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Bifurcações
Isaías Venera

 



xxxxxx ...teodoro é estranho. introvertido. velho. vive preso em seu próprio interior. sua fala, um hiato. alguns dizem que ele se perde do mundo. esconde-se no silêncio. as palavras não são seu forte. ele tem olhar disperso. ausente. ausência que cultua a solidão. talvez solidão para ele seja o jardim florido de onde emana alegria. sara, sua esposa, sempre se queixa: "teodoro é uma sombra maldita". talvez pelo olhar disperso, ou pelas poucas palavras, ou pelas palavras marginais. as palavras de teodoro, de fato, são hiatos nos diálogos. elas são estranhas, assim como ele. na última vez em que o velho - com sobrancelhas acirradas e olhos esbugalhados - foi internado no hospital, falou muito. mas seria melhor se suas palavras não tivessem sido ouvidas. aqueles que o ouviram, saíram infelizes. teodoro falava sobre morte. morte enquanto fim e não passagem espiritual. os outros queriam ouvir e falar sobre vida. vida eterna. teodoro falava sobre a intolerância religiosa nos hospitais que penduravam santos nas paredes. eles queriam rezar. teodoro falava sobre eutanásia. eles falavam sobre prolongar a vida. teodoro discursava sobre liberdade de escolha. eles falavam sobre as leis da vida que deveriam prevalecer sobre os desejos individuais.

xxxxxx os outros o acham insignificante. um sinal sem efeito. um ponto numa frase quase sem importância na estrutura, numa poética cristã onde não é preciso ponto. não há frase a seguir em uma verdade divina; e o ponto se torna inútil. não é mais preciso indicar o fim de uma oração e o início de outra. dessa forma, os outros o vêem como um ser inútil. teodoro já tem consciência dessa imagem.

xxxxxx jucelino é um padre. sobrinho de teodoro. é o único, até bem pouco tempo, da família, com quem o homem de poucas palavras dialoga com satisfação. os outros não entendem. ficam inquietos. indignados. boquiabertos. chegam a duvidar da fé deste padre familiar. mas são poucos os encontros que jucelino tem com a família. na última vez em que o homem de deus veio visitar a família, um pouco depois da saída de teodoro do hospital, causou novamente inquietude nos outros. ele e o ateu conversaram horas. o tempo era lento para os outros, mas para os dois o tempo esvaecia-se com rapidez. os outros questionavam a teologia da libertação, aquela que jucelino defendia. teodoro dava-lhe aulas de marx. os outros diziam que os padres deveriam comungar somente com deus. teodoro falava que o espírito alcançaria a consciência ideal depois da transformação social. os outros falavam que deus era o senhor de todos. teodoro falava da morte de deus, aquela anunciada por nietzsche. uma morte que representa o declínio de uma ressonância discursiva divina que movimentava os espíritos num passado não tão longínquo, no período do recrudescimento da razão grega - no iluminismo.

xxxxxx "como pode um padre passar horas e horas com um miserável ateu?" essa era e continua sendo a pergunta que perturba os outros. ficam injuriados. "um padre que prefere lobos, ao invés de ovelhas". "um padre que se banha com porcos". as analogias nunca param numa mente cristã. teodoro interroga: "há deus e há satanás?" sim, há, confirma o padre. o velho prossegue com sua opinião: "eles se encontram representados ora nos porcos, ora na pomba que plana no ar, mas, sobretudo, no próprio ato de produzir esses significantes lingüísticos que carregam consigo o caldeirão da religiosidade sem o qual tudo isso não passaria de lindos contos literários que registram os desejos, os dramas e os sonhos de pessoas em diferentes épocas."

xxxxxx jucelino acredita nos sentidos que surgem das palavras. para ele, deus torna a vida das pessoas suportável, sem o qual o suicídio seria, muitas vezes, a melhor opção. esse é, no entanto, um ponto de discordância entre os dois amigos. entre tio e sobrinho. mas para teodoro, marx tem razão: "a religião é o ópio do povo". para o velho, a religião leva as pessoas a viverem uma falsa realidade. já jucelino acredita que a religião faz com que as pessoas obtenham forças onde elas não encontrariam para morrer de morte natural.

xxxxxx o padre ateu degusta o vinho tinto seco e o velho ateu que acredita em deus o acompanha. o velho prossegue sua fala. "as pessoas são infelizes. elas aceitam a miséria. elas aceitam a dor. elas vivem para tirar vantagem sobre outras pessoas. elas sentem prazer quando compram um bem de consumo. no entanto, elas se purificam quando rezam, quando estão na igreja, quando se auto-enganam com a imagem do paraíso." o padre pensa diferente. para ele, a igreja faz as pessoas refletirem sobre seus atos. mesmo desumanas, elas tornam-se menos desumanas quando rezam.

xxxxxx os dois não mudam de opinião. o padre gosta de passar horas olhando os livros de seu tio. quando teodoro se ausentou, jucelino pega algumas folhas sobre a mesa, ao centro da biblioteca. eram textos de seu tio. ele nunca lera nada de teodoro. o texto começa com um título enigmático: "o surdo romance das palavras"...

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