? Sim ele era um normando, balbuciou Sales com a voz trêmula.

- Este homem era um normando que vinha da região do Duque de Valois. Segundo alguns conhecidos dele, ele abandonou a região há dez anos, depois de uma visão, e após isso ficou completamente insano.

- Onde ele está? Preciso vê-lo. Talvez ele saiba algo sobre os assassinos de minha família.

- Estava aprisionado na masmorra, mas fugiu no dia em que chegaste, pela manhã. Sinto muito.

- Não sinta. Encontrarei o infeliz e farei ele falar. Que se dane os assassinatos, buscarei o meu passado. Ele está sendo procurado?

- Por suposto que sim, muitos temem sua insanidade. Se ele colocar os pés na rua será preso pela guarda real.

- Então ele só sairá na rua durante a noite. Isso se for esperto. Esta noite sairei e buscarei por este homem, disse Sales, serrando os punhos. Será hoje que vingarei meu passado?




Capítulo VII



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Durante três noites Sales fez vigias, porém sem obter nenhum resultado. Seus hábitos se adaptaram à vida noturna. Dormia durante o dia e vagava pelas ruas durante a alva. Nada. Passou a suspeitar que o homem houvesse abandoado o feudo devido ao período de cativeiro, mas mesmo assim continuou sua busca. Não haveria de desistir. Passou dez anos de sua vida tentando se esquecer do passado, mas agora queria lembrá-lo, queria vingá-lo. Passaria toda sua vida atrás do infeliz se preciso.


***

xxxxxx A lua nova luzia em seu máximo ao atingir o topo do céu da região de Edimburgo. Qualquer um que olhasse distraído, durante a alva corrente, para o pequeno burgo regido por Solveig não perceberia uma alma viva a perambular pelas ruas. Um observador mais atento, porém, poderia ver um franzino homem vestindo seu robe preto a andar, escondido pelas sombras noturnas. Estava ali em busca do passado. Buscava respostas perdidas há muitos anos. Buscava vingança.

xxxxxx O coração de Sales estava disparado naquela noite. Seu corpo excluía todos os empecilhos físicos. Não sentia frio. Sua audição não ouvia guinchar dos ratos, mas estava pronta para identificar o menor ruído provocado pelo inimigo. Sua visão nem reparava as ruas imundas, mas era capaz de reconhecer um vulto humano a dezenas de jardas, mesmo durante a noite. Não estava com fome, mas seu paladar ansiava um sabor nunca experimentado, o doce sabor do sangue. Sangue de seu inimigo. Iria encontrar o pobre morador de seu antigo feudo, e ele iria contar-lhe onde encontrar o assassino de sua família. Então a vingança poderia ser feita, e seu coração poderia voltar à paz. Gritos.

xxxxxx Os pensamentos de Sales foram interrompidos repentinamente por uma série de gritos vindos das proximidades. Como pôde ter se esquecido de seu real intuito naquele feudo? Provavelmente mais um assassinato estava acontecendo naquele burgo, e mais uma vez a culpa recairia sobre Satan. Correu em direção aos gritos o mais rápido que pode. Resolveria aquele problema agora para depois poder se dedicar exclusivamente ao seu passado. Conforme corria os gritos ficavam cada vez mais fortes. Logo pôde perceber a silhueta do assassino. Vestia um manto negro como a noite e tinha longos cabelos grisalhos caídos às costas. Aos seus pés um jovem agonizava, com seu corpo sendo retalhado por uma espécie de faca, que continha três pontas paralelas. Ao perceber os sons as suas costas o homem parou. Estava feliz. Teria mais uma vítima.

xxxxxx O assassino virou-se. Os olhos dele e do investigador se cruzaram e ambos estacaram. Estava ali. O corpo de Sales estremeceu. Jamais esqueceria aquele rosto maldito. O homem por um momento também parou. Aquela face assustada em sua frente lhe parecia familiar. O silêncio pairava nas frias ruas do burgo. Dentro das casas, toda a população dormia aguardando o novo nascer do sol.

xxxxxx O silêncio foi abafado pelo gemido da mais nova vítima do assassino. Sales ainda estava confuso. Uma grande peça pregada pelo destino, pensou ele. O mesmo assassino de sua família agora era o assassino que ele buscava pura e simplesmente por dinheiro. Um sorriso surgiu em sua face; lembrou-se da fortuna oferecida pela igreja para resolver o caso. Sem saber estavam pagando para o investigador realizar o maior sonho de sua vida.

