




Eu
contra o silêncio
Giordana Medeiros
xxxxxx Era feriado novamente. As ruas da cidade estavam vazias; não se via o rebuliço habitual de pessoas andando apressadas para seus compromissos, esbarrando uma nas outras; não havia, ainda, o engarrafamento na estrada, os motores do carro a zunir, a baderna alegre das crianças indo para escola.
xxxxxx Os rostos anônimos, que gostava de observar por minha janela, agora se resumiam a algumas feições conhecidas de vizinhos passeando com seus cães. Um silêncio inquietante invadia meu apartamento. O fluxo de carros, muito inferior àqueles dos dias de trabalho, demonstrava que, como de costume, Brasília havia aproveitado o feriado prolongado para viajar. Eu por pouco não migrei também. Iria visitar minha irmã no interior de Minas Gerais, porém, surgiu um imprevisto e ela teve de sair com a família. Ao que parecia, iria a um enterro. Chamou-me para ir com eles, mas preferi não visitar o sepulcrário, pois o silêncio dos mortos angustia-me. O silêncio angustia-me. Não sou afeita a ele, prefiro mesmo a balbúrdia. O silêncio coroa a morte, a música premia a vida. Gosto da confusão de sons, sirenes, vozes, buzinas, a bela sinfonia citadina. Por isso, esses dias silenciosos de feriado na capital federal não me apraziam nem um pouco.
xxxxxx Eu liguei o som para fazer da música minha companhia naquele dia. Como não poderia deixar de ser, as caixas de som derramam Música Urbana 2, da Legião Urbana. Uma sirene passa estridente pela rua: é só a música urbana, quebrando o silêncio da cidade-fantasma. Eu procuro algo para fazer em meu dia de folga. Naquela manhã taciturna dediquei-me à releitura de alguns livros. No criado-mudo, ao lado de minha cama, aguardavam-me toda noite Shakespeare, Rimbaud e companhia. Porém, um livro da Clarice chamou-me mais atenção naquele instante. Inebriada pela narração envolvente, deixei-me levar pela história, mergulhei profundamente nas páginas do livro, vindo emergir somente às duas da tarde, quando o estômago exigiu o almoço.
xxxxxx Fui à cozinha preparar algo para comer, quando o telefone tocou e do outro lado da linha escutei a voz de minha irmã. Perguntava-me se eu estava bem, desculpava-se pelo fato de não poder estar comigo. Eu perguntei pelas crianças, sentia falta de seus sorrisos, seus gritos de felicidade quando me visitavam em Brasília. Lembrava-me de sua esfuziante alegria, correndo sob o bloco. Ela informou-me que eles estavam tristes pela morte da avó, mas um pouco entediados, afinal os enterros no Brasil eram demasiadamente cerimoniosos e fúnebres. Muito diferente dos realizados em outros países, onde as pessoas se reúnem para celebrar a vida que terminara; há mais alegria e menos desolação. Eu transmito para minha irmã meus pêsames à família da morta.
xxxxxx Desliguei o telefone, peguei uma maçã na cesta de frutas e encaminhava-me para o quarto, quando o silencioso vazio de meu apartamento fez-se mais sonoro que a voz do Renato Russo interpretando Quase sem querer no aparelho de som. As fotos mudas sobre os móveis traziam-me uma sensação dolorosa, de algo que eu não sabia explicar. Vieram-me as lembranças daqueles momentos felizes que se foram, momentos em que as vozes se faziam mais fortes que o silêncio. Retornei para o quarto e mais fotografias me inquiriam, mudas, a razão de meu desconsolo. Eram as recordações que me assombravam e faziam germinar nostalgia. Procurei ocupar-me, arrumando o guarda-roupa; todavia, mesmo ali, guardados, cobertos pela poeira do esquecimento, álbuns de fotografias antigos. Eu tentava fugir das lembranças mas, paradoxalmente, necessitava delas. Mantinha tantas recordações dos bons momentos vividos, pois estas me conferiam certa estabilidade para continuar caminhando, como rodinhas que se usam na roda traseira da bicicleta, quando não se aprendeu ainda a andar sozinho. Dessa sensação de segurança eu não conseguia desatrelar-me. Precisava recordar-me a todo instante que nem sempre tudo foi tão ruim. Se eu me desfizesse desse apoio, não sei se me manteria em pé. Tombaria, provavelmente, e da queda eu sentia um pavor imenso.
xxxxxx Eu não me reconhecia naquelas fotografias. Aquele sorriso, aquela alegria... Quem era aquela pessoa tão feliz? Eu até havia esquecido que já houve felicidade. Fazia tanto tempo que tudo era silêncio. Quando estava sozinha eu me conhecia mais. A alegria contagia. A tristeza geralmente se sentia só. Uma lágrima molhou o retrato onde, em uma caligrafia caprichada, lia-se "eternamente". As pessoas têm um conceito próprio para "eternamente", pois nunca significava "eternamente" realmente. Eterna só a saudade, já me dissera alguém.
xxxxxx Em fotografias eu buscava alento, uma proteção contra o silêncio fatal que piorava a cada minuto. Onde foi este tempo? Como resgatá-lo-ia? Eu contra o silêncio, em busca do tempo perdido. Será que valeria a pena? Besteira... Eu nem chorava mais, mas o coração ainda teimava em bater. Algum dia eu habituar-me-ia ao silêncio. Enquanto isso, manteria minhas rodinhas laterais, para me transmitirem segurança. No som, Renato Russo repetia: "Somos tão jovens". Seremos eternamente jovens, mas eternamente nunca é eternamente. O silêncio, por exemplo, só duraria o feriado prolongado. Segunda-feira, tudo voltaria ao normal. A música urbana disfarçaria novamente a solidão.
