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O primo, o pentelho
Eduardo Oliva

 

 

xxxxxx Quando li Dom Casmurro de Machado de Assis, tive uma inclinação de achar que realmente a Capitu traiu o Bentinho. Porém, uma tia minha me fez refletir de outra maneira:

- Antônio, a história está sendo contada em primeira pessoa (o Bentinho), é a versão dele dos fatos e nunca saberemos se ela o traiu ou não.

xxxxxx Então, concluí também que nunca saberemos se Capitu traiu ou não Bentinho. Bem, mudando de assunto, conheci uma moça muito interessante que se chamava Natália. Nós gostávamos praticamente das mesma coisas. Os primeiros meses de namoro foram divinos. Mas, surgiu o tal primo, o pentelho, para estragar tudo.

xxxxxx Ele apareceu no aniversário dela. Os dois eram intimidade só. O primo a pegava no colo, fazia cosquinhas na barriguinha dela e a chamava de gostosa. Fiquei um pouco enciumado. Disse depois à minha namorada:

- Esse seu primo é um pouco confiado. Ela me respondeu:

- Não fique com ciúmes, ele é como se fosse um irmão.

xxxxxx Não quis discutir. Mas, sempre achei que primo não é irmão. Ouvia algumas histórias de amor envolvendo primos. E até sei de casos amorosos de tios com sobrinhas e vice-versa... Enfim, fiquei ressabiado.

xxxxxx Um dia, fui visitar Natália. Encontrei-a no colo do primo, espremendo as suas espinhas. Detalhe, ele estava sem camisa. Disse um oi, eles não ficaram encabulados. Agiram normalmente. Ela me deu um beijo e ele um aperto de mão. Depois dessa cena, que não gostei, houve outras.

xxxxxx O quê pensar? Estou sendo maldoso e inseguro? Será que estou imaginando coisas? Hoje em dia, as relações sociais estão mais flexíveis e liberais. Não há mais aqueles costumes formais e rígidos, como antigamente. Estou sendo antiquado?

xxxxxx Ao refletir, lembrei-me outra vez da discussão se a Capitu traiu ou não o Bentinho. A história do livro é do século dezenove, mas os temas que aborda ainda são atuais. Queria conversar com ela, mas fiquei com vergonha de me chamarem de imaturo e ciumento. Agüentei calado até o limite da minha razão, porém, um dia não pude mais resistir. Decidi terminar o namoro. Inventei uma desculpa que não gostava mais dela. Natália ficou triste. A despedida foi triste.

xxxxxx O tempo passou, encontrei outra moça e me casei com ela. Somos muito felizes. Fiquei sabendo que Natália casou com um colega da faculdade e o primo casou com outra. Às vezes sinto remorso por duvidar de Natália, mas era o que sentia na época e não podia evitar. Não me arrependi de terminar tudo. A insegurança e os ciúmes estavam me deixando doente. Se falasse das minha desconfianças, seria pior. Foi uma separação triste, mas sem ofensas. Até hoje, não sei se rolou alguma coisa ou não entre os primos... Porém, deixa pra lá. O importante é que todos nós conseguimos ser felizes. Há um provérbio que diz: "quando Deus fecha uma porta, abre outra".

E

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