xxxxxx Ao reconhecer Sales o assassino tentou fugir, esvaindo-se em meio às trevas, mas desta vez o ex-padre estava preparado. Não era mais aquele rapazote no qual o homem bateu facilmente. Havia crescido, a vida havia feito dele um homem forte também.

xxxxxx Correu atrás do assassino. Correu muito. Enquanto via as casas passarem velozes por sua visão periférica, resquícios do passado voltavam a sua mente. Ele, dez anos mais novo, correndo também entre as casas do feudo, com os olhos encharcados em lágrimas. Viu as casas em chamas e o sangue dos seus entes escorrendo pelo solo. Mas desta vez era diferente, não era ele quem fugia. Agora ele perseguia o causador de todos aqueles acontecimentos. Iria fazer o maldito pagar pelo sofrimento de dez anos.

xxxxxx O tempo fora seu aliado. O homem que outrora era forte e robusto agora não passava de um velho esguio e fraco. Ficou imaginando como muitas pessoas se deixaram matar por um ser tão fraco. Não importava agora. Seriam vingados. Todos!

xxxxxx Em poucos instantes alcançou o velho, e com um potente empurrão derrubou-o ao chão. O homem caído fitou-o, revelando em seu rosto a expressão de profundo desespero.

- NÃO, TU DE NOVO NÃO !, gritava o homem, totalmente descontrolado.

- Cale-se!, exaltou-se Sales, aplicando-lhe um forte chute na altura do estômago. Olhe para ti infeliz, olhe para ti! Nem parece um assassino de famílias agindo desse jeito! Pode berrar, pois este será só o começo. Pagarás por ter tirado de mim toda minha família.

- Eu te tirei a família? E vistes o que tua família tirou de mim? Primeiro teu irmão me tirou a liberdade, me tirou a comida. Depois vens tu e me rouba a única coisa que me restava, a sanidade. Um bruxo, isto é o que és, gritava o velho, soluçando em meio às lágrimas.

- Se há alguém que deveria ter perdido a sanidade este alguém sou eu!, gritava o investigador, também visivelmente abalado. Fui eu quem mais sofri assistindo os atos de barbárie comandados por ti. Eu estava lá, eu vi tudo!, falou Sales, rompendo-se me lágrimas também.

- Não sei o que sofrestes, mas te digo que com certeza não se compara ao que eu sofri. Não sabes o que é passar dez anos sem ter uma noite de sono tranqüilo. Não sabes o que é receber toda noite a visita dEle, dizendo-me que não permitirá minha entrada nos céus! E ele diz que foi por tua culpa.

- Não sei o que estás a dizer, lunático! Apenas queria saber por que não me mataste logo? Por que me deixara sofrendo por ser o único sobrevivente, e para ficar culpando-me pelo resto da vida?

- Ainda não entendeste? Não te matei porque Ele não me deixou! Porque na hora que iria acabar com tua raça ele mandou um dos protegidos dEle para te salvar. E aquele mesmo que te salvou vem ter comigo todas as noites, para me informar que minha entrada no céu não será permitida. A voz baixa do homem voltou aos berros.

- Tu sabes o que é viver esperando a hora de ir para o inferno? Sabes o que é sentir que o próprio demônio está apenas esperando a tua morte para te levar ao castigo eterno? Sales estacou. O que aquele homem estava querendo dizer?

- Estás a falar de Wilian de Breankwood?

- Ainda não entendestes? Acho que eras mais esperto dez anos atrás. Não estou a falar de Wilian de Breankwood, estou a falar de Gabriel, o enviado de Deus. Aquele que não me deixou matar-te.

xxxxxx Sales estava estático. Sua mente trabalhava o máximo possível para absorver as informações passadas pelo assassino. O que mais o deixava intrigado é que não percebia uma faísca sequer de mentira nos olhos do velho homem. Além disso, a história fazia incrível sentido.

