




Pode
ser, pode não ser
Rubo Medina
xxxxxx
xxxxxx A
noite estava fria e chuvosa. Na geladeira nada para comer. Ele poderia pedir
uma pizza, mas o telefone emudecera desde que uma saraivada de raios riscara
o céu. Ele estava morto de fome, depois de um dia incansável de trabalho.
Não pensou muito, pegou o carro e se dirigiu para a padaria mais próxima.
Estava fechada. Viu um boteco aberto logo adiante. Dirigiu-se para lá. Chegando
no caixa, constatou que tinha apenas poucas moedas, o suficiente para tomar
um copo de leite e comer um pãozinho. Nada mais.
xxxxxx Na volta para casa, observou que o tráfego estava mais lento na avenida. Era uma blitz. Ele estranhou uma blitz debaixo daquela chuvarada toda. Depois lembrou que ouvira no rádio sobre um seqüestro de um figurão e que a polícia havia fechado todas as saídas da cidade. Reduziu a velocidade e veio avançando tranqüilamente, quando um policial fez sinal e mandou-o parar. Ele obedeceu. O policial se aproximou:
Parte II
- Boa noite! Os documentos do carro e os seus, por favor!
- Aqui estão! Após examinar os documentos com uma lanterna, o policial focalizou também o interior do carro. Em seguida disse:
- Poderia descer e abrir o porta-malas do carro? Ele desceu. O policial inspecionou o local e não encontrou nada.
- Ok! Está liberado! Tenha uma boa noite!
- Obrigado, disse ele, entrando no carro, quando ouviu o policial fazer um comentário.
- Desculpe dizer, mas a minha paixão é carro. E o seu está muito bem conservado. Nem parece um 87...
- A máquina dele está novíssima. Só a lataria é que tem alguns arranhões. Eu quase não o uso. Até o manual ainda está aqui. E eu nunca o li. Está no porta-luvas desde que comprei o carro. Preciso jogá-lo fora qualquer hora. No momento em que ele abriu o porta-luvas para mostrar o manual do carro, algo chamou a atenção do policial.
Parte III
- Engraçado este retrovisor.
- É bem maior do que este que tenho aqui, falou, ajeitando o retrovisor do carro com a mão esquerda.
- Eu queria trocá-lo, porque este dá mais visibilidade, mas o mecânico disse que não tem jeito.
- É...
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O policial pegou o retrovisor e friccionou-o com o polegar direito. Foi
então que o espelho cedeu e instantaneamente pequenos objetos começaram
a cair em cascata na enxurrada, escorregando para o bueiro. O militar gritou
uma ordem. Ouviu-se então, junto com o barulho dos carros que passavam,
o crispar de armas sendo engatilhadas. Metralhadoras apontavam firmes na
direção dele. Policiais avançavam correndo de todas as direções. Vozes nervosas
davam ordens. Ele se viu cercado por todos os lados. Entrou em pânico. Instintivamente,
tentou fugir.
- Pare!
- Eu...
- Cale a boca! Corre-corre. Algemas. Imobilização completa.
- Então o rapaz, com essa cara de boa-gente...
- Eu... não sei como isto foi parar aí. Encontrei este retrovisor no lixo. Achei que ia servir pro carro. Nunca imaginei que...
- Para a delegacia!
- O que vão fazer comigo?
- Lá o delegado decide! Anda!
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Novamente o som de armas sendo engatilhadas ouviu-se na noite. Um policial
que se afastava de costas esbarrou num cone e caiu. Um tiro ecoou no ar,
ameaçador.
- Anda! Vamos!
Parte IV
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Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo seu rosto. A viatura policial
saiu rasgando a noite, abrindo espaço entre os carros. Suas luzes intermitentes
coloriam de vermelho os pingos da chuva fina que não cessava. Algemado no
banco traseiro, ele não conseguia parar de pensar:
- Eu, com aquela fortuna dentro do carro, comprando pão e leite num boteco, numa noite chuvosa dessas. E ainda por cima ser preso e ter que dar longas explicações a um delegado, para depois pegar longos anos de cadeia. Logo eu, que até poucas horas atrás trabalhava como servente de uma escola.