




Dulcinéia,
a sonhadora
Rubo Medina
xxxxxx
xxxxxx Dulcinéia,
a copeira da escola onde trabalhava o renomado Professor, 28 anos, cabelos
negros e bem frisados, tinha duas grandes paixões: a vida e as novelas.
Com a primeira paixão, ela convivia muito bem. Com a segunda, dependia do
que os autores iriam reservar de surpresa a cada capítulo. Ela vivia as
situações, os romances, até assumindo a personalidade dos artistas. Conhecia
a todos. E falava com propriedade da vida de cada um, como se fosse a sua.
Mas no fundo no fundo, Dulcinéia sonhava com um grande amor. Sonhava que
algum dia um homem maravilhoso iria chegar, abraçá-la com carinho e sussurrar
no seu ouvido aquela frase que já foi sussurrada 23.947.216 vezes nas novelas.
- "Eu nunca senti por mulher nenhuma o que estou sentindo por você. Eu te amo, Dulcinéia."
xxxxxx Foi o renomado Professor que arranjara aquele emprego na escola para ela, há quatro anos. E naquele estabelecimento, ela gozava da consideração de todos, principalmente dos alunos, que a adoravam. Daí a confusão que ela aprontou com Andie von der Ghlantèe naquele dia, pensando que a lourinha fosse alguma top model e que os alunos adorariam conhecê-la.
2ª parte
xxxxxx Dulcinéia
levou um susto no dia seguinte à confusão, quando recebeu um comunicado
para comparecer à diretoria da escola. Ela chegou cabisbaixa, empurrou lentamente
a porta e entrou. Uma mulher loura, vestida como se estivesse pronta para
levantar-se da cadeira e sair diretamente para uma festa, a recebeu.
- Dulcinéia...
- Professora Clarice, minhas desculpas pelo que aconteceu!
- Deixe-me terminar, por favor! A elegante diretora, com um gesto, convidou Dulcinéia para se sentar e continuou falando.
- O que se passou por sua cabeça quando arrebanhou todo o colégio para aprontar aquela confusão ?
- Senhora, a lourinha parecia tanto com a...
- Isto não é justificativa para o que você fez, Dulcinéia!
xxxxxx A copeira começou a chorar baixinho, sem vontade. Querendo fazer cena. E através das lágrimas, vislumbrou o rosto da diretora. Nenhuma emoção foi encontrada ali. Ela pensou, imaginando-se vista por cerca de 70 milhões de telespectadores:
- Essa cascavel vai me demitir! Logo eu, que preciso tanto deste emprego. Até parece aquela do banco, daquela novela, que acha que pode mandar em todo mundo.
3ª parte
A diretora levantou-se e disse, recolhendo uns disquetes e CDs que estavam
espalhados na mesa:
- Que isto não aconteça nunca mais, Dulcinéia!
- Tá certo, senhora! Vou pro Departamento Pessoal!
- Você trabalha lá agora?
- A senhora não deixou claro que vai me demitir?, disse a frase saboreando cada palavra, imaginando-se diante de uma câmera de TV.
- Demitir? Dulcinéia, você acha que nasci anteontem? Acha que vou me jogar na "cova dos leões". O colégio inteiro te adora! Imagina se vou "dar carne pro gato!"
xxxxxx Dulcinéia sorriu por dentro, sentindo-se vitoriosa. Imaginou-se uma daquelas personagens de novela que jamais falaria os chavões que a diretora disse. Clarice acabou de organizar a mesa, advertindo Dulcinéia:
- Só quero que você sirva um daqueles petiscos com caviar que você faz, para uma pessoal lá do Senado que vem visitar o colégio à tarde. E por favor, vê se não confunde o homem com nenhum envolvido em escândalos, senão você é capaz de chamar a Polícia Federal e aí é que "a vaca vai pro brejo".
4ª parte
xxxxxx No
final do expediente Dulcinéia voltou para casa num ônibus coletivo abarrotado,
mas estava feliz por não ter engrossado a fila dos desempregados e mais
feliz ainda pela expectativa de mais um capítulo da novela que iria assistir.
xxxxxx Após assistir à última novela, deitou-se na sua imensa cama de casal, sentindo-se realizada. Lentamente seus olhos iam se fechando, enquanto um sorriso ia se espalhando pelos lábios, iluminando a face. Os sonhos começaram a povoar a sua mente.
5ª parte
xxxxxx Um
homem alto, corpo atlético e pele bronzeada de sol, olhos castanhos e cabelos
longos, desgrenhados pelo vento, aproximava-se do castelo num cavalo branco.
Ele usava apenas uma calça larga de algodão cru, presa no tornozelo, e uma
faixa longa e branca na cintura.
xxxxxx Ouvindo os cacos do animal ao longe, Dulcinéia acordava, aguçava os ouvidos. O som ia chegando mais e mais perto. Ela saía da cama, abria a janela do quarto. Galopando, o cavaleiro de cabelos ao vento avançava, apressado em chegar.
xxxxxx Fazia calor. Dulcinéia vestia o hobby de rendas e saía para a varanda. Sua pele escura fazia contraste com o branco do tecido das roupas. O rapaz já estava bem próximo. Ao vê-la sob o luar, com aquelas roupas esvoaçantes, ele olhava-a longa e apaixonadamente nos olhos. Ela estremecia. O rapaz não conseguia desprender o olhar do seu rosto, fascinado por sua beleza. E fitando-a intensamente, ele desatava a faixa e atirava-a ao vento. Dulcinéia estremecia. Sentia que iria desfalecer. O rapaz empinava o peito musculoso. E o cavalo, trotando, aproxima-se da varanda. No céu a lua se exibia, imutável e eterna.
xxxxxx De repente, num passe de mágica, aquele homem de olhos castanhos, montado num cavalo branco, roubava-a, como antigamente. E juntos iam para bem longe, a caminho da felicidade.
6ª parte
xxxxxx Dulcinéia
acordava no dia seguinte pensando no sonho, ainda tonta de emoção. Escancarava
a janela do quarto, sorridente, declamando:
- Branca manhã, como és bela! Os braços abriam-se e as mãos esticavam, num gesto de bailado. Voltava dançando para o interior do quarto e consultava o espelho.
- Meu espelho, diga-me que o meu amor vai aparecer hoje. Diga-me e serei a mulher mais feliz do mundo!
xxxxxx Implorava e parava para ouvir a voz do espelho. O silencio era interrompido somente pelo barulho dos ônibus coletivos que começavam a circular, denunciando mais um dia de trabalho.