




Outono
Giliane Moura
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O
vento gelado, indicando o fim do outono e o início do inverno, bate
em seu rosto deixando-o rosado, mas isso não incomoda. Permanece imóvel.
Tem o olhar fixo no horizonte. O sol se põe pálido; seus raios não aquecem
como antes. Agora são mornos e tristes, como se lamentassem partir...
xxxxxx Senta-se em meio às folhas secas na calçada. Recolhe um punhado delas e logo perde o interesse. Elas deixam-se ficar. Prepara-se para levantar quando uma folha chama sua atenção. Parece dançar com o vento, que a lança ao ar à sua vontade. Ela faz acrobacias arriscadas, belas, encantadoras. Ela brinca em meio as outras que fingem indiferença, quando na verdade cada uma delas desejava ser a escolhida. Mas a escolhida foi a pequena folha marrom, que não se importa e continua sua dança mágica e envolvente com o invisível, que também se diverte.
xxxxxx Lágrimas tímidas e indóceis mancham seu rosto. O vento cessara, e a pequena folha marrom repousa num canto. Em seus olhos aparece um arfar de cansaço. Meio às lágrimas surge o esboço de um sorriso. Levanta-se lentamente, olha para pequena folha, agora caída, afastada das demais Caminha em sua direção, pára a pouco passos e, após um último olhar, com as mãos nos bolsos, segue seu caminho a passos lentos. Chuta uma pedrinha e a segue com o olhar. Ela vai longe, mais do que seus olhos podem alcançar... Ela segue seu caminho agora independente, e sua vontade, livre como seus pensamentos e lembranças.
xxxxxx Se são bons ou ruins não sei; tudo que sei é que agora são livres. Não como um pássaro que se pode engaiolar, mas livre como o vento, o mesmo que outrora acariciara seu rosto e brincara com a pequena folha marrom. No mesmo instante que acaricia, no instante seguinte destrói o que toca com sua fúria incontrolável e indomável.