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por justiça
João
Paulo Ristow
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"O
coração de Sales estava disparado naquela noite. Seu corpo excluía todos
os empecilhos físicos. Não sentia frio. Sua audição não ouvia guinchar dos
ratos, mas estava pronta para identificar o menor ruído provocado pelo inimigo.
Sua visão nem reparava as ruas imundas, mas era capaz de reconhecer um vulto
humano a dezenas de jardas, mesmo durante a noite. Não estava com fome,
mas seu paladar ansiava um sabor nunca experimentado, o doce sabor do sangue."
Idade das Trevas. Os verdes bosques que margeiam a cidade de Edimburgo serão palco de uma guerra jamais vista, que defrontará dois mundos completamente diferentes. Não, nessa guerra os heróis não são cavaleiros vestindo suas nobres armaduras e empunhando grandes espadas. Nessa guerra um único homem se defrontara com todo um mundo, um mundo de crença e ignorância. Suas armas... a razão e a lógica.
xxxxxx Para resolver os mistérios que cercam um esquecido feudo do norte da Europa Sales terá que usar de toda sua inteligência e pensamento lógico, evitando assim que toda a região seja considerada sob o domínio do demônio. Em meio a suas investigações ele descobre fatos que trazem a tona um passado muito distante e que poderiam colocar em risco toda sua razão e ceticismo.
Capítulo I
Norte de Edimburgo, décimo sexto dia do segundo mês
do ano de 1311 de nosso senhor.
xxxxxx A tempestade de neve caia do céu escuro,
sem lua naquela madrugada. O manto branco de neve que cobria o solo contrastava
com a escuridão da noite, que vez por outra cedia na disputa com os clarões
provocados pelos relâmpagos. O tamborilar das gotas de água caindo sobre
as finas folhas das coníferas e o farfalhar dos grandes flocos de neve roçando
os grandes pinheiros eram constantemente abafados pelo rosnar dos trovões,
que atingiam furiosos toda a cadeia de montanhas que cercava o pequeno vale.
O perfume saboroso da floresta, naquela madrugada escorria junto com a água
que descia pelos troncos grossos das árvores, deixando um tom desolador
ao bosque.
xxxxxx Todos os animais nativos daquele local agora dormiam escondidos em suas tocas, esperando pelo confortante calor do astro rei. Um único resquício de vida pairava pelo bosque. Sobrepujando o frio, a neve e a tempestade, um franzino homem de meia idade percorria a pequena trilha formada entre as árvores até um pequeno feudo, bem ao norte do vale.
xxxxxx Sua caminhada de semanas agora estava próxima do fim. Os grandes portões da fortificação já apareciam imponentes em meio às árvores. No máximo em um sexto de hora teria um teto para se abrigar, e provavelmente uma roupa seca e uma boa caneca de água morna.
xxxxxx Os raios caiam do céu como que raivosos pelo abandono de seu único espectador, o vento gemia cortando o vale, as gotas d'água pareciam cada vez mais pesadas. Com um clarão um trovão atingiu um pinheiro em frente ao homem. Chamas surgiram nos galhos mais altos e logo tomaram conta de toda a árvore. As poucas gotas de água que caiam junto com a neve não eram suficientes para apagar as labaredas, que ardiam incessantemente. Línguas de fogo lambiam os céus dando a paisagem daquele bosque, cada vez mais, um aspecto surreal.
xxxxxx O homem estremeceu, sua mente não acreditava nas mensagens enviadas pela sua visão. Neve, água, trovões, fogo! Se algum insano tivesse a ousadia de pintar um quadro como aquilo que seus olhos presenciavam certamente teria seu corpo consumido pelas chamas, em um Auto de Fé promovido pela Santa Inquisição. Desviou seus pensamentos. Seu objetivo agora era chegar ao feudo, não importa o que lhe custasse. Não desistiria agora. Lançou-se numa corrida desembestada por entre as árvores, o fogo e a neve. Estava disposto a não parar até atingir os grandes portões. Caiu por duas vezes, vítima da traiçoeira neve, que cobria com seu manto escorregadio todo o solo da floresta, mas logo atingiu os portões.
xxxxxx Suas mãos bateram ávidas as negras tabuas do portão, mas não obteve resposta. Apenas seu grito foi capaz de chamar a atenção de um guarda, que dormia em uma das duas torres que guardavam a entrada do feudo.
