




Acidente
odontológico
Rubo Medina
xxxxxx
xxxxxxDizem
que antigamente a onça tinha os dentes iguais aos da gente, quer dizer,
não tão perfeitos. Um dia ela resolveu ter um novo look. Foi ao dentista
e disse com arrogância:
- Quero os meus dentes lindos, iguais ao daquela apresentadora de TV.
xxxxxx O dentista, recém-saído da faculdade, ainda não tinha recebido uma cliente exigente como aquela. E tremendo de medo, começou a passar aquele motorzinho barulhento nos seus dentes. A onça pegou no sono, com o rabão virado pra cuspideira e a bocona aberta. O dentista não conseguia se controlar de tanto tremer. E o seu motor ia desgastando cada vez mais os dentes da felina.
xxxxxx Terminado o trabalho, ele chamou-a. Sobressaltada, ela pulou da cadeira. Ele correu para um canto do consultório. A onça pediu um espelho. Quando viu a sua cara refletiva ali, berrou, o que fez o dentista, apavorado, tapar os ouvidos. Não podia fugir porque ela estava obstruindo a porta.
- Não era assim que eu queria! - berrou a fera. O dentista gaguejou:
- Mas... A onça caminhou na sua direção, mexendo o rabão pra cá e pra lá e repetiu:
- Não era isto que eu queria!
xxxxxx Depois se virou na direção da porta, pensativa. O dentista, como era magrinho, cogitou fugir pela janela, mas a janela do consultório era tão pequena que só dava para passar um pombo. A onça se olhou novamente no espelho. O dentista tremia de medo, apoiado numa mesinha. A fera mirou-o com aqueles olhos opacos e disse:
- O senhor fez os meus dentes pontudos, iguais a pregos! O dentista pensou:
- Tô perdido! Hoje é meu dia! Me ferrei!
- O senhor fez os meus dentes pontudos iguais a pregos! - repetiu. Tudo bem! É até bom! Quando alguém vier me cutucar com a vara curta, eu encosto meus dentes no braço dele, pra fazer uns furinhos.
* baseado no dito popular: cutucar a onça com a vara curta.