




Inquietante
amor
Rubo Medina
xxxxxx
xxxxxx Naquela
manhã, sentado na poltrona forrada com capa de veludo macio, ele a esperou
por mais tempo que das outras vezes. Parecia que ela estava de má-vontade,
mas que de jeito nenhum deixaria de ir ao seu encontro. Pensando nela, ali,
atarefada na cozinha, Roger sentiu uma ternura nunca antes experimentada
- sensações envolventes, de felicidade. Estava apaixonado, com certeza.
E estava cumprindo com a sua obrigação de detetive também. Aquilo lhe dava
conforto e inquietude, ao mesmo tempo.
xxxxxx Quando saíram e atravessaram o pequeno portão da casa antiga de muro baixo, Débora deu uns passos na direção oposta e falou com uns vizinhos, fazendo-o esperar. Depois da conversa, subiram lentamente a rua de calçadas estreitas e chegaram numa praça, de onde se via toda a cidade lá embaixo, coberta por uma camada de névoa transparente, que envolvia o topo dos edifícios. Débora começou a dizer:
- Acho que esses encontros já não são...
xxxxxx Roger interrompeu-a com um gesto, guardando um caderninho de anotações no bolso da jaqueta de couro. Trazia no rosto moreno um sorriso sem graça.
- Vim te dizer que este é o nosso último encontro. Não chegamos à conclusão nenhuma sobre o caso e estou sendo transferido para outra cidade. Vou te dar o meu celular...
xxxxxx Observou-a se aproximar naquele seu caminhar de passos lentos e observou também que havia no seu rosto pálido um certo alívio ao ouvir tais palavras, pois imediatamente Débora tirou da bolsa um pedaço de papel e aguardou que ele dissesse o número. E foi exatamente o que Roger fez, enquanto viu que ela, com mão trêmula, anotava erradamente o número. No mesmo instante, ela se deu conta do erro, embolou o papel e atirou-o em cima de um banco coberto de flores amarelas que caíam lentamente de um ipê. Um sorriso constrangido saiu de seus lábios.
- Vou anotar novamente!, disse, fitando-o, enquanto subia a gola do casado até o queixo, tentando se proteger mais do frio.
xxxxxx Dentro daquele casado preto, ela parecia mais alta do que na realidade o era. E parecia mais frágil também. No mesmo instante, uma rajada de vendo soprou na praça. E as pétalas do ipê caíam como uma cachoeira, forrando de amarelo todo o chão em volta dos dois. Foi então que Roger, enfiando as mãos frias nos bolsos, percebeu que ele tinha a chance de nunca mais vê-la. E talvez fosse este o desejo dela também. Assim, o rapaz disse o primeiro número que passou por sua cabeça. Ela anotou apressadamente. Disse adeus e desceu a rua. Ao chegar no portão da casa de muro baixo, virou-se e acenou pra ele. Roger teve a impressão de que havia tristeza em seus olhos castanhos, mas se conteve e virou-lhe as costas, olhando pensativo para o gramado, agora coberto de pétalas amarelas. Pensou no tempo que passaram juntos, mas não se arrependeu de ter agido daquela maneira. Aquele número errado era a garantia de que se ele a encontrasse novamente, com certeza seria por obra do mero acaso.