




Livres
são os peixes
Igor Dias
xxxxxx
De repente, lhe veio o ímpeto de gritar
no meio daquela multidão sem identidade. O grito nem precisava ser alto,
bastaria se os músculos da barriga se contorcessem e a garganta ardesse
o berro contido. Porque o corpo já fazia parte de qualquer força apaziguadora
que existisse nele mesmo. E gritou, gritou e berrou, sem que ninguém percebesse
sua angústia. Imaginou que agora estava vazio, e que a face do nada estava
à porta de sua alma, zombando daquele existir deserto. Então decidiu procurar
um rosto oculto na multidão, que o preenchesse com alguma sorte de impressão.
Viu um rosto de mulher pairando num mar de olhos e bocas e orelhas e cabelos...
Sentiu vergonha de si, e de toda aquela expressão afetada que insistia em
desenhar em seu semblante. Lembrou que todas as pessoas carregam malas invisíveis
nas costas, onde guardam as máscaras e fantasias que já usaram um dia. E
a sua era leve, porque não gostava de estar sempre mudando e deixando pra
trás as paisagens. Então não teve dificuldade de achar em sua mala um sorriso
meio desbotado que outrora tinha usado.
xxxxxx Agora não estava vazio, porque sentia o peso de um sorriso em seus lábios. Pensou que tinha se tornado um quadro, e então tentava descobrir que contornos possuía. Tocava seu corpo procurando vestígios de tinta, que confirmariam sua suspeita, mas nada encontrava, e então decidia atirar-se debaixo da água de um chuveiro elétrico.
xxxxxx Saiu do banho cantando, imaginando inconscientemente que alguém o estava ouvindo na sala, mas constatava que não havia ninguém. Havia um silêncio profundo e a luz azul de um aquário onde nadavam dois peixinhos coloridos. Observava os peixes durante longos instantes, e às vezes suspeitava que estava sendo percebido e que eles tentavam comunicá-lo de algo terrível que estava por acontecer.
xxxxxx Desistiu de tentar compreender os peixes. Pegou as chaves e desceu pelo elevador vazio, e não encontrando ninguém, decidiu subir até o último andar para então descer tudo novamente. O elevador parou no sétimo andar, então deu uma olhadela no espelho e preparou-se para receber alguém que quisesse descer. Chegou a ouvir passos pelo corredor, inclinou a cabeça para fora em busca de alguém que quisesse descer, mas não havia ninguém que quisesse descer, e a porta fechava-se mecanicamente.
xxxxxx Voltando para casa, foi até a cozinha e pegou uma maçã na geladeira. Apertou a maçã nas mãos num ato quase sexual, e partiu-a em duas fatias. Estava certo de que aquele era o seu último dia, e que precisava morrer o mais depressa possível. Decidiu comer uma fatia da maçã e foi até a sala avisar aos peixinhos azuis que tudo havia acabado. Mas o aquário estava vazio, os peixes não estavam mais lá. Só havia a luz azul e o silêncio de sempre. Então comeu a outra fatia, sentou-se no sofá, e se viu sozinho no mundo.