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Quem sabe um novo amor?
Rubo Medina

 

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- Clarice, veja este desastre ortográfico. Olha o absurdo! Você não acha que o MEC deveria instituir o latim no currículo? Enquanto falava, o renomado Professor mostrava folhas de caderno completamente rabiscadas para a diretora.

- Professor, os alunos vão dizer que estamos fedendo mofo, replicou Clarice, procurando uma pulseira no meio da papelada espalhada sobre a mesa. Quando resolveu olhar os exercícios, seus olhos quase fugiram das órbitas:

- Céus! Às vezes nem dá pra entender o que escreveram. Veja esta palavra: nimgem, mais esta, seqsso, olha esta, poutrona... não, não posso acreditar!

- O latim daria base para a ortografia, ponderou o phd.

xxxxxx A cada apalavra que a diretora lia, seus olhos se arregalavam mais e mais. Entretanto, a surpresa foi rapidamente contida quando viu a porta sendo empurrada devagar e aparecer o bico de um sapato preto fechado. Depois, lentamente, foi surgindo uma bandeja de prata. Era Dulcinéia, a copeira, que além do lanche, trazia também no rosto um ar de preocupação, nunca antes visto. A diretora se dirigiu a ela, abotoando a pulseira:

- Pode deixar aqui, Dulcinéia, falou, mostrando uma mesinha ao lado da sua.

xxxxxx Como percebeu que a copeira não se movia, Clarice repetiu o pedido. Dulcinéia estava compenetrada. Sentia-se como aquela da novela que foi presa na imigração, que espera um filho, que será deportada e que não abre mão do filho de jeito nenhum. Comprimindo a bandeja contra a barriga, como se realmente aquilo fosse algo do qual ela jamais pudesse se separar, Dulcinéia obedeceu, deixando-a no local indicado.



Parte II


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Encerrada a reunião na qual o renomado Professor deixou Clarice muito preocupada, ele saiu da diretoria. No corredor, avistou, mesmo de longe, Dulcinéia escoltada por dois alunos, os quais, rindo alto, penduravam em seus ombros. O Phd gritou, acelerando os passos:

- O que vocês estão fazendo fora da sala?

- Viemos tomar água, professor!

- Nos ombros de Dulcinéia? A fonte secou! Já pra dentro!

xxxxxx Os adolescentes correram, segurando as calças frouxas que desciam, querendo deixar as cuecas sozinhas lá em cima. Dulcinéia seguiu devagar, desejando de todo coração que lágrimas quentes escorressem pelas faces. O milagre não aconteceu. O renomado Professor alcançou-a:

- Dulcinéia, você dá trela demais pros alunos...

- Trela?. Ela sabia o que o phd queria dizer, entretanto, quis fazer uma expressão de espanto que havia ensaiado há algum tempo.

- Trela, confiança... ficar brincando com eles o tempo todo.

- Professor, somos amigos!

- Sabemos, mas não vamos transgredir as regras!

- Prometo que nunca mais vai acontecer, professor!

xxxxxx Finalizou a conversa e seguiu pelo corredor, passando os dedos abertos entre os cabelos, remexendo-os. Cabeça e ombros erguidos. Não rebolava. Lembrou-se de um curso que fez, no qual a professora de Ética e Postura recomendava:

- "Você é uma mulher sensual. Linda e maravilhosa. Nunca rebole! Deixe que os quadris balancem ao ritmo dos passos. Ande ereta. Fite as pessoas com simpatia. Ponha uma expressão de felicidade na face e o resto... o resto... tudo pode acontecer!". As alunas sorriam com simpatia, deixando desabrochar aquela mulher maravilhosa que cada uma tinha dentro de si.



Parte III


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No final do turno escolar, Dulcinéia voltou para casa com a cabeça nas nuvens, sentindo-se uma princesa. Ao subir os degraus do ônibus, percebeu que ainda não tinha visto aquele motorista. Devia ser um novato na linha. Ela disse boa tarde. O rapaz respondeu com um aceno e um sorriso que mostrava dentes de dar prejuízo ao dentista.

xxxxxx Ela empinou a cabeça, deu três passos à frente e passou pela roleta, encantadoramente, girando os quadris de maneira graciosa, desejando ser vista por todos. Infelizmente alguns trabalhadores aproveitavam o longo percurso do ônibus para tirar um cochilo.

xxxxxx Ela sentou-se ao lado de uma senhora de meia idade. Queria que naquele lugar estivesse um jovem atraente. Recostou a cabeça na janela envidraçada, apoiou o queixo com o dorso da mão esquerda e fechou os olhos. O pensamento ganhou asas, juntamente com o ônibus que avançava pela avenida arborizada.

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