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Mais um conto de amor
Rafael Falcón

 

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xxxxxx Juliet não sabia como parara ali, mas com certeza não quereria sair. As majestosas árvores que enchiam o lugar eram fortes e tão ligadas que impediam a entrada da luz do sol em alguns pontos. A grama, orvalhada pelo horário propício, dançava ritmicamente, sendo guiada pelo vento brincalhão, e Juliet teve a impressão de que seus cabelos dançavam também...

xxxxxx Ao longe, uma cachoeira animava as águas de um riacho límpido e tentadoramente refrescante. A garota se levantou. As roupas pobres que usava, roubadas de um camponês, não faziam jus à sua postura de dama. No entanto, tornavam seus movimentos livres, o que permitia que andasse agilmente na floresta, e evitavam que fosse reconhecida e levada de volta. Fora parar num bom lugar, uma vez que deveria ser deserto, e assim ninguém lhe faria mal ou tentaria arrastá-la para perto de pessoas. Era compreensível, aliás, que tivesse tanto medo dos violentadores; Juliet possuía cabelos negros e escorridos, tão belos quanto os profundos olhos verdes e - descobrira - o suave e bem delineado corpo. Mas isso não importava para os animais selvagens, que só queriam viver suas vidas em paz - e isso era justamente o que a menina desejava também.

xxxxxx Levou alguns minutos caminhando pela floresta, com o objetivo de conhecer melhor o território onde pretendia viver, mas não conhecia os perigos da vida livre; passando por uma área mais fechada, foi capturada por um galho que se movia. Sim, meus amigos; o galho se movia! Juliet vive na mágica Idade Média, onde existiam feiticeiros e dragões, e tudo era possível nessa época de maná e sabedoria espiritual. Pois estava o galho envolvendo a linda rapariga, pronto a esmagá-la de uma vez, quando um cajado libertou-a (usando de uma pancada bem forte no libidinoso galho). Juliet caiu no chão, soltando um gemido, mas sem esquecer de olhar na direção de seu salvador. E que surpresa (falando ironicamente) para a menina que já cansara de cavaleiros: era um homem. Trajava-se como um escudeiro, o que certamente indicava uma origem pobre. No entanto, sua expressão séria e sua habilidade no combate certamente lhe davam o poder de passar por um cavaleiro de Camelot, se quisesse fazê-lo. Ele tinha cabelos e olhos castanhos, que embora brilhassem ao sol, eram bastante escuros em ambiente normal (talvez por viver na floresta negra por tanto tempo). Depois de aniquilar a árvore atrevida, sempre usando o cajado, virou-se para Juliet. Aproximando-se, disse:

- Olá, amiguinha. Parece que você não teve um bom dia, hoje. Parar na floresta negra, cair nas mãos (ou galhos, como preferir) de uma planta solitária e ainda encontrar com o ermitão mais mal-humorado de todo o reino, eu diria que esse azar não é para qualquer uma. Você tem nome?

- Tenho sim, me chamo Juliet - respondeu, sorrindo - e você não me parece mal-humorado ou ermitão, meu senhor.

- Talvez a juventude engane seus olhos, irmãzinha Juliet - sorriu, meio que maldosamente, o rapaz - mas ainda que novo, não sou outra coisa senão um isolado do mundo. Talvez eu tenha uma história triste, como todo ermitão; mas nada disso importa. Chamam-me, os fantasmas, de Romeo, e aconselho que não se acostume com meu sorriso.

xxxxxx Disse isso enquanto estendia a mão para ajudá-la a se levantar, o que fez muito grata; mas quando olhou nos olhos de Romeo, a jovem se surpreendeu. Um par de esferas azul-claras que quase sumiam no alto dos olhos mostrou a Juliet uma triste realidade: o ermitão era cego. Ao que parece, ele notou a descoberta da amparada, mas não comentou nada. Não havia necessidade, provavelmente. Saíram, então, os dois a caminhar, e Romeo disse:

- Prosseguindo, irmãzinha... Acho que posso te ajudar a sair daqui, se me disser de onde veio. Se preferir, não exijo que fale do porquê de estar usando roupas de homem, ou como chegou aqui.