Capítulo II
Alguns meses antes...
- Senhor Sales, o bispo lhe aguarda na diocese. Acompanhe-me, por favor.
xxxxxx Caminhando pela basílica de Avignon, o baixo frade de idade avançada e cabelos brancos conduzia o visitante pela porta que levava aos aposentos desconhecidos da basílica, onde somente religiosos podiam adentrar. Sales estava impressionado. Mesmo não sendo a primeira vez que entrava na sede papal, se espantava com a beleza e com a imensidão da construção. As grandes janelas deixavam a luz derramar sua claridade por toda a igreja, iluminando as pedras cinza-escuro usadas na construção. No altar, uma grande cruz de madeira com a imagem de Jesus entalhada estava bem ao meio da parede, e em sua frente uma grande mesa construída com a madeira mais rica do reino sustentava um exemplar da Bíblia em latim.
xxxxxx A parte posterior da basílica, por onde era conduzido agora, era reservado para os aposentos dos padres e bispos, e possuía até um luxuoso quarto, usado pelo papa quando necessário. Pelos corredores, muitas imagens de santos e quadros de passagens bíblicas enfeitavam as paredes, iluminados por velas.
xxxxxx O velho frade parou diante de uma porta e com algum esforço escancarou-a, deixando que a luz do corredor tomasse conta da sala, outrora privada dela pela grande porta. Sales pôde distinguir ao fundo do cômodo alguém sentado diante de uma mesa, iluminado por uma vela. A sala parecia hermeticamente fechada, a não ser pela porta por onde entrava agora, e não possuía nenhum móvel, a não ser uma mesa e duas cadeiras.
- Entre, por favor. O bispo Benjamin esta lhe aguardando, informou-lhe o homem.
xxxxxx Sales entrou na sala e pouco depois pôde escutar o som da porta sendo fechada as suas costas. A sala que pensava não poder ser mais escura foi totalmente tomada pelo breu. Seguiu o mísero ponto de luz proporcionado pela vela, com muito cuidado para não tropeçar em algo. Logo estava sentado diante de Benjamin de Loureine, bispo de Avignon.
- Que bom que atendeu meu chamado Padre Sales. Fico feliz em vê-lo, disse o bispo num tom solene.
- Se me permite, gostaria que me chamasse de Senhor Sales, reverendíssimo. O Senhor sabe que já abandonei a santa igreja há algum tempo. Mas me diga, o que quer comigo?. As palavras de Sales soavam com um tom de desprezo.
- Vejo que não mudastes nada! Sabes que não é permitido o abandono da batina. Sabes que com esta tua atitude deverias ser no mínimo excomungado da igreja. O mais comum seria condená-lo num Auto de fé por heresia.
- Sabes que não podes fazer isso. Embora eu tenha largado da palavra de
Deus, meus conhecimentos são muito úteis para a igreja. Alem disso, sabes
que tenho uma dezena de nobres me devendo favores, e que não hesitariam
a se opor a minha condenação à fogueira.
- Tudo bem. Mas enfim, já sabia que havias abandonado a batina, e não foi por isso que te chamei. Preciso de um favor teu. Um favor não, pois ele será bem remunerado, um serviço. O que me diz?
- Digo-lhe, senhor bispo, que foi por isso que te diste que eu não poderia ser condenado. A igreja sempre precisa de meus favores. Do que se trata?
- Assuntos que simples padres não podem resolver. Estamos com problemas num feudo ao norte de Edimburgo. Nos últimos meses muitas pessoas foram assassinadas, inclusive dois padres. Preciso que tu investigues a região antes de o tribunal da Santa Inquisição ser enviado para lá.
