




História
sócio econômica do Brasil
Thiago Quintella
de Mattos
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xxxxxxA toalha da mesa era daquele laranja bem forte, de longe parecia vermelho. Cor de terra de barranco; cor de saibro. Sentou-se à mesa e pediu "o de sempre" daquele horário.
- Cafezinho, Almeida, por gentileza!
- Saindo agora, Silva!
xxxxxx Descasa os dois primeiros botões da camisa. Esta estava para fora da calça desde que deixara o gabinete onde trabalha. Os cabelos, negros e ondulados, recebiam duas ou três passadas do pente, enquanto fazia do balcão-refrigerador seu espelho. O reflexo o deixava mais moreno do que era e não refletia seus olhos verdes, tidos por ele como seu grande trunfo. O suor besuntava sua face. Chegou o açúcar junto com o copo médio, coberto com as gotas que provavam ter sido recentemente lavado.
- Obrigado.
- O café já está vindo.
xxxxxx Sopra forte, vislumbra a rua e os pedestres (com preferência para as meninas); desentope o pote de açúcar, cai mais do que queria. Chega o bule fazendo uma pequena cachoeira negra.
- Assim tá bom, muito obrigado!, e a mulher interrompe de súbito o servir e dá uma piscadela com o olho esquerdo; retribuída, quase ao mesmo tempo, por Silva.
xxxxxx Segura a colher com o indicador e o polegar e mexe vagarosamente. Uma parte do açúcar se precipita, não homogeneizando a solução. Com o mesmo indicador e polegar, pega na boca do copo elevando os três dedos restantes donde do anular brilhava sua aliança de noivado. Ouro puro. Presente do padrinho.
xxxxxx Faz um biquinho. Sorveu tão rapidamente que parece que nem bebeu. Não sei se pela temperatura, não sei se pelo charme. Sempre ao levar o copo à boca levantava os olhos para observar o mundo de soslaio. É numa dessas averiguadas que aparece a esperada, Bianca. Agora acelera a bebida. Paga mais que o necessário e o troco são alguns chicletes, dada à amizade de anos entre Almeida e Silva: dono e freguês assíduo. Engole o café. Põe o chiclete e mastiga.
- Bianca, saiu um pouco mais cedo?
- Olá Silva, percebeu, né?
- Claro, minha "neguinha". Sou um grande observador e muito pontual.
- Meu pai branco custou a conquistar a minha mãe negra, para resultar nisso tudo aqui - e passa a mão pelo corpo - uma mulataça! Mas gosto muito do "neguinha" saindo de sua boca.
- "Neguinha" é só um mimo, "neguinha". Está abafado demais. Me acompanha para uma cerveja?
- Hoje quero caipirinha. Muito gelo e muito açúcar; a cachaça terei em dose dupla. Você é minha cachaça.
- Olha que eu caso, hein!
- Eu sei, já te fisguei. Durante o beijo, via-se na mão direita de Bianca a continuação da aliança de Silva. Eram noivos.