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Aluísio Martins

Moderninha
Aluísio Martins Rodrigues

 

 

xxxxxx Pronto, pronta para o combate. Pintada, disfarçada de mito, mascarando ritualisticamente sua animosidade pulsante, uma dependência crônica de bandoleiros, ia ter com eles, ah! Se ia... Mas eram-lhe delícias quando lhe possuíam. Bracelete de serpente no braço, camiseta branca de algodão, não, vermelha, não, preta, não, prata, aquela com lantejoulas, cheia de brilhos, de crochê, pensando bem, a branca mesmo. Intuía que devia ser a branca, melhor, sentia, melhor, um aviso, melhor, um sonho que teve onde vestia a mesma camiseta. Olhos mais profundos ainda, as custas do rímel, sombras e muitas noites de solidão e amargura.

xxxxxx Era instável, sem dúvida. Porque era inteligente, não o bastante para ser feliz com simplicidade, mas o suficiente para saber-se infeliz, por nada, porque gostava até, da tensão, do caos, da repulsa para aludir-se vítima e mulher, da malícia, do talento, da cultura, da retórica. Filha banida sofrida pela ditadura, pai taciturno sofrido pela ditadura, mãe noturna sofrida pela ditadura do pai. Gene de gênios há muito acompanhava sua família. Era como se via. Para os piores dias, travestia-se de bruxa e cria mesmo ser cheia de magias, além dos artifícios básicos de sedução: falso recato, falsa modéstia, falsa alegria, falso pudor, falsa franqueza, falsa fraqueza, no fundo mesmo, era vaidade pura.

xxxxxx Feminista sim, mas das modernas, dado que não abria mão de certas frivolidades. Não faz um minuto chorava, não mais, visto que era lua-cheia que lhe conferia poderes, outorgados por Iemanjá, babalorixás e vovó, a velha de fibra que largou a família e, a contragosto, uniu-se ao negro, e naqueles tempos, observe bem.

xxxxxx O contragosto lhe agradava. Não sei ao certo se pelo prefixo ou se pelo sufixo da palavra ou por ambos porque era contra tudo e todos. Alto lá, tudo e todos é que eram contra ela, queriam seu fim, gratuitamente, não precisavam de motivo, por inveja, por trabalho encomendado, por não suportarem a sua felicidade, dizia. O que ela esquecia no auge da briga é que ela não sabia ser só, mas também não sabia ser de um só, tampouco de muitos. Tinha que ser de um que sofresse por ela, que sentisse por ela, que entendesse por ela, que vivesse ocasionalmente. Nascera para bailar, o brilho estava-lhe assegurado segundo os profetas, proibido é pretender igual, imitar, não vale. Tinha também que ser muito jovem e, maiormente, bonito, lhe dava prestígio.

xxxxxx Tragava tudo compulsivamente, chocolates, cigarros, bebidas e maridos. Compulsoriamente desistia ou nutria a desistência nos outros. Testava, isso media a resistência deles, os impunha ao limite máximo para ver se durariam, ao menos, uma vida. Não, não era coragem, era imponderação mesmo, agia convulsivamente e causava aos desavisados a impressão de bravura. Tinha medo, muito medo, medo de tudo, sobretudo de gente, mais de homens, sumariamente da verdade e gritava e berrava e esperneava quando esta queria se fazer ouvida. Aramava escarcéus, como ensinara a filha, coitadinha. Se algo vai errado, butiques, revistas de moda, novelas, receitas, dietas, milagres e elogios, escrava deles. Cria profundamente nos milagres, da medicina, dos despachos, dos anjos que nunca lhe largariam, das sortes proferidas, desde que bem pagas, pela cartomante, cria que, um dia, não tardaria e seria glorificada, ao acaso, o destino na campainha, de joelhos e mãos estendidas suplicando perdão pela demora, uma desonra do falho Deus, por certo.

xxxxxx Tinha ódio, ódio não, seria enaltecimento aos menores, aludia pena, realmente sentia indignação, isso, revoltava-se se outra com menos talento fosse escolhida, essa burra, deve ter dado para conseguir... O perfume de marca secreta, na nuca, no ventre, no colo dos seios.

xxxxxx Guerreira, dizia para si em frente ao espelho. Um trago antes de sair por aí, outro, e outro, e outro. Convida-a o doce que havia escondido na geladeira por detrás do cheiro-verde e do pote de feijão que restara do almoço do último domingo. Quanta fome. Que se explodam se acham que está gorda, e daí. Chora, mas chora de barriga cheia. A cama macia, um sono de mansinho.

xxxxxx Sabia que milagres não aconteciam, sua vida não mudaria assim, como num passe de mágica. Deitou-se, um pouquinho só, cobriu a orelha com um paninho, guardado do tempo em que filha era bebê, cobriu os pés, nunca se sabe, uma barata, uma alma. Fechou os olhos encharcados de quereres. Adormeceu. Sonhou vassouras, príncipes e balagandans.

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