





Sobre
conceitos
Aluísio
Martins Rodrigues
xxxxxx Seu João Brígido, ex-revolucionário derrotado pela curta memória do seu povo, tentou sem sucesso, com as últimas forças que lhe restavam, exibir-se portentoso como no passado. “Tempo em que até para ser bandido tinha que ter palavra e coragem”, afirmava ciente da derrota do último levante. Agora, não mais chamado de comandante, exceto pelos poucos amigos vivos que lhe restavam, seu João sentava sobre o meio-fio. Sem armas, sem perspectivas e estratégias e, portanto sem esperanças. Sua trincheira era a solidão (que mantinha os indesejáveis à bem medida distância). Sua bandeira branca via-se no alvo em torno dos olhos azuis, cabisbaixos.
xxxxxx Dirigiu-se ao balcão do bar, balbuciou por uma cerveja. Qual? Inquiriu-lhe o garçom. Qualquer uma, qualquer marca, desde que esteja garantido que não provocando a dormência das piores memórias, reavive as melhores. Retornando ao seu posto, antes de amalgamar-se à fétida calçada, abriu todas as portas do seu corcel II negro de quatro rodas e pressionou a tecla play do pioneer, comprado à insistência do neto, um motivo e tanto para espaçar seus giros noturnos: a música no mais alto volume. Não por exibicionismo débil como fazem os jovens contemporâneos, mas porque sua obliterada audição poderia traí-lo. “Tu és, divina e graciosa/ Estátua majestosa do amor/ Por Deus esculturada/ E formada com ardor/ Da alma da mais linda flor/ De mais ativo olor /Que na vida é preferida pelo beija-flor...”.
xxxxxx João não chorava, porque isso não era coisa para homem, mas seu respirar profundo denunciava a paixão latente, embora fatigada, porém muito viva, do mesmo modo como ocorre com a boa música, que não morre jamais.
xxxxxx No passo estavam duas moças de vinte e poucos anos, acompanhadas de seus parelhos, trajadas a moda das freqüentadoras das casas de tolerância de outrora – com blusas de tecido muito fino atadas por um nó acima do umbigo e de decotes dadivosos, sem sutiã, minissaias curtíssimas e altíssimos tamancos – arriscaram, jocosamente, passos de dança, ato digno de quem dança conforme a música, puxando para si seus miúdos e quem sabe que compromissos tinham com os gaiatos. Os casais em pouco estavam entre beijos e, a julgar pela ternura dos afagos e pela intensidade dos fitares, havia qualquer coisa de promessa de amor embalada pela flauta docíssima de Pixinguinha.
xxxxxx João, vencido porque um tiro certeiro explicaria o descuido do alvo, vencia seu último entrave: anunciava às crianças, sua ausência de utopia, de sonho, tão vital aos seres pensantes, mesmo que não queiram, visto que escusar-se é desistir-se e é, no mais das vezes, morrer-se.
xxxxxx É que certamente houve raríssima época em que o virtuosismo vestia como luva a preferência das massas. O malandro tinha que ter muita poesia e borogodó para sê-lo. Ser boêmio, como no caso do João Brígido, era para quem podia e que, mesmo quando ébrio, tinha o perfeito domínio das coisas. No salão dos suntuosos palácios ou das gafieiras e bordéis só punha os pés quem era doutorado no ritmo e propositais deslizes. As mulheres, mesmo as ditas putas, por mais casadoiras que fossem, ou faziam da cama seu prazer sem preço, ou seu ofício sem enganosos subterfúgios para apoderarem-se de quem não lhes pertencia. O homem culto ultrapassava a leitura de orelhas e retóricas puxadas convenientemente da cartola de palhaço. Até o hipócrita era mais honesto, digamos. Visto que era perceptível. Havia ritos e, apenas depois de sua instauração competente, adivinham os mitos, se por ventura se adequassem aos primeiros. Penso que nessa época teríamos propagandas menos enganosas e, se por acaso fosse eu um empresário, um fabricante de cervejas, por exemplo, ao invés de mostrar corpos desconjuntados de cabeças e axés ignobilmente ensurdecedores, patrocinaria seu João com justo contrato para ser “garoto-propaganda” e levar ao mundo a lição de ser decadente sim, porém com muita elegância.