- Investigar assassinatos? Porque não mandas um de teus estudiosos para lá? Eles também têm capacidade investigar tais fatos.
- Teriam, se fosse um caso comum. Mas segundo a população local há um demônio vivendo naquele feudo.
- Não acredite em bobagens! Tu bem sabes que a maioria destes casos são apenas lendas. Eu lhe afirmo, seria mais fácil nos juntarmos de novo com a Igreja Romana do que haver um demônio naquele feudo. Já estudei mais de cem casos iguais a esse, e em apenas um fiquei realmente convencido que um demônio era o responsável pelos fatos estranhos.
- Pois acho que terás teu segundo caso, Senhor Sales. Tenho dois estudiosos na região e eles me garantiram que, seja o que for que esteja atuando no feudo, não é humano.
- A Igreja deveria se preocupar mais com o que os homens podem fazer do que com os demônios. Eu sei do que os homens são capazes, e lhe digo, às vezes acho que nem mesmo demônios são capazes de realizar atos tão cruéis quanto os humanos. Mas, enfim, aceito tua proposta, desde que o pagamento seja bom.
- Cinco mil florins lhe são suficiente?
- Por suposto que sim. Me dê o mapa de como chegar ao local e dentro de um mês estarei partindo. A viagem até Edimburgo é longa, dentro de três meses no máximo estarei lá.
- Ótimo! Três messes. É o tempo que necessito para formar um grupo de inquisidores para enviar ao local, acho que precisarei de alguns soldados também.
- Que assim seja. Agora, se me permite, tenho mais coisas a fazer. Que Deus o abençoe reverendíssimo.
- Que ele ande contigo também, e que te proteja dos perigos que virão, senhor Sales.
xxxxxx A sala agora parecia bem menos escura. Sales abandonou-a, arrastando ruidosamente a porta e deixando a luz novamente entrar pelo cômodo. Percorreu rapidamente os corredores internos da basílica. Antes de ir embora, ajoelhou-se diante do altar, e permaneceu ali durante um bom tempo, pedindo perdão a Deus por todos seus pecados.
Capítulo III
Quatro meses depois...
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O portão se erguia altivo entre as duas torres, parecendo não se importar
com o frio daquela noite. Sales estremeceu. Só agora havia percebido o imenso
frio que fazia. Sua roupa molhada o acentuava ainda mais, de modo que todo
seu corpo tremia. Uma pequena portinhola se abriu no portão a ali um velho
homem mirou demoradamente o ex-padre.
- Quem és tu e o que fazes aqui a essas horas?, perguntou o velho com a voz mais ameaçadora que conseguiu fazer.
- Sir. Sales de Constantina, senhor. Venho de uma viagem de dois meses e estou ansioso por uma roupa seca e um prato de comida, respondeu Sales, enquanto tremia devido ao frio.
- E o que te faz pensar que o encontrarás aqui? Volte para a floresta mendigo e me deixe dormir, resmungou o velho homem, se virando para voltar à torre.
xxxxxx As palavras daquele velho fizeram o Sales se enfurecer. O frio sumira devido ao calor do sangue que percorria rapidamente suas veias. Seu coração batia acelerado. Seus braços entraram ligeiros pela abertura do portão e seguraram o colarinho do velho homem.
- Escute aqui, velho! Estou a dois meses viajando, sem tomar banho, sem me alimentar direito e passando frio. Há cinco dias fui assaltado e meu cavalo foi levado por dois estranhos. Tudo isso somente para vir até este feudo imundo para salvar suas almas inúteis. Vê? Sou da Igreja!, disse Sales, mostrando a carta do bispo de Avignon para o homem. - Depois de tudo isso tu vens me chamar de mendigo?
xxxxxx Os olhos do velho quase saltaram para fora do rosto. Sua face tornou-se pálida como a neve quando viu o carimbo do bispo de Avignon na carta mostrada a ele.
- Mil perdões senhor. Um momento que já abrirei o portão.
