




Campo
da esperança
Giordana Medeiros
xxxxxx A garoa convidava a um sono prolongado, porém mesmo assim ela se levantou cedo e colocou o vestido negro com que costumava ir ao cemitério nos fins de semana. Tomou o seu café da manhã calmamente. Na solidão da cozinha vazia, o pão molhado no café não tinha o gosto que ela se recordava. Depois que Pietro morreu, tudo parecia ter um gosto diferente. Não sabia se era pior ou melhor, sabia apenas que era diferente. Não havia se habituado ainda à mudança abrupta de seus hábitos. Agora não preparava mais o café da manhã para dois, não necessitava mais acordar às seis da manhã para fazer o almoço que seu falecido marido levava na marmita para a obra.
xxxxxx Ele era mestre de obras, e em seu último dia de vida a havia beijado como fazia sempre ao sair para o trabalho. Com as mãos ásperas, calejadas pela labuta diária, acariciou-lhe o rosto e se foi. Foi para nunca mais voltar. Despencou do edifício em construção; sim, despencou, pois ele nunca se jogaria. Eram felizes, ela tinha certeza, mesmo não podendo ter filhos, mesmo com as dificuldades financeiras. Ele não se jogaria, como as más línguas disseram.
xxxxxx Não podiam ter filhos, pois ela era seca, estéril como a terra ácida de Brasília. Mas eles não faziam falta, pelo menos era isso que ela pensava. Quando descobriu que não poderia ter filhos imaginou que Pietro a abandonaria. Todavia, ele não o fez. Disse que não havia problema, e que conseguiriam viver sem filhos. Seriam sempre eles dois. Ele não a abandonaria nunca. Ele a amava. Pelo menos era o que sempre dizia. Agora ela visitava o cemitério todos os fins de semana, trocava as flores, varria o túmulo e limpava o vidro, onde uma das poucas fotos que ele tirou marcavam um momento fugaz de felicidade.
xxxxxx O sábado só se iniciava para ela depois de visitar Pietro no cemitério. Somente depois ela sentava-se em frente à máquina de costura e passava o resto dia por conta das encomendas que as grã-finas da capital lhe faziam. Sempre trabalhara como costureira para ajudar no orçamento, agora ela o fazia para se sustentar. Sozinha, tinha de trabalhar o dobro. Mas não havia problema, o trabalho preenchia sua vida, tinha um gosto diferente como tudo depois que Pietro se fora.
xxxxxx Saiu trancando a porta e levando consigo a chave de casa. Pegou o ônibus no ponto, pagou a passagem e sentou-se junto ao cobrador. Observava a cidade vazia, silenciosa como de hábito nos fins de semana, a claridade reconfortante da manhã, os ambulantes montando suas barracas, as pessoas acordavam para mais um dia. Passou em frente ao edifício onde Pietro trabalhava, de onde caiu para a morte. Olhou o décimo primeiro andar e pensou por que razão ele se jogaria. Por que não a levara consigo para findarem seus dias juntos. Ate que a morte os unisse finalmente.
xxxxxx Ela desceu do ônibus e, antes de se encaminhar para o cemitério, ela passou numa floricultura próxima a fim de comprar flores para enfeitarem o túmulo de Pietro. Entrou, então, no cemitério Campo da Esperança. Ela sempre imaginou que este nome era impróprio para um cemitério. Que esperança poderia haver na morte? Não eram adeptos de nenhuma religião, porém, por uma formalidade social, ela enterrou Pietro segundo os cerimoniais católicos. O padre enfatizou a esperança numa vida pós-morte, num paraíso celeste, que ela não acreditava existir realmente. Porém era necessário que ele fosse abençoado, pois ele não se jogara, ele caíra, fora um acidente. Não havia motivos para ele desejar morrer. Mesmo sendo pobres eles eram felizes. Tinham sua casa, pequena é verdade, e na periferia de Brasília, mas era deles. Pietro a havia construído com as próprias mãos. Forrara a laje, pois pretendia aumentá-la. Fazia planos para os quartos das crianças antes de saberem que não poderiam ter filhos.
xxxxxx Foi até o túmulo de Pietro e trocou as flores dos jarros. Varrera o túmulo com uma vassoura que levara unicamente para este fim. Sentara-se no túmulo e limpara o vidro que protegia a fotografia de Pietro. Depois de garantir a conservação do túmulo, ficava por quase uma hora conversando com a fotografia estática de sorriso bondoso. Não por acreditar que ele pudesse realmente a ouvir, mas por um temor reverencial, uma tentativa de não profanar sua memória, de não desprezar as convenções sociais.
xxxxxx Observou uma família que se aproximava: dois adultos, um homem e uma mulher, que traziam pelos braços uma garotinha saltitante. Ela ficou contrafeita com a alegria da criança que não convinha para um cemitério, mas conteve sua irritação a um olhar ríspido. A criança fez de conta que não percebeu e continuou a saltitar entre os túmulos, pois provavelmente não tinha idéia das famigeradas convenções sociais.
xxxxxx Ela continuou por mais alguns instantes a conversar com a fotografia e, então, se despediu do túmulo, fez um sinal da cruz com a mão direita e se foi. Voltou para sua nova rotina, de viúva honesta, costureira, sozinha, mas feliz, pois ela nunca realmente soubera o que era tristeza, ou talvez ela nunca soubera o que é realmente felicidade. Só sabia que depois que Pietro se fora tudo tinha um sabor diferente. Não a desagradava ou agradava, era apenas diferente.