- Desculpe, Romeo, mas você não entendeu... Eu gostei daqui! Quero ficar nessa floresta...

Ele parou de andar e virou-se para ela. Depois de alguns segundos, falou:

- Eu vivo nessa floresta, e não vou te proteger pra sempre. Não pedi por uma responsabilidade quando vim para cá.

xxxxxx Juliet se assustou com a reação furiosa do rapaz, uma vez que ele estava sorrindo até poucos segundos atrás. Mas não se abateu:

- Bom, eu acho que não sobreviveria mesmo aqui sozinha... Se houverem mais árvores como aquela, não vou durar nem cinco minutos. Mesmo assim, prefiro ficar aqui a voltar para casa.

- Não posso deixá-la correndo perigo aqui, inexperiente e em um lugar perigoso.

- Então me ajude a me adaptar, senhor...

- Não! Eu não ajudarei, irmãzinha. Infelizmente, você terá que ir embora. Com minha ajuda ou sem ela.

- Nesse caso... Juliet deu um sorriso cínico, ao que respondeu Romeo com um rosnado.

xxxxxx Dando um salto impressionante, ele caiu em cima de um pequeno monte, girando o cajado, e cantou no antigo ritmo medieval:

- Oh, oh, oh, oh; oh, oh, oh, oh! A floresta é bela...

Subiu mais alto, indo parar no alto da cachoeira, e Juliet tentou segui-lo, embora o fizesse com dificuldade. Ele continuou:

- Não se sabe o que pode cá acontecer. Sei que mordidas de grifo podem te doer!. Minha alma dói, crê, só de imaginar. As torturas que tu poderias cá passar!. Mas assim, mesmo assim, devo ratificar. Ando só, ando só, e só devo andar!

xxxxxx Cantavam os pássaros da floresta, fazendo o som de fundo da canção, no mesmo ritmo. Difícil era dizer se Romeo copiava o ritmo dos passarinhos ou se o contrário. Prosseguiu, saltando um buraco enorme:

- Ah, afasta-te de mim. Pois devo te lembrar. Minha vida teve um fim. Isto é só um penar!. Talvez seja bem difícil para entender. Mas venho andando só, e hei de andar até morrer!

- És um senhor tão cruel, que mesmo tu não vês - retrucou Juliet, suando para subir numa pedra - que salvaste minha vida, agora que me dês. Uma única saída que não te seguir. Seria eu mal-agradecida a não te servir!

- Oh, oh, oh, oh; mas quem servirá a quem?

- Ah, ah, ah, ah; responde tu também!. Pois vejo que estás cá só e não tens mais ninguém. Dou-te, então, m'a companhia, melhor que um vintém.

- Guarda tua piedade para quem precisar/Já que sempre andei só e só hei de andar!

- Mas senhor, se tu me mandas dar minha amizade. Àquele que precisar, não tenho vontade. Pois salvaste a minha vida, e assim escolheste. Fazer tua esta cativa, e meu juízo é este!

xxxxxx Romeo olhou-a, parado, e esperou que ela chegasse ao lado dele. Exausta, arfando, Juliet caiu a seus pés, para ser ajudada a levantar. Foi então que o rapaz lhe disse:

- Ficas comigo esta noite. Mas não espere mais, irmãzinha.

xxxxxx Foram, juntos, até a caverna onde vivia o ermitão. Ele andava pela floresta como se pudesse ver, o que mostrava o quanto era familiarizado com todo o terreno. Ele era parte daquilo. A caverna era quente e tinha muitos utensílios trazidos dos burgos; talheres, roupas, rações. Lá, também, Juliet conheceu o falcão Áquila, velho companheiro de Romeo. À noite, em volta da fogueira, ela contou a ele que era filha de cavaleiro. O rapaz, então, pareceu esquecer-se de que havia alguém a seu lado; os olhos cegos perderam-se no infinito, e ele disse:

- Há muito tempo, eu quis ser um cavaleiro. Cuidava dos cavalos no estábulo da fortaleza, e observava os treinos dos grandes nobres... Treinava, para um dia me tornar um daqueles "campeões". Incrível como os garotos sonham.

