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Traduções quixotescas
Salomão Rovedo

 



xxxxxx Em não havendo restrições quanto ao romance de Cervantes, obra prima consagrada ao longo dos seus 400 anos de idade, o foco literário volta-se para as traduções, como esta última anunciada em crítica de Gustavo Bernardo saída no Prosa & Verso de 14/01/2006 [O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha: Primeiro Livro, de Miguel de Cervantes Saavedra. Tradução de Carlos Nougué e José Luis Sanchez. Editora Record, 570 páginas].

xxxxxx Como sempre, as novas traduções têm pelo menos um objetivo principal: caracterizar-se. Ou seja, trazer em si algo de novidade que justifique não só a aquisição física do exemplar, mas que também traga prazer à leitura. Um objetivo secundário – ainda que seja anunciado nas primeiras linhas – é o de cooptar a linguagem quinhentista de Cervantes, trazendo-a para ser digerida e consumida nos dias atuais.

xxxxxx Isso já foi tentado por outras editoras, como na recente tradução feita para a Editora 34, segundo à qual aquele era, sim, o Quixote Definitivo, atualizado e normatizado para o brasileiro dos nossos tempos.

xxxxxx Pois aqui também se pretende dar ares de modernidade, pois esta tradução, feita por brasileiro e espanhol, revela sutilezas da obra-prima Cervantes (sic), como ressalta Gustavo Bernardo na crítica. Baseados em quê? Em busca da solução para três incógnitas, compactadas numa só: como escreveria Cervantes o Quixote no português de sua época, mas de modo tal que não perdesse o sabor hispânico de então e fosse compreensível para o leitor de hoje?

xxxxxx Pois não é que sem querer Gustavo Bernardo coloca uma questão que bem pode ser aproveitada em quase todos os vestibulares vindouros? Sim, leiam bem, repitam a leitura mais uma vez, mais outra vez como se faz no vestibular e então respondam: como? Sim, como escreveria Cervantes o Quixote no português de sua época, mas de modo tal que não perdesse o sabor hispânico de então e fosse compreensível para o leitor de hoje?

xxxxxx Em seguida à esta contundente questão, Gustavo Bernardo enumera as enormes dificuldades e desafios enfrentados pela dupla de tradutores, que em essência são os mesmíssimos já enfrentados outrora por inúmeros tradutores de todas as partes do mundo. A viagem da tradução é uma odisséia sem fim. É assunto para tradutores, nunca para os resenhistas...

xxxxxx Neste caso em particular, porém, nós, os simples admiradores da obra de Cervantes, temos a obrigação de meter o bedelho. Isto porque os tradutores Nougué e Sanchez ousaram em matéria que nenhum outro havia se atrevido: mexer no título da obra. Sim, porque desde longo tempo o título da obra vem merecendo algumas observações, muitas ressalvas, escassas contestações, até medo, mas ninguém havia ousado adulterá-lo como agora foi feito.

xxxxxx O caso da expressão Engenhoso, por exemplo, já é merecedor de discussão. A expressão ingénio, de onde vem o ingenioso, é bem diferente do nosso engenho e, por extensão, do engenhoso que é sempre utilizado para traduzi-lo. Para evitar digressões que poderiam levar ao didatismo desnecessário, o resumo da ópera é o seguinte: ao rigor do pé da letra, uma das opções para traduzir o ingenioso para o brasileiro, seria a expressão genial. Então teríamos: O genial fidalgo Don Quixote de La Mancha.

xxxxxx Êpa! De La Mancha?? Aqui, sem querer, tocamos na principal execração de dupla de tradutores Nougué & Sanchez. Pois não é que ousaram modificar o título da obra aportuguesando o Don Quixote de La Mancha para Dom Quixote da Mancha??

xxxxxx Vejamos a justificativa fazendo um flashback das palavras de Gustavo Bernardo: “Quijote” corresponde à peça da armadura que cobre a coxa e deveria ser traduzida para “coxote”, mantendo a terminação “ote” que, em espanhol, tem sentido depreciativo. Aí explica que as expressões quixote, quixotesco e outros derivados se tornaram não só lugar comum, mas proverbiais – como de fato se tornaram – em nossa língua, que acharam uma temeridade adulterá-lo.

xxxxxx Pois para mim, um leigo em espanhol, diria que Cervantes estava era fazendo uma gozação a si mesmo, ou seja, à sua condição de manco, coxo – portanto coxote... – mas, como disse, sou asno em espanhol! Então fica só a provocação.

xxxxxx Mas a justificativa para adulterar o de La Mancha para da Mancha é realmente trágica (quem diz é Gustavo Bernardo): “Mas contra as traduções anteriores, optaram “da Mancha” e não “de La Mancha”, se em português se fala da Espanha central como “a Mancha”.

xxxxxx Péra aí! Eu disse que era leigo em espanhol, mas também não é tanto assim. Em algumas regiões da Espanha e de Portugal as cidades são realmente denominadas assim: A Mancha (La Mancha), A Estrada (La Estrada), Oporto (Porto) – nossa muito bem conhecida cidade portuguesa, aquela do vinho de lá mesmo. Então vamos pelo menos obedecer à escrita regional, sem adulterá-la! Ainda mais com o apoio do Instituto Cervantes?

xxxxxx O verdadeiro título que a dupla sertaneja de tradutores Nougué & Sanchez deveria usar é: O engenhoso fidalgo D. Quixote de A Mancha. Ousem, mas ousem como cavaleiros, valentes, corajosos, assumidos. Não chamem “A Mancha” de “Mancha”, pois é certo que os naturais da terra de Quixote não vão gostar nadinha de vê-la com tal nódoa, mácula, labéu, desonra, tacha....

xxxxxx Muito do que foi dito na resenha de Gustavo Bernardo merece reparo (a tradução de en cuanto pelo vicioso enquanto), tão em moda, entre muitas outras coisas. Mas não deste escriba amador, que se entremeia aqui enquanto poeta, mas de gente gabaritada e do mesmo nível que o autor da resenha, professor de Teoria da Literatura na UERJ.

xxxxxx O meu caso pessoal e que motivou estas linhas, é mesmo com o senhor Carlos Nougué, Prêmio Jabuti de Tradução – seja lá o que for isso – que me fez sofrer a algum tempo atrás com a leitura de uma tradução catastrófica do livro Um escravo chamado Cervantes (Record 1999), de autoria do escritor marroquino Fernando Arrabal. Até para se traduzir um porralouca é preciso algum talento.

xxxxxx Tenho a obrigação de fazer uma ressalva positiva, pois, ainda bem que os tradutores Nougué & Sanchez refrearam a dosagem de ousadia senão – segundo seus planos – estaríamos diante das aventuras de um tal de Dom Coxote...

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