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Outros tempos
Rubo Medina

 

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xxxxxx Uma fada foi contratada para tomar conta de duas crianças, enquanto seus pais se divertiam. Ela estava realmente precisando de grana e achou interessante fazer aquele bico. Ela mesma vai nos contar detalhes daquela noite passada com os pequenos. Vamos ouvir? Ao certificar-me do endereço, bati na porta. Uma voz masculina convidou:

- Entre!

vPensam que entrei? Eu não! Tive medo de que fosse a voz do Lobo Mau. Fui convidada para a casa de crianças. E aquela voz me pareceu de adolescente. Fiquei lá fora, indecisa. Alguns instantes depois, a porta se abriu e apareceu uma garotinha:

- Quem é você?

xxxxxx Antes de respondê-la, olhei para dentro. O irmão brincava a um canto. Ao notar a minha presença, largou o brinquedo e veio correndo para o meu lado, perguntando também.

- Quem é você?

- Sou a fada que o Programa Primeiro Emprego enviou para cuidar de Paulinho e Mara. São vocês?

- Somos!

- Com licença.


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Entrei. Deixei minha mochila sobre uma cadeira e comecei a examinar a sala. Não era o que se podia esperar de uma família que se denominava classe média alta, pensei, chegando à conclusão de que a quebradeira é geral mesmo. O garoto interrompeu meus pensamentos.

- Você é uma fada?

A menina nem me deu tempo de responder, pois foi logo fazendo uma observação curiosa.

- Uma fada com essas roupas? Não foi isso que lemos nos livros.

- Sou moderna, crianças! Na crise em que o país atravessa, uma fada não pode mais sair dos livros infantis como o autor quer.

- Você também não usa coroa... Fiquei danada, mas me calei. Afinal, fui lá para contar historinhas, não para perder a paciência.

- Minha coroa está no prego na CEF. E cadê grana para tirá-la de lá? Andar com jóias é arriscado. A cidade está cheia de marginais.


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Enquanto as crianças se afastavam cochichando, um pensamento atravessou a minha mente. Estou desconfiada de que existe por aí alguma escola de formação e aperfeiçoamento de marginais (EFAM). A cidade ficou violenta. Qualquer hora vou visitar o meu amigo Augusto Comte. Quero ver se ele me explica essa transformação que ocorreu na "vida urbana". Agora, se por acaso calhar de no dia da visita o tal Karl Marx estiver por lá, volto correndo para casa. Não quero me complicar.

- Fada, você nos leva para conhecer a Floresta Virgem?

- Não é Floresta Virgem não, Paulinho! É Floresta Encantada!

- É isso aí. Vamos nessa?

- Pirou? Pirou de vez? Vamos é ficar aqui mesmo, sem botar o pé na rua.

- Por quê?, quis saber a menina.

- Por muitos motivos. Primeiro: a floresta a esta hora da noite está infestada de assaltantes. A cada esquina um pula na goela de alguém. Segundo: com esse negócio de crise de energia elétrica, houve corte no fornecimento, provocando um apagão. Nem vaga-lumes tem mais. Os poucos que restam estão sendo aproveitados como fonte alternativa de energia. Portanto, meus caros, daqui não saio.

- Podemos chamar um policial!

- Que policial, menino! Esqueceu da greve? Olha a rua! Veja! Está completamente deserta... de policiais.

- Então conte a história de Alice no País das Maravilhas.

- "País das Maravilhas"! Tá brincando! Não tem lido os jornais? Não existe mais o "País das Maravilhas! Depois que houve a invasão americana, Alice está sendo julgada nos EUA.

- E Branca-de-neve? Como era mesmo aquela história?

- Branca-de-neve? Branca-de-fome, a coitada. O desemprego chegou também para os Sete Anões. Não pensem que eles saíam para o trabalho todo dia, deixando Branca-de-neve tomando conta da casinha. Mentira! Dadas as circunstâncias, Branca-de-neve foi obrigada a sair de casa às 5 horas da matina para as filas do SINE. Os anões, coitados, eram metalúrgicos e por causa da crise(?) na indústria automobilística, foram despedidos. Receberam o FGTS, é claro, mas um belo dia alguém bateu à porta. Assustados, eles perguntaram: Quem é? Do lado de fora, uma voz grossa ameaçou: Abra senão eu arrebento esta porta! Tremendo de medo, os anões foram abrir a porta. Havia do lado de fora um monstro terrível, que assusta todo mundo, chamado inflação. O monstro avançou casa adentro e LAP - papou todo o dinheiro deles.

xxxxxx As crianças recuaram, com os olhinhos arregalados. Por falar em Branca-de-neve, ela gostava muito de ler, mas nos últimos tempos parou de comprar livros. Com razão. Como pode um livro custar uma fortuna dessas? Ela não perdia tempo. Tomava livros emprestados nas Bibliotecas Públicas e não devolvia. Se devolvesse, arrancava capítulos inteiros e guardava para si. Um dia, folheando uma enciclopédia, viu escrito: ÊXODO RURAL. Mais embaixo leu: "Saída do trabalhador do campo para a cidade, à procura de melhores condições de vida". Como ela não continuou a leitura, não ficou sabendo das conseqüências do êxodo rural. Arrumou as malas, virou a página do livro e leu em letras garrafais: MIGRAÇÕES. Então ela partiu de trem, para fazer bonito, para dizer que a malha ferroviária ainda tinha alguma serventia. Foi para Brasília. Na despedida, os Sete Anões gritaram:

- "Até breve, amiga! Volte quando a moeda brasileira estiver estável."

xxxxxx E retornaram tristes para casa. Ao chegar, encontraram debaixo da porta uma carta. Felizes, rasgaram o envelope, morrendo de curiosidade. Fazia tempo que eles não recebiam correspondência. Os amigos alegavam que ficou caro botar carta nos Correios. Uns pães-duros! Não queriam gastar. É a pura verdade. Os anões quebraram a cara. Aquela era uma carta de amigos sim, mas amigos da onça. Os coitadinhos não conseguiram suportar o reajuste do aluguel de acordo com os índices do governo e foram despejados.

xxxxxx Em determinada hora, já bastante cansada, resolvi me assentar. Perto de mim havia um bloco de papel. Peguei-o e comecei a fazer umas continhas. Curioso, o menino quis saber:

- Mara, o que a fada está escrevendo naquele papel? Ela saiu na ponta dos pés, chegou por trás de mim e olhou. Voltou correndo e ouvi-a cochichar.

- Paulinho, tem um número grandão escrito em cima, um "x" no meio e outro número bem grande embaixo. Ele, achando que estava anunciando um novo 21 de Setembro de 2002, gritou:

- Já sei, Mara! Ela está calculando a dívida externa do Brasil! Aquele menino era mesmo muito esperto. Ouçam:

- Fada, se Branca-de-neve foi para Brasília ser Funcionária Pública, Alice está sendo julgada ou está escondida em alguma caverna no Afeganistão. Não existe mais o Lobo Mau e a floresta está infestada de marginais, então está tudo acabado. Para calar de vez a boca daquele garoto, falei alto, erguendo as mãos.

- Aí é que você se engana! Nem tudo está acabado! Ainda tem a novela das oito da Globo. E com licença que já são mais de nove e a novela já está entrando no ar.

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