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Barcos de papel
(baseado na história homônima de Guilherme de Almeida)
Giordana Medeiros

 

 

xxxxxx A chuva cessara finalmente e uma brisa fria podia sentir-se findando a tarde. As ruas ainda estavam molhadas e aqui e ali se podia ver uma poça de lama. Pelas sarjetas a enxurrada escorria com suas águas turvas. As pessoas fechavam seus guarda-chuvas, saiam de seus abrigos e retornavam para suas casas depois de um longo dia de serviço. As crianças chegavam da escola com sua esfuziante alegria, a destoar do melancólico crepúsculo daquela segunda-feira de dezembro.

xxxxxx Eu também retornava do trabalho, num banco muito famoso da capital, quando me deparei com uma cena que me despertou saudades dos tempos de menino: um grupo de crianças brincava na enxurrada numa saudável baderna. Escutava o alvoroço vivaz: molhavam-se umas as outras e soltavam gritinhos histéricos de prazer. Assistindo-lhes lembrei-me que, quando criança, era eu quem me divertia com a água da chuva que me encharcava as roupas.

xxxxxx Depois de adultas as pessoas passam a temer a chuva, e o antigo prazer de tomar um banho de suas águas torna-se um incômodo inigualável. Eu mesmo havia me protegido da tormenta sob uma marquise. Suspirei de desgosto: havia perdido o gosto por um bom banho de chuva. Eu que, menino, nos temporais, corria para fora de casa e aprazia-me com as gotas que me caiam sobre o corpo. Era uma sensação indescritível ter meus pés molhados pela enxurrada e divertir-me em suas águas.

xxxxxx Eu lembro-me que sempre construía uma imensa armada de barquinhos de papel, os quais, estendendo meu braço pequenino lançava-os sem destino pela enxurrada.

xxxxxx É triste recordar-me destes tempos felizes, pois sei que perdera muito daquela ingênua esperança que me tomava o espírito. Naquele tempo cria serem áureos os meus sonhos, onde tudo parecia possível. Porém, atualmente, tenho certeza que meus sonhos eram da mesma matéria que os barquinhos que costumava fazer. Sim, eram de papel todos eles e como os barquinhos que lançava na sarjeta, os meus sonhos foram-se todos e não retornaram jamais.

xxxxxx Voltei para casa com a alma aos pedaços, pela minha infância que se fora para sempre, e pelos sonhos que há muito perdi. A cena das crianças ainda estava em minha mente, bem como a lembrança de meus barquinhos de papel compostos de sonhos malogrados e esquecidos, levados pelas águas turvas do tempo.

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