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No pressure over the capuccino
Giordana Medeiros

 

 

xxxxxx Fazia frio. O vidro do carro embaçado indicava que a temperatura exterior ao veículo deveria ser muito menor que a interior. Ele dirigia com os pensamentos absortos. O dia que tivera fora repleto de situações inusitadas. Não conseguia acreditar que tivera coragem de revelar a sua família o seu relacionamento. Comparecera ao aniversário de seu irmão acompanhado de Arthur, seu namorado. Lembrava do olhar de espanto dos seus familiares quando o viram adentrar a residência de seus pais com Arthur ao seu lado. Foi um choque, apesar de todos já saberem que Victor era homossexual nunca o viram com um homem antes. Agora era um fato para todos que ele tinha um relacionamento homossexual. Seu irmão Leonardo, tentou disfarçar o espanto geral tratando-os com bastante reverência. Victor, para aumentar o desconcerto de todos, andou de mãos dadas com Arthur durante toda a festa.

xxxxxx Agora voltava para casa de carro com Arthur dormindo no banco ao lado. Já passavam das três horas da manhã. Ele dirigia com os olhos na estrada e o pensamento longe. Ele lembrava-se de que, quando conhecera Arthur, havia assumido há pouco tempo sua homossexualidade, conversara com sua família e todos ficaram estupefatos. Ele que sempre fora um bom rapaz, estudioso, bom filho e irmão, agora decepcionava pela primeira vez toda sua família. Fora doloroso "sair do armário", mas não conseguia mais viver uma mentira. Namorara garotas só para tentar disfarçar seus reais desejos, afrontava-os numa luta perdida. Depois que se revelara a seus pais sentira-se leve, como se um peso enorme houvesse sido retirado de suas costas. Lembrava-se que, logo após, passou a freqüentar reuniões de uma Ong destinada aos homossexuais de Brasília, a Estruturação. Lá conhecera Arthur, com seus vinte e dois anos, cabelos castanhos cortados à militar. Seu sorriso era tão bonito, seu olhar tão instigante que fora impossível para Victor não se apaixonar por aquele belo rapaz que defendia com tanta veemência o sexo seguro, a defesa dos direitos dos homossexuais e a inserção social dessa minoria tão discriminada. Ele freqüentava as reuniões todas as semanas só para poder ver Arthur. Aos poucos foram se aproximando, descobriram gostos em comum: gostavam de coca-cola, livros clássicos, música e eram fãs das canções da Alanis Morissette... Lembrava como Arthur ficara admirado quando lhe informou adorar a canção No pressure over the cappuccino, pois, coincidentemente, aquele confessou que esta era também uma de suas canções prediletas, tanto que nomeara o seu cyber café com o nome dessa música.

xxxxxx Olhou para o banco ao lado onde Arthur dormia um sono tranqüilo, teve vontade de acordá-lo somente para dizer que o amava, mas não o fez. Deixou-o continuar em seu sono despreocupado, sem pesares ou sensações de culpa. Por que se sentir culpado? Amar é algo que não se controla, sentir atração por pessoas do mesmo sexo não era algo pecaminoso ou errado; não se sabe ao certo porque algumas pessoas sentiam esta atração, porém esse sentimento era puro e isento de culpa. Não havia como controlá-lo, abafá-lo como se fosse uma fogueira crepitando que se tenta apagar. Era necessário se entregar à paixão e deixar-se levar por esse sentimento. Tal qual Victor fazia nesse momento.

xxxxxx Chegaram em casa um pouco antes das quatro horas; teriam poucas horas de sono pela frente. Naquele dia que se iniciava, Arthur deveria ir para o seu cyber café e Victor deveria ir para o escritório de Advocacia onde trabalhava. Era somente um estágio, pois ainda estava cursando a faculdade de direito, mas já era um gérmen para uma carreira promissora como advogado. Estacionou o carro na garagem do prédio onde residia com Arthur. Moravam em um apartamento pequeno, de somente dois quartos, sala, banheiro e cozinha, mas havia algo de especial: pertencia a ele e a Arthur. Olhou Arthur dormindo com a boca entreaberta no banco do carona, súbito veio um desejo enorme de beijá-lo. Despertá-lo com um beijo, acordá-lo de um sonho real para uma realidade sonhada. Beijou-o com tanto carinho que além de despertar Arthur provocou-lhe um sorriso maroto. Este aprumou-se preguiçosamente no banco, puxou Victor pela gravata e trocaram mais um beijo apaixonado. Subiram ambos no elevador, não sem antes receberem um boa noite ríspido e seco e uma careta do vigia do prédio cujo preconceito era indisfarçável. Quando chegaram, Arthur abriu a porta e logo se jogou no sofá da sala. Chamou Victor para sentar-se ao seu lado. Quando este se sentou, beijaram-se novamente:

