




Um
amor das cordilheiras
Rubo Medina
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O colégio onde
trabalhava o renomado Professor, todo final de ano, distribuía bolsas de
estudos para alunos carentes. E era a época em que o phD se sentia mais
realizado. Ele chegava cedo no colégio para ajudar na distribuição das senhas.
Não recebia dinheiro pelo trabalho, somente o prazer do qual não abria mão.
O acadêmico adorava o contato com as pessoas. E ver a multidão que se aglomerava
no portão da escola, no anseio de conseguir uma vaga num dos melhores colégios
da cidade, era para ele algo especial.
xxxxxx Foi exatamente nesta manhã que Dulcinéia, chegando para o expediente, constatou que estava atrasada. Por isso, querendo passar despercebida, entrou pelo portão onde aglomeravam as pessoas. Para sua surpresa, o porteiro estava ali, naquele lugar. Dulcinéia fez meia-volta para não ser vista e passou no meio da multidão. De repente parou surpresa. Entre os pais estava o motorista, o do acidente daquele dia em que ela foi procurar a cartomante. Dulcinéia meio feliz, meio decepcionada, concluiu:
- Se ele está aqui na fila, deve ser casado! Esta preocupação durou poucos segundos. Um pensamento travesso tomou conta de sua mente.
- Já estou atrasada mesmo! A diretora Clarice nem vai me ver. O Professor tá bem entretido distribuindo as senhas! Dulcinéia entrou na escola e foi correndo procurar os dois alunos que ela tinha como amigos, com um pedido até certo ponto estranho. O rapaz se mostrou relutante.
- Sei não, Dulce! Vai pintar sujeira! O professor já deu uma bronca na gente. Se eu levar uma advertência, meu pai me tira o carro. Você sabe...
- Sei é de uns docinhos que mamãe fez ontem. Hum... ela colocou figo cristalizado e damasco... Uma delícia!
- Você trouxe pra gente?
- Trarei amanhã, se meu plano for bem executado!
- Beleza! Vou combinar com o KK. Ele trouxe a bolinha e a raquete. Vai ter um torneio no colégio nos dois últimos horários.
- Tiago, nem quero saber de raquete! Só se for pra dar umas raquetadas na sua cabeça se meu plano falhar!
- Tá limpo!
xxxxxx Instantes depois o portão foi aberto e a multidão começou a entrar ordenadamente na escola, fazendo uma fila que começava no guichê de uma sala até se perder de vista.
Capítulo II
xxxxxx Inesperadamente
uma bolinha rolou pelo corredor. Dulcinéia ia correndo atrás, tentando alcançá-la,
sem se importar com os olhares curiosos sobre si. A bolinha já estava chegando
perto de um rapaz, quando alguém, usando uma sandália de saltos altos e
usando de uma habilidade de um jogador de futebol, deteve-a com o pé esquerdo,
comprimindo-a no chão. Depois abaixou para apanhá-la.
xxxxxx Ao abaixar, um barulho de correntes arrastando no piso soou quase imperceptível em meio ao burburinho das vozes. A garota ergueu-se com a bolinha na mão, olhando em volta com seus olhos azuis intensos e transparentes, à procura do dono da bolinha. Dulcinéia sentiu ódio ao reconhecê-la e encostou-se na parede mordendo o lábio. KK e Tiago também correram na direção da garota, esquecendo completamente da copeira.
- Valeu!, falou Tiago, estendendo a mão para pegar a bola.
- Lembra de nós?, quis saber KK. A garota sorriu encantadoramente. E lembrou do rolo que deu naquele dia em que o colégio inteiro a confundiu com uma top model.
- Pode crer!
- Que faz aqui?
- Vim falar com Tina.
- A filha do ministro?
- Isso! Os dois adolescentes falaram quase ao mesmo tempo.
- Esquecemos seu nome!
- Andie! Andie von der Ghlantèe!
- Hum... nome de artista, véio! Andie sorriu novamente. E acenando gritou:
- Tina! A filha do ministro se virou. Andie falou apressadamente:
- Vou nessa! Tchau! Saiu correndo pelo corredor, balançando as correntes. Os adolescentes se entreolharam e literalmente berraram.