- Ande logo, pois já não tenho mais a mesma paciência de alguns anos atrás, respondeu secamente.
xxxxxx Logo o portão se abriu. O local por onde caminhava agora realmente não podia ser chamado de feudo. O burgo do local havia tomado conta de todo o espaço, tornando-o uma pequena cidade. Muitas casas, disformes uma em relação à outra, se erguiam logo após o portão. Algumas se levantavam altas e imponentes com no mínimo dois andares. Sales olhou para o céu. A neve cessara e a tempestade agora se transformara numa leve garoa. O frio voltou ao seu corpo, junto com o odor dos excrementos jogados pelas janelas das casas, ato muito comum nesse período. Virou-se para o velho guarda, em busca de informações.
- Preciso de um abrigo para esta noite. Um local onde eu possa descansar até de manhã, quando conversarei com o burgomestre.
- Senhor, estão todos dormindo a essas horas. Podes tentar...
- Onde fica a residência dos dois representantes da igreja neste local?, perguntou Sales, interrompendo o homem.
- São aquelas ali, disse, apontando para duas casas. Mas acho que não seria conveni...
- Obrigado senhor, que Deus esteja contigo, disse, enquanto se dirigia para o local apontado, sem dar importância para os comentários do guarda.
xxxxxx As casas não ficavam a cem jardas do portão. O ex-padre caminhava rapidamente até elas, tentando espantar o frio. Parou diante das duas casas, escolheu a que parecia mais rica e bateu à porta. Nenhuma resposta. Os punhos de Sales voltaram a golpear a porta, dessa vez mais bruscamente. Novamente nenhuma resposta. Olhou para o ferrolho que segurava a porta e percebeu que não continha nenhum cadeado, eram muito caros naquela época. Soltou o ferrolho e escancarou a porta. Revirando seu cinturão achou uma vela, na qual voltou até a rua principal para acendê-la em uma tocha. O caminho percorrido na volta foi rápido, e suas mãos protegiam a frágil chama da fina garoa.
xxxxxx Ao por os pés na porta se deparou com um homem vestindo uma batina totalmente amassada, igualmente a seus cabelos. O homem alto, porém franzino, fitou-o de cima a baixo como que selecionando as palavras que diria.
- Quem és tu e o que te faz pensar que podes invadir minha casa a essas horas da alva? Em nome de Deus saia já de minha casa, falou o homem, com voz ameaçadora.
- Não utilizes o nome de nosso senhor, TEU Deus em vão. Fui enviado pela igreja de Avignon para trabalhos que tu e teu colega sois incapazes realizar. Preciso de tua cama, devolvo-a ao amanhecer.
xxxxxx Enquanto pronunciava essas palavras Sales se despia, deixando suas roupas molhadas ao lado da lareira que esquentava a casa. Feito isso se deitou na cama de palha, sem dar a mínima atenção para o dono da casa.
xxxxxx Benedito não sabia o que fazer. Sabia que aquele homem era realmente da igreja e que tinha sido enviado por Avignon. Apenas não podia imaginar onde o bispo pudera arranjar alguém tão rude. Teve vontade de empurrá-lo para fora da cama, mas desistiu. Em vez disso ajoelhou-se perto da lareira e rezou, pedindo a Deus perdão pelos seus pensamentos maldosos.
Capítulo IV
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A luz da aurora jorrava pela pequena janela entalhada na parede de pedras.
Benedito acabara de despertar de seu sono, cheio de dores. Levantou-se do
chão frio, onde havia passado toda a madrugada, e vasculhou toda casa em
busca de seu inesperado hóspede. Nada. Como havia aparecido, aparentemente,
o enviado de Avignon havia sumido. Melhor assim. Pelo menos poderia continuar
suas pesquisas sem nenhum intruso dentro de casa. Comeu um pouco de pão,
e logo se voltou para seus livros, nos quais passaria todo o dia debruçado.
xxxxxx Sales acordara cedo naquele dia. Pretendia conversar com o burgomestre logo ao raiar do sol, para não perder o precioso tempo da investigação. Cada minuto daquele dia seria importante. Pretendia terminar o serviço logo, para esfregar o mais rápido possível na face da igreja que ela estava, mais uma vez, errada. Nada de demônios, nada de espíritos malignos. No máximo um insano se divertindo com a vida dos inocentes.
xxxxxx A sala de espera do castelo era pequena se comparada aos grandes salões da cidade natal do investigador. Mesmo assim era bonita e muito bem mobiliada, com móveis feitos de madeira maciça e quadros muito belos. Teve que esperar metade de uma hora para ser finalmente atendido.