- Já lhe disse hoje que amo você?, perguntou Arthur, com o seu sorriso maroto que Victor tanto conhecia.

- Não, mas essa é uma bela oportunidade, respondeu o último.

xxxxxx Arthur pronunciou, com um olhar apaixonado, um "eu amo você", adocicado, que atingiu em cheio o coração de Victor. Beijaram-se novamente, e permaneceram namorando por alguns minutos, até Victor lembrar-se que deveria acordar cedo no outro dia para ir ao trabalho. Recolheram-se para o quarto e dormiram abraçados. Victor sentia a respiração de Arthur em sua nuca antes de adormecer, pensando que não havia mais necessidade de sonhar pois a realidade por si só, já era um sonho do qual ele esperava nunca despertar.

xxxxxx No outro dia, Victor foi para seu estágio no escritório de advocacia, deixando Arthur dormindo pois aquele abriria seu café um pouco mais tarde. Passou o dia inteiro pensando em Arthur. Na hora do almoço lhe telefonara. "Só para ouvir sua voz". Não via a hora de poder revê-lo. Quando finalmente o moroso relógio do escritório badalou as dezenove horas pôde, finalmente, ir ao encontro de seu amado no cyber café, "No pressure over the capuccino". O café estava vazio, como de hábito numa segunda-feira. Subiu as escadas para o segundo andar e observou que ali havia somente uma cliente, uma garota de óculos, calça e jaqueta jeans, tênis all star azul lendo um livro de Dostoievsky numa mesa da sacada. Parecia aguardar alguém. Viu quando Arthur serviu uma xícara fumegante para a garota que cordialmente agradeceu. Arthur finalmente viu Victor perto da escada e foi a seu encontro. Iriam abraçar-se, mas ficaram constrangidos pela presença da garota. Sentaram-se no balcão e ficaram conversando sobre o dia que tiveram. Havia sempre o que conversar entre eles dois, havia sempre novas formas de dizer "eu amo você". Não somente com palavras mas com gestos e olhares.

xxxxxx Estavam quase se beijando quando uma garota um pouco afobada subiu as escadas, parou alguns instantes como se analisasse a garota que lhe aguardava lendo numa das mesas da sacada. Depois foi juntar-se a ela na mesa. A garota de óculos que lia o livro chamou Arthur que foi perguntar se ela desejava algo. Voltou com o pedido, Victor foi ajudar-lhe a servir, vestiu o avental do café e ficou no balcão enquanto Arthur servia as mesas. Arthur, de hábito, não servia as mesas mas como dera folga para os funcionários deveria fazer as vezes de todos ao mesmo tempo. As garotas da mesa da sacada passaram algum tempo conversando até que uma delas tocou a mão da outra e Arthur desconfiou que elas estavam namorando. Comentou esse fato com Victor, que sorriu:

- Deixe elas duas namorarem em paz.

xxxxxx Elas estavam quase se beijando quando Arthur foi atrapalhá-las só por diversão. Elas decidiram pedir a conta, que a garota de óculos fez questão de pagar. Três capuccinos e uns pãezinhos de queijo. Ficaram observando quando ambas saíram de mãos dadas. Da sacada viram quando elas se aproximaram do carro. Elas se abraçaram e a garota que havia chegado por último arrumou o cabelo da garota de óculos atrás da orelha, a garota sorriu e elas finalmente se beijaram. Arthur vendo a cena sorriu:

- O amor é lindo, não acha? Victor corrigiu, destacando bem as três primeiras palavras:

- O meu amor é lindo. Por fim copiaram o beijo das garotas que observavam da sacada do No pressure over the capuccino.

G

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