***

xxxxxx Há dez anos, Sales sequer agüentava o peso de seu corpo sobre suas pernas. A dor física e a dor sentimental disputavam para saber quem causaria mais sofrimento no jovem padre. Aos seus braços, o corpo nu de sua irmã repousava em segurança. Seu agressor já havia fugido. O padre beijou-lhe a testa suada e deu-lhe a benção. Não suportava a idéia, mas sabia que a irmã logo abandonaria esse mundo e partiria de encontro com o criador.

xxxxxx Segurou-a firme em seus braços para esquentar seu corpo gelado. Os olhos da bela mulher fecharam-se, mas antes que ela abandonasse completamente o corpo, com o último suspiro de vida, ainda foi capaz de balbuciar suas últimas palavras.

- Me... meu anjo... Gabriel!

***

xxxxxx Sales caiu de joelhos, com a face colada ao frio chão do burgo. Aos prantos rogou perdão a Deus por todos os anos de ceticismo e ingratidão, afinal, ele não havia sido abandonado. Deus havia enviado um de seus anjos para salvá-lo. Tudo se encaixava em sua mente agora. As últimas palavras da irmã, o cavaleiro morto, o testemunho do assassino.

xxxxxx Sentiu novamente o calor de ter o coração tocado por Deus. A vingança não acometia mais sua mente. Deus não o abandonara. Ele não havia permitido sua morte. Como era bom redescobrir a fé e se sentir protegido novamente. Ergueu-se e fitou demoradamente o velho homem à sua frente. Parecia que ele havia sido tomado pelo mesmo sentimento de Sales. O velho estava diante dele, abaixado em meio a feixes de palha e com um grande sorriso na face.

- Parece que entendeste! Meu papel neste mundo termina aqui, podes acabar comigo agora, balbuciou o homem com voz trêmula. Embora não tenha conseguido salvar a minha alma, consegui salvar a tua. Espero que Deus se lembre disso quando a hora do juízo chegar.

xxxxxx O investigador se espantou. O que ele estava querendo dizer? Sales pensava que iria ter de usar toda sua força para aprisionar o homem e levá-lo até Avignon, entretanto, o homem se entregou sem a menor resistência. Um enorme sentimento de misericórdia fluiu pelo seu corpo. Fosse há horas atrás o velho homem já estaria com a cabeça separada do corpo. Nesse momento, porém, o Espírito Santo se apoderava do corpo de Sales.

- Não, não irei acabar contigo. Lhe digo homem, irás viver. Tens minha misericórdia. Vale saber se terás a misericórdia da igreja. Vens comigo ou precisarei levar-te a força?

- Entrego minha vida a ti a partir desse momento. Como te disse, minha razão para continuar aqui acabou.

***

xxxxxx A alvorada raiou, bela como jamais havia nascido. Os pássaros cantarolavam com o calor do astro rei que tornava confortante o leve frio matinal. Sales despertou certo que havia tido o sonho mais bizarro de sua vida. Seus pensamentos logo foram abafados. Ao olhar para o lado viu Benedito vigiando um homem que dormia ao lado de sua cama. As lembranças da noite passada voltaram a sua mente. Sentiu um conforto no coração. Não tinha mais a necessidade da vingança.

xxxxxx Durante todo o dia se preparou para partir. Ainda no começo da manhã foi ter com Solveig, para informar-lhe que o assassino havia sido preso, e que seria enviado para Avignon. O conde mal acreditava na história contada pelo investigador. Fosse ele, já haveria de ter convocado a Santa Inquisição para caçar bruxos há muito tempo. Na realidade era o que pretendia fazer desde o inicio, mas foi convencido pelos estudiosos do burgo a convocar um investigador. Não conseguia entender essa nova geração. As pessoas tinham que antes investigar um caso para somente depois de não chegar a nenhum resultado, acreditar no cão. Pelo menos desta vez havia funcionado, tinham conseguido prender o assassino.

xxxxxx Voltou para a casa de Benedito e, depois de três dias comendo porcamente, se preocupou em ter uma refeição digna. Comeu pão, queijo e cereais, e bebeu do melhor vinho do burgo. O sabor adocicado da velha bebida escarlate não se comparava aos azedos vinhos de sua cidade, que iam para a mesa das tabernas logo após serem estocadas nos tonéis, nem com o sabor adocicado, porém amargo do hidromel. Aquela era a bebida divina, o sangue de Cristo.

xxxxxx Dormiu durante toda à tarde, para recobrar as energias que seriam necessárias para a viagem de volta a Avignon. Acordou somente no final da tarde, quando arrumou os últimos pertences em cima do cavalo cedido por Solveig para a viagem de volta. Foi até seu hospedeiro deu-lhe um forte abraço.