- Sir. Sales de Constantina, conde Solveig o aguarda. Acompanhe-me, por favor.
xxxxxx O ex-padre foi conduzido até uma porta ao lado direito da sala, onde ficava o gabinete do burgomestre. Após abrir a porta o serviçal abandonou o local, deixando Sales e o velho homem, baixo e de pele clara, sozinhos para conversar.
- Demoraste a chegar, Sir. Sales. Fui informado que chegarias há um mês!
- Tive problemas, senhor. Mas estou disposto a resolver este impasse o mais rápido possível. Logo prenderemos o responsável pelos assassinatos.
- E como pretendes prender o próprio Satan, homem?
- Lhe garanto que não existe nenhum demônio neste lugar, muito menos o próprio Satan.
- Não foi o que me disseram os estudiosos que temos aqui. Estão assustados. Eles temem Satanás!
- Não fale bobagens. Digo-lhe que em no máximo três dias terás o responsável por esses atos preso em tua masmorra. Mas para isso preciso de tua autorização para investigar os corpos, assim como para andar à noite pelo feudo.
- À noite? Está maluco, homem? É muito perigoso zanzar pela rua ao cair do sol. Sabes que a noite é habitada por...
- Demônios? Espíritos malignos?, interrompeu Sales. Não acredito como existem tantas pessoas que ainda acreditam nisso. Os únicos seres que vagam pela noite são os assassinos e os estupradores. Como queres prender-los se não permites que se ande à noite pelas ruas?
- Certo. Tens minha permissão para ver os corpos, assim como para vagar pelas ruas durante a noite. Mas te digo que quando tu vir os corpos passarás a acreditar no cão.
- Veremos isso agora. Onde posso encontrá-los?
- Estão em uma sala da masmorra. Acompanho-te até o local. Quero ver tua face quando vir os corpos.
- Que assim seja.
xxxxxx Os dois abandonaram o gabinete partindo em direção à masmorra, que ficava em um prédio logo ao lado do castelo. A maioria das salas da construção agora estavam abarrotadas de instrumentos dos mais variados tipos, desde armas até feixes de palha. Apenas uma das salas da masmorra era usada para seu verdadeiro propósito. Caminharam por toda a construção, até cegar a uma escada que conduzia ao subsolo. Ali, um guarda protegia a passagem.
xxxxxx Conde Solveig, o burgomestre, deu ordens para que todos ali permitissem a entrada de Sales em todas as instalações da cidade. Logo os dois estavam na sala, junto com cinco cadáveres cobertos por panos.
xxxxxx Com uma vara de madeira Solveig se dirigiu ao primeiro cadáver e retirou-lhe o pano que o cobria totalmente. Os olhos do investigador percorreram todo o corpo nu. Aparentava ser um homem de meia idade e cabelos escuros. Seu corpo estava totalmente dilacerado por centenas de rasgos, que pareciam feitos pelas garras de algum animal. Solveig foi até os outros corpos e fez o mesmo. Uma cena realmente macabra. Cinco corpos, totalmente nus, com seus corpos marcados por centenas de cortes agrupados paralelamente de três em três, dando a impressão que foram feitos por garras. O sangue, já seco, cobria a maioria dos ferimentos. Apenas um não estava sujo pelo líquido da vida, pois havia sido limpo para estudos.
- Que me diz agora, padre?, inquiriu Solveig, sarcástico.
