Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede
B

Início

Verso

Prosa

Colunas

Notícias

Lançamentos

Multimídia

Concursos

Papel de Parede

Livros grátis

Copyright © Gaveta do Autor
Todos os direitos reservados
gavetadoautor@uol.com.br

Livraria Cultura

Num Rancho Fungo
Baga defente

 

 

xxxxxx Primeiro ele enjoou do mundo. Não foi assim tão repentino: o enjôo, a angústia foram crescendo, tudo foi perdendo a graça: arte pessoa sexo; mulher, maconha, macaco; cores, sabores, tabaco. Tudo. Mudou-se prum quarto, ficou trancado. Tinha comida, banheiro, água. Tinha livros, telefone, computador. Nada disso lhe interessava. Já fazia um mês que estava lá e, desde que entrara, não havia pronunciado mais uma palavra, visto mais ninguém. Defendia-se do mundo de si mesmo.

xxxxxx Aquele espaço foi ficando infectado pelo seu ser por todos os cantos. Ele era seu sol, seu satélite, sua lua, sua sombra, sua lombra. Não fazia nada, apenas observava o tempo passar; até que o tempo parou de passar. Apenas via a chuva, o sol, a noite entrar; até que a chuva, o sol e a noite pararam de entrar.

xxxxxx Depois de um tempo - não se sabe quanto, pois tempo não havia lá - ele enjôou de si mesmo. Já não dormia, não comia, bebia, observava, sentia. Nada. Não respirava, não vivia, não morria. Esqueceu que existia, que tinha corpo. Estático num canto, formas de vidas e cores começaram a nascer por todo seu corpo; pássaros faziam ninhos em seus cabelos; as libélulas acasalavam ao seu redor ao mesmo tempo em que um calor imensurável ardia por todo o lugar. Um cano da parede do quarto estourou, criando um rio escuro que passava sobre suas pernas atrofiadas. No meio de tanta vida fora daquele corpo oco uma era tão bela que, seja pela sua forma/cor/cheiro/som/sensação/não sei - recriou seu interesse e despertou naquele ser - que havia enjoado da existência de tudo; o niilista-mor - a chama da curiosidade que move o animal de modo geral.

xxxxxx Eram belos cogumelos luminosos com cheiros e aromas de vogais saborosos, como ele constatou assim que mordeu o primeiro. E sem expressar reação sensação, emoção alguma, começou a comer sem parar os tais cogumelos - estes se multiplicavam na dupla velocidade de suas mordidas, espalhando-se por todo seu corpo. Este, por sua vez, diminuindo proporcionalmente às mordidas que cresciam na metade da velocidade da multiplicação dos cogumelos, que diminuíam conforme cresciam na busca da determinação da indeterminação. E assim foi até que mordeu sua própria boca e comeu-a, como último pedaço de si mesmo.