- Tu te mostraste um verdadeiro amigo. Agradeço-te por tudo o que fizeste por mim. Mas agora tenho que partir. Devo cumprir para com a minha promessa com a igreja. Devo informar-lhes que não há nenhum demônio neste feudo, assim como entregar a eles esse infeliz, falou, apontando para o velho homem que dormia tranquilamente no chão frio.

- Tens certeza que ficarás bem em viajar com um assassino por toda a Europa?

- Este homem não é mais um assassino há dez anos. Não faz mais mal a ninguém!

- Esquecestes do que ele fez a todas aquelas pessoas desse feudo? Ele matou seis pessoas aqui!

- Garanto-lheque ele não estava em sã consciência quando fez aquilo. Ele só queria chamar minha atenção. E conseguiu.

- Espero que assim seja, amigo...




Capítulo VIII

Três meses depois...



- Que bom vê-lo de novo senhor Sales! O bispo estava ansioso pelo teu regresso. Venha, te guio até ele. Quero ter o prazer de anunciá-lo.

- Se não se incomoda eu preferiria ir sozinho, já conheço o caminho. Mesmo assim muito obrigado.

xxxxxx Os corredores da basílica de Avignon agora pareciam muito mais belos aos olhos do investigador. Nunca havia percebido todos os detalhes entalhados na cúpula de pedra da basílica. E as imagens, como eram lindas! Eram tão reais que parecia que Deus havia dado uma alma a cada uma delas.

xxxxxx Chegou até a porta que levava a sala do bispo. Respirou fundo. Finalmente teria mais uma conversa com o Bispo de Avignon. As grandes portas abriram-se sem provocar nenhum ruído. Sales se espantou com a claridade do recinto em que estava. Inúmeras velas iluminavam toda a sala, desde os lustres dependurados no teto, até as mesas, todos estavam repletos delas.

xxxxxx Ao fundo do cômodo estava Benjamin de Loureine, entretido com sua solidão. Ao perceber a volta de Sales não pôde esconder o sorriso de sua face.

- Finalmente vieste falar comigo, senhor Sales. Fiquei sabendo de teu regresso há uma semana. O que te fez demorar tanto a me procurar?, inquiriu o bispo.

- Eu necessitava de um tempo para pôr em ordem minha mente. Muitas coisas aconteceram desde que parti. Para dizer a verdade nem sei por que vim até aqui. Sei que até já punistes o culpado pelo assassinato. Vi-o sendo queimado em praça pública essa manhã.

- Essa era minha obrigação, tu sabes disso. Não poderia deixar um prostrado a andar pelas ruas. Mesmo que tenhas provado que os assassinatos não foram realizados pelo demônio, não tens como provar que o assassino não estava possuído por ele.

- Tu fazes o que tu queres com teus fiéis. Minha missão está cumprida. Provei que não havia nenhum demônio na região, poupei muitos inocentes de serem mortos na fogueira.

- E te confesso que isso causou um enorme prejuízo para a Santa Igreja. Toda a equipe da Inquisição já estava convocada e pronta para partir. Perdemos muito ouro nesta jogada. Para não ter mais prejuízos mandei a equipe que iria para Edimburgo para Paris. Talvez eles achem algo de interessante lá. O que não falta naquela cidade é infiéis para serem queimados.

- Ainda não entendo porque uma instituição, que se diz enviada por Deus, queima pessoas desta maneira!

- É simples senhor Sales, nossa...

- Chega! Não quero mais saber de suas desculpas. Lhe digo, encontrei com Deus, e ele não é essa criatura vingativa que a igreja prega. Eu descobri um Deus de amor durante minha viagem, e será esse Deus que guiará meus passos a partir de agora.

- Estás a desconfiar dos dogmas da Santa Igreja Católica, senhor Sales?

- Estou a desconfiar de seu caráter, senhor bispo!, exaltou-se Sales.

xxxxxx Falando isso o homem retirou do bolso de suas vestes um crucifixo de prata, e colocou-o em volta do pescoço. Deixava a sala, rumo a uma nova vida. Qualquer um que vislumbrasse a cena veria um padre deixando os aposentos do bispo. Mas Sales sabia ser mais do que isto.

- A propósito, bastardo, disse Sales, virando-se novamente para Benjamin. É PADRE Sales.

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