- Não me chame mais assim, por favor. Essa palavra me traz más lembranças. Sales aparentava estar emocionado. Ma... mas enfim, isso não são provas de nada.
- Algum problema?
- Não, nenhum. Perdão pelo descontrole. Mas como te dizia, esses corpos são apenas mais uma prova de que esses assassinatos foram provocados por algum humano, disse Sales, restabelecido. Pense comigo Conde Solveig: se o demônio realmente existe, podemos considerá-lo um ser de extrema inteligência, pois não se deixou aprisionar durante toda a historia da humanidade. Achas, então, que ele sairia pelos feudos do mundo, matando inocentes e deixando suas garras estampadas no corpo dos infelizes? Além disso, olhe para esses ferimentos. Tu achas que eles foram realmente feitos por garras? Olhe a espessura deles! O investigador cravou suas longas unhas em um dos cadáveres, rasgando sua pele morta.
- Vê? Essas sim são feridas provocadas por garras. Estas outras parecem que foram feitas com um pedaço de metal, ou algo do gênero.
xxxxxx Solveig estava espantado. Como alguém poderia ter um raciocínio tão desenvolvido? Não achou resposta para nenhuma das perguntas feitas pelo investigador. Mesmo assim ainda suspeitava do cão.
- Concordo contigo. Mas se esses assassinatos não foram realizados pelo demônio em pessoa, então temos algum humano que está tomado por ele. Precisamos exorcizá-lo. Sabes o fazer?
- Chega disso!, exaltou-se o ex-padre. Por que vós não sois capazes de perceber que o homem não é bom? Que ele pode matar, roubar, destruir famílias inteiras sem estar possuído por nenhuma entidade? Por que culpam o demônio por pelos erros dos homens? Uma lágrima escorreu pelo rosto do investigador, indo cair em cima de um dos cadáveres.
- Estou
cheio disso. Preciso descansar, procuro-te mais tarde. Sales abandonou a
masmorra sem pronunciar mais uma palavra. Lembranças afloravam em sua mente.
Estava triste. Estava magoado. Por que vivia num mundo de tanta ignorância?
***
xxxxxx O sol já estava altivo quando Sales abandonou a masmorra. Sabia que teria que desvendar todo o mistério sozinho, nenhum morador daquele feudo raciocinava o suficiente para ajudá-lo. Caminhou até a casa onde havia passado a noite em busca de um lugar onde tivesse paz. As casas do burgo, agora iluminadas pela luz da manhã, se mostravam ainda mais imundas. Camponeses e serviçais vagavam pela estrada até seu local de trabalho, enquanto pestilento se debatiam sobre as soleiras de algumas casas.
xxxxxx Em pouco tempo, estava adentrando na residência de seu hospedeiro mais uma vez. Benedito, ao ouvir os passos do intruso na sua casa, foi logo recebê-lo.
- Bom dia padre, estava preocupado contigo. Onde fostes tão cedo?
- Não me chame de padre. Chame-me apenas de Sales. Este é meu nome, falou o ex-padre. Também queria pedir-te perdão pela minha invasão ontem à noite, mas estava muito cansado. Esta manhã estava a conversar com o burgomestre dessa localidade.
- Claro, Sales. Então queres me dizer que não és padre? Poderia me dizer por que a Santa Igreja o enviou, se não é padre?
- Na realidade já fui padre. Mas abandonei a profissão há muitos anos, junto com Deus. Agora me dedico a apenas investigações do oculto.
- Abandonaste a Deus? Isto é um insulto! Por que o fizeste?
- Abandonei-o quando ele me abandonou. E abandonei junto com ele toda a ignorância que ainda cerca todos vós.
- Deus não abandona nenhum de seus filhos. Conte-me o que aconteceu.
- Não preciso de seções de terapia, filho. Aliás, nem sei por que estou lhe contando isso. Sales ainda estava visivelmente abalado devido a sua conversa com Solveig.
- Mas enfim, já que comecei a estória hei de terminá-la, acho que me fará bem. Sente-se, pois é uma longa história, e só a contarei uma vez...