- Demais, mano! As mãos estalaram no ar com tanta força que por um instante fez-se um silêncio surpreso na fila dos pais. Disfarçando, os dois olharam em volta à procura de Dulcinéia.
- Cara, vacilamos com a Dulce!, falaram, segurando as calças frouxas e saíram correndo ao ouvir o sinal para início da primeira aula.
xxxxxx Encostada na parede, Dulcinéia assistiu a todo aquele entusiasmo, tremendo de raiva. De repente olhou o grande relógio no final do corredor e percebeu que estava bastante atrasada para o trabalho. Saiu apressadamente. Lágrimas sinceras escorrendo pelas faces. Dirigiu-se para o vestiário e colocou o uniforme, gritando e dando ponta-pés no armário:
- Aquela branquela tinha que atrapalhar! Logo na hora que tive a chance de chegar perto dele. Que ódio! Dulcinéia tramou uma vingança:
- Vou servir losna pra ela. Digo que é menta e quero ver aquela branquela vomitando na frente de todo mundo! Falou alto e nem percebeu que uma colega acabava de entrar no vestiário.
- Falando sozinha, Dulce?
- Oh, Sabrina ..., ela começou a fazer uma cena. Estou apaixonada. Como o amor me faz sofrer. Ele está aqui no colégio, mas não quero que me veja de uniforme.
- Quem?
- Está na fila dos bolsistas. E o pior é que apareceu aquela tal de Andie de nem-sei-o-quê pra estragar tudo. Contou à colega o plano combinado com Tiago e KK. A colega não pôde conter o riso.
- Dulcinéia, você não tem jeito!
Capítulo III
NO ÔNIBUS, AO
VOLTAR PRA CASA
- Acho que te conheço. Você trabalha naquele colégio. Sou Caio e... Ela
não esperou ele concluir o pensamento e disse:
- Vi o acidente de ontem com o ônibus!
- Pois é...
- Conseguiu a bolsa pros filhos?
- Filhos?
- Você estava na fila!
- Ah não... Dulcinéia percebeu que o rapaz falava com um ligeiro sotaque.
- Não conseguiu? Que pena!
- Quero dizer, não são meus filhos! É meu sobrinho. Minha irmã não pôde ir pra fila porque foi ao Chile resolver uns problemas. Então fui lá fazer a inscrição.
xxxxxx Dulcinéia sentiu o coração quase parar. Olhou ao redor, parecia que as luzes dos postes, refletidas no verde das árvores, dançavam à sua frente. O colorido das lanternas dos carros formavam uma corrente vermelha que a ela parecia uma marcha nupcial. As buzinadas no trânsito congestionado, todo aquele barulho chegava ao seu ouvido como uma orquestra.
xxxxxx Ela olhou ligeiramente para o rapaz que nunca abandonava aquele sorriso. Os sons e as cores do trânsito intenso envolveram-na. Só foi despertada do devaneio quando alguém disse quase no seu ouvido:
- Um passinho à frente, por favor! Dulcinéia se encolheu. Olhou discretamente para Caio e disse:
- Espero que consiga a bolsa pro filho da sua irmã!
- Também..., respondeu o rapaz, sem desviar os olhos do trânsito.
- Vou lá pra trás. Até amanhã, então! Caio acenou com a cabeça, enquanto seus olhos buscaram rapidamente o retrovisor interno do ônibus. Ele disse apenas:
- OK! Ela ficou decepcionada com aquele monossílabo. Empinou o corpo, ergueu a cabeça e foi girando a roleta, quando ouviu aquela voz com sotaque dizer.
- Amanhã vou tirar folga. Um colega vai me substituir. Na sexta estou de volta. Vê se não perde o ônibus!
xxxxxx Seu coração disparou. Ela fitou o rapaz sem dizer nada. A surpresa invadiu a sua fisionomia a ponto de fazê-la corar-se. Tudo que Dulcinéia queria na vida era nunca mais perder aquele ônibus!