xxxxxx Juliet pensou em interromper com uma pergunta, mas entendeu que se fizesse isso corria o risco de que ele parasse de falar, liberto dos fantasmas. O narrador prosseguiu:

- Até que, numa noite, aconteceu. O estábulo pegou fogo, e eu corri para ajudar os animais a sair. Só que Trovão, o bom Trovão, estava assustado... E quando ele me acertou... Eu... Você não imagina como a pata de um cavalo pode ser forte... E... Deus...

xxxxxx Os olhos começaram a lacrimejar. Era visível que estavam cheios de água, prontos a derramar todas. Ele, porém, fechou-os (aos olhos), e continuou corajosamente:

- No começo, eu só via sombras... Formas... E depois, pouco a pouco, o meu mundo escureceu... E sumiu... E tudo perdeu o sentido. Tudo perdeu o sentido... Deus, eu tinha doze anos... Eu não podia entender por que eu, entre tantas pessoas, tinha que perder todos os meus sonhos tão cedo! Claro, claro que eu não podia mais ser um cavaleiro... Eu nunca seria um cavaleiro do reino... Um homem cego não vale nada...

- Você é tão bom quanto um cavaleiro de Camelot.

xxxxxx Juliet não resistira. As lágrimas já corriam pelo rosto de Romeo, quando ela o interrompeu. Ele virou o rosto na direção da voz dela, procurando com os olhos inúteis algum ponto colorido que pudesse indicar a presença da garota... Não pôde, claro. Mas falou, os olhos fixos numa árvore por cima do ombro de Juliet:

- Você... Você acha? Você realmente acha que eu...?

- Sim, eu... - começou a responder a garota, mas foi interrompida:

- Não! Está tudo certo. Não importa o que aconteceu, está terminado. Hoje, é o que eu sou: um ermitão. Sem olhos, não sirvo para nada. Sou um peso para a nobreza e seria uma vergonha para qualquer ordem de cavalaria. Vá dormir, irmãzinha... E deixe os que não têm mais chance de serem felizes com suas mágoas. Talvez isto lhe sirva de lição e faça pensar em quantas chances você ainda tem. Boa noite.

- Eu não vou dormir, meu senhor. Não vou dormir, Romeo.

- Como? Então ficará acordada aí até...

- É como só os olhos podem dizer...

xxxxxx Ela estava cantando. Repentinamente, o vento bateu nas folhas diferentemente. As corujas e os insetos fizeram sons em ritmo. E Juliet entendeu: a mágica estava ali. Com um salto, ela se pôs de pé e disse:

- É como só os olhos podem dizer. É o que as estrelas fazem de você... É como a vida correndo em si. Ah, meu senhor, e ela corre em ti! Ah, meu senhor, e ela corre em ti. Pareceram cantar também os sapos. Juliet levantou Romeo e segurou suas mãos, cantando:

- Tua bondade não mostrou-se em falar. Mas quando foste m'a vida salvar!. Ó, insensível, és tu, ermitão. E com tanta frieza... Fez-se uma pausa na letra, e os ritmos continuaram. Juliet então cantou mais alto:

- E com tanta frieza, ganhaste o meu coração!

"É como só os olhos podem dizer", ecoou na floresta. Romeo pulou para uma pedra enorme e continuou:

- Sim, como só olhos podem dizer. Fala bem, mas fala de você!. Nem tudo há de se ver num olhar. Principalmente... Outra pausa. Ele continuou:

- Se os olhos não podem enxergar! Juliet correu para perto dele e o abraçou, respondendo em canto:

- Ah, cavaleiro ermitão. Sim, pois és cavaleiro!. Tens perdida tua visão. Mas o belo de teus olhos. Mas o belo de teus olhos, cantaram as corujas.

- Ainda está inteiro!, completou Juliet.

Romeo então a olhou, sorrindo e chorando, e disse:

- Ó donzela, tu vieste, e tentei negar. Mas se já aqui chegaste, não vais mais voltar. Não sei como tu quiseste este ermitão. Mas, ainda que eu lamente, é teu meu coração! Mas ainda que eu lamente, ecoou. Juliet e Romeo se olharam nos olhos e sorriram, dizendo juntos:

- É teu meu coração...

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