




O
cavaleiro das nuvens
Rubo Medina
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Não havia mais
ninguém na sala. Somente as duas. Helga olhou o relógio e viu que não era
apropriado para uma senhora idosa sair dali àquela hora. As horas, tal como
sua infância, passaram sem que ela percebesse. Tudo passou! Até as velas!
Já não colocam mais velas! Não havia mais aquele cheiro de flores e velas
que penetrava nas narinas. Nem aquele choro prolongado e saudoso dos que
ficavam. Meio sonolenta, Helga inclinou a cabeça. E sensações de uma infância
muito distante afloraram em sua mente.
II
xxxxxx A
fogueira crepitava, soltando faíscas vermelhas. Vaga-lumes pontilhavam à
noite, em meio ao brilho intenso do luar. Gansos grasnavam no lago. E misturando-se
ao brilho da lua, as aves pareciam flocos de nuvens brancas deslizando sobre
as águas. Distante, muito distante, corujas e curiangos cantavam nas árvores.
E nesse cenário de cores e sons, surgia Frederica, na pontinha dos pés,
rodando a saia e fazendo voz misteriosa.
- Ninguém viu o que eu vi! As crianças rodeavam-na, pedindo, mesmo sabendo do que ela estava falando.
- Mostra pra nós, Freda! Ela se calava. Observava cada rostinho. Tinha um sorriso de felicidade nos lábios. Depois, ordenava:
- Olhem pra cima! Todos os olhares se erguiam para o céu.
- A lua está lá!, gritava Frederica, apontando.
- Olha lá... o cavalo...
- montado no cavalo...
- é o cavaleiro...
- Será que ele não cai das nuvens?
III
Todos riam.
E começavam a correr pelo quintal, cantando e batendo palmas:
São
Jorge, meu guerreiro
Que mata o dragão
Dê pra mim a sua espada
Dê pra mim seu alazão
Nuvem branca, passageira,
Mexe mexe bem ligeira
E faz roda com as estrelas
Pro São Jorge, Cavaleiro
Descer aqui bem ligeiro
E trazer meu alazão.
xxxxxx Continuavam olhando as nuvens deslizarem num infinito prateado. As manchas na lua, para aqueles olhinhos inocentes, eram um cavalo, montado por um bravo guerreiro, de capacete, armado de lança e pronto para atacar o dragão que lançava chamas pela boca.
IV
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A fantasia envolvia os pequenos, deixando-os extasiados. A voz da criada
soava, esclarecendo como se fosse a primeira vez que fizesse aquilo.
- Aquele na lua é São Jorge, o Valente Cavaleiro. Vejam como ele vai andando. Ele vai procurar o dragão pra matar. Olha a lança dele! Estão vendo? As crianças olhavam demoradamente. Cada cabecinha construía fantasias com o bailar das nuvens. E confirmavam:
- É mesmo, Freda. O cavalo está galopando!
xxxxxx Então Frederica entoava a canção e eles a acompanhavam, de mãos dadas, rodando em volta dela. A brincadeira era bruscamente interrompida. A mãe aparecia na varanda e gritava.
- Quantas vezes eu já disse pra parar com essa brincadeira supersticiosa? Já fizeram a lição da Escola Dominical? O Pastor vem aqui amanhã. Quero ver... E advertia a criada:
- Frederica, pare de ficar incutindo bobagens nas cabeças das crianças. Leia a Bíblia pra eles!
xxxxxx Frederica baixava os olhos, envergonhada. As crianças é que liam a Bíblia pra ela. A mãe entrava. Fechava a porta da sala. Frederica pegava as pontas da saia, abria os braços e ficava na pontinha dos pés. E correndo na frente dos pequenos em direção da casa, falava de maneira que só eles pudessem ouvir:
- Ninguém viu o que eu vi!