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Aluísio Martins

Livraria Cultura

O parvo e a puta
Aluísio Martins Rodrigues

 

 

xxxxxx Vendida a alma, não ao diabo propriamente dito, mas, medo de não ter coisa melhor, preencheu o dia de impossibilidades e desejos reprimidos, como fazem os santos e os acéticos, como fez no dia em que deveria encarar de frente, e não de soslaio como usualmente fazemos com as verdades que ululam sobre nossas vistas, o verdadeiro demônio, ou simplesmente fato inevitável à alma qualquer, a solidão.

xxxxxx Deu-se assim o ensejo, com um sim uníssono aos presentes e por intermédio do típico disse-me-disse a todos quantos interessavam saber do acontecimento, aceites, em duo dito audível, peremptório, veemente, inexorável, categórico, determinante, decisivo, crucial, taxativo, contundente, arrebatado, imperativo e quantos possam ser os significados a primeira vista, pois nunca palavra é igual à outra palavra, a dar-se conta pelo som infinito, ou muito irrelevante, que possa ser criar no ouvinte, pois, quando toca fundo, é pêndulo sem fim até que se esgote de tempo, por isso tantos sinônimos e mesmo assim incompletos.

xxxxxx Tavinho sempre fora esquisitóide. Freak inclusive no país dos Belgas, diziam-lhe. Herdava o receio do povo, ensinado nos seus engatinhos pelo pai comunista. Nunca estudara nada profundamente, mas foi por osmose e noites ébrias que criou retóricas e postulados. Frases rápidas, cortantes, ironias em punho e a aura de pensador encimava o inconsciente e o coletivo.

xxxxxx Claudinéia fisgara-o num no ato transitivo do desdém que a outra impusera. Porque nascida pobre e por isso mesmo o clã taxava de burra. Burra que nada, salvou a pele bronzeada e correu léguas do energúmeno. Claudita, como chamavam, era vivida em demasia e restava pouco para fixar nome e respeito, difamados aos quatro ventos. Não tardaria e o violão do seu corpo violaria a resistência dos glúteos ante a gravidade. Perderia o charme, a bunda roliça que atiçava, desde menina, os perdidos. Que não ousasse as palavras, desastroso seria o intento, verborrágica e histérica, cobras e lagartos abismariam até os mais lascivos. Silente Claudita. Mas na penumbra das taras era rainha. Enlanguescia qualquer que se chegasse. Após incontáveis, Tavinho chegou e ficou.

xxxxxx Retocada a barba aos modos do pai, Tavinho estaqueou os cabelos apáticos e pareceu ter vida própria. Alguma mesada no bolso, exceto preservativos porque não tinha do que se preservar, nem queria, calçou franciscanamente seus sapatos em voga e saiu fazendo figa escondido. Haveria de arrumar uma mulher. Urgia sua solidão quando nas madrugadas vagava entre mundos no televisor que ornava o medo do vazio, a melhor aquisição, sem dúvida, suadas prestações. Mas, já que nada presta, não ver é o que lhe resta. Contudo, hoje é dia de festa, os sorrisos aquiescerão as febres típicas dos tribais. E por minutos, amava todos como iguais, como Bob Marley e um baseadinho, é claro. Coincidências jazem nos diários dos infantes.

xxxxxx Foi quando seu deu o esbarrão. Claudita esvoaçava os ralos cabelos. Seu halo de mortiça embriagou-o e sem que se desse conta, ajoelhava-se ao púpilto e repetia com o orador, sim, sim, eu me entrego de corpo e alma à todos os santos. Tavinho daria a luz em pouco. Em nome do pai e do filho (alheios) e principalmente, do espírito-santo que enbuchara a bendita por si. Na aldeia rumores tomavam proporções imensas, Tavinho passou a colecionar desafetos, dado que não admitia mentiras. Era um homem reto, bramia. Claudita, santa.

xxxxxx Justo então que vivessem na horizontalidade. Ela mais e discretamente. Sua beatitude intitulada dormia sem culpa no retrato que encomendara do amante. O criado mais mudo que nunca.