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A cabeça e o coração
Eduardo Sabino

 

 

xxxxxx Às vezes, é preciso agir mais com a cabeça do que com o coração... coração não pensa. É um músculo egoísta e infantil. Não cresce nunca! Vive sob tutela da cabeça e se desespera com qualquer coisa, batendo descompassado, desesperado feito uma criança pirracenta.

xxxxxx Pobre moleque cardíaco! Tão indefeso, vulnerável, frágil como se fosse de porcelana e ao mesmo tempo tão forte, suportando com coragem a dor...dor de ser cego e enxergar por teimosia o que quer ou imagina.

xxxxxx Este guri sentimental precisa estar aos cuidados da cabeça pra suportar o que não entende. A mente deve orientá-lo a viver, dizendo quando deve arriscar-se, quando deve se aquietar, como se fossem pai e filho.

xxxxxx A cabeça que deixa o coração muito solto corre sérios riscos. O coração não avalia possibilidades, vê o que está a seu alcance e pode se deixar levar pelas aparências. Se não é barrado nas suas aventuras sentimentais, pode se enganar facilmente e levar seus atos às últimas conseqüências, danificando até seu responsável.

xxxxxx Já a mente severa, que reprime demais o filho o prendendo à simples função de contrair e impulsionar, arrisca o dobro. Se o coração não tem liberdade, revolta-se. Torna-se frio e congelante. A cabeça que tem sob seu comando um coração de pedra é prejudicada e prejudicial.

xxxxxx A relação ideal entre os dois seria a equilibrada. A dosagem certa de presentes e privações. Feliz a cabeça que orienta o coração, mas também é capaz de ouvi-lo. Pois é preciso fornecê-lo, além de proibições, alguns sonhos e lembranças para o coitado apertar-se no peito. Produzindo assim o sofrer prazeroso da saudade próxima de se extinguir.

xxxxxx É na tutela sábia da cabeça que o coração amadurece a ponto de não necessitar mais da mesma. Afinal o músculo bem aconselhado desemboca no sentimento verdadeiro: puro e recíproco. Neste instante a cabeça se tranqüiliza por estar o coração ritmado, ciente de sua certeza, batendo seguramente na plenitude do amor.

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