Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Telefonemas noturnos
Tonico Senna

 

1

"A madrugada é realmente difícil. Mas o mais difícil é aturar os outros de madrugada".
Jacira Leida - Telefonista




xxxxxx
Era tarde. Já passavam das duas da manhã quando, de repente, como na noite passada, o telefone começou a tocar na estante da sala. Desde o primeiro toque eu me recusara a atender mais uma vez aquele telefonema, pois já era o terceiro dia seguido que alguém me tirava o sono no meio da madrugada. Mas uma ligação à uma hora daquelas, caso não fosse engano, poderia ser más notícias.

xxxxxx Na verdade, eu deveria ter feito como uma velha amiga, que desligava o telefone da tomada todas as noites antes de dormir. E, como ela mesma dizia, se algum idiota estivesse tentando lhe passar aquela conversa de trote na madrugada, perderia seu tempo. E se fosse, enfim, más notícias, ela também não se importaria. Teria uma bela noite de sono, tomaria seu café da manhã, e, só depois de um belo banho, saberia que seus únicos parentes haviam morrido minutos depois de ter desligado o aparelho. Coisas da vida. Pelo menos teria uma bela noite de sono para enfrentar os preparativos do enterro.

vMas, infelizmente, eu não havia feito o mesmo. Então, teria que encarar qualquer notícia. Meus parentes mortos, ou uma simples piada de fim de noite. Não importava. Eu tinha que atender aos malditos chamados do velho telefone Standard. E tinha que ser àquela hora da madrugada.

xxxxxx Embora minha cabeça, ainda que torturada pelo velho Standard, me mandasse levantar e correr até a sala para xingar uns palavrões via satélite, meu corpo permanecia estático, esticado no colchão. Meus olhos trêmulos e embaçados miravam o fulgor de um feixe de luz que escapava frouxo por debaixo da porta do quarto. Aquele era meu único referencial até o corredor, e, àquela ocasião, não podia simplesmente me dar ao luxo de jogar o travesseiro na fresta para me livrar do clarão, como sempre fazia.

xxxxxx Precisei respirar fundo, tão fundo como se me preparasse para saltar sobre um mar revolto. Eu podia ouvir nitidamente o som voraz da água batendo nas pedras e o grito forte e agudo dos pássaros. Eu estava lá, onde costumávamos esticar as varas. E não estava sozinho. Pairava estranhamente com minha cama sobre a água agitada, enquanto nas rochas, onde costumava pescar com meu pai, estava minha mãe. Ela me acenava com a mão, e me pedia para que não saltasse àquela água. Seu cabelo esvoaçava com o vento e revelava uma mancha escura em sua testa.

vMovimentei alguns músculos do corpo para me aquecer. Girei o pescoço de um lado para o outro até ouvir um duplo estalar dos ossos. A princípio tentei não me preocupar com a temperatura da água e saltei de encontro àquele grande mar de ardósia gelada. Senti um calafrio estranho percorrer meu corpo quando toquei os pés no chão. Apesar do calor que fazia aquela noite, ele estava congelando.

xxxxxx Ainda preso àquele pensamento estúpido, tentei inutilmente apagar a mancha escura que pairava sobre a testa de minha mãe. Mas, quando o fiz, ela pegou minha mão e, segurando-a com firmeza, fez que não com a cabeça. Aquilo me assustou. Aliás, ela sempre me assustava. Quando falava e - pior ainda - quando não falava. Porém, o que mais me apavorava era o seu dom de sentir as coisas. Principalmente as que não aconteciam ao seu redor. Como daquela vez em que - Eu ainda sinto tanto por ele... - sentir enjôos - Como se a culpa fosse minha... - parecia ser - E não era? - a pior coisa do mundo.

 

2



xxxxxx Todos já desconfiavam... mas tínhamos que ter certeza. Então, marcamos um encontro lá em casa para ver se minha mãe diria alguma coisa sobre o assunto. A conversa seguiu tranqüila durante toda à tarde. Tudo normal... como não tinha que ser, e aquilo me encucara. Minha mãe não abrira a boca para falar nada. Nem mesmo uma única palavra sobre a menina ou seus enjôos constantes.

xxxxxx Nos despedimos rapidamente. Ela decepcionada. Eu... preocupado. Voltei para dentro de casa com aquela merda na cabeça. Tentei me conter até o fim da tarde, mas nunca gostei de guardar coisas em baús.

- Mãe... a senhora não notou nada de errado com ela?

- Eu sei que vocês queriam que eu falasse. Mas ela estava tão feliz que eu preferi não dizer nada a respeito do... O telefone dispara num toque alto e estridente na sala.

- Diz pra ela que eu sinto muito.

- O quê?. Um ligeiro vácuo de silêncio e o telefone grita mais uma vez.

- Pra mãe da sua amiga. Eu acho que é ela no telefone.


xxxxxx Corri da cozinha para a sala em passos desgraçadamente largos. As pernas estavam bambas, dormentes de medo. Pelo menos era assim que costumavam ficar quando eu estava bem próximo de coisas ruins. O mais estranho era que ainda nem mesmo havia atendido ao telefone. Pedi a Deus para que minha mãe estivesse errada. Que fosse apenas algo mal interpretado. Mas meu dia acabou naquele telefonema. Tivemos finalmente a confirmação da gravidez. Da pior maneira possível.

xxxxxx Era uma coisa cruel. Descobrir que havia servido de depósito para uma vida que não haviam lhe dado. Emprestado, talvez. E seja lá quem fosse o depositante, estava querendo de volta. Na verdade, já havia feito o saque. Havia lhe retirado das entranhas, uma porção considerável de vida - digo - não de sua própria vida. Mas de uma outra que, com o tempo, iria lhe fazer muita falta.

xxxxxx Pensar em quem poderia estar por trás de algo tão terrível era o que eu deveria ter feito. Mas eu ainda não me importava muito com aquilo. Para mim, era só mais uma história que o toque infernal do velho Standard estava desenterrando.

 

3



xxxxxx A luz esbranquiçada que vazava por baixo da porta já não era mais o meu único referencial. Percebi que outras fontes luminosas também estavam presentes no quarto. É o que acontece quando ficamos alguns minutos com os olhos fechados. O escuro se esconde e dá espaço a um tipo de penumbra... assustadora.

xxxxxx O telefone continuava a tocar - como teria sido uma ótima idéia se eu tivesse instalado uma extensão no quarto, ao lado da cama - insistentemente. Fui cambaleando pelo chão frio até chegar perto do interruptor da luz. Pensei em ligá-la, mas acabei não fazendo. Comecei a imaginar os efeitos catastróficos que acarretariam sobre minha enxaqueca se eu arriscasse a explodir aquela bomba atômica dentro do quarto.

xxxxxx Até aquele momento, não havia dado-me conta de quantos toques um maldito telefone poderia produzir (eu não sei quanto aos outros, mas aquele, poderia tocar eternamente) e o quanto eles podiam irritar.

- Foda-se!, gritei.


xxxxxx Ele poderia tocar eternamente, mas eu não precisava atendê-lo. Então, me virei e voltei a caminhar de encontro à cama. Lá sim, era meu lugar... E não ali, parado de frente para o corredor imaginando coisas que eu não precisava imaginar. Tentei inutilmente apagar a mancha escura que pairava sobre a testa de minha mãe. De todas as coisas que havia pensado aquela noite, aquela mancha era sem dúvida a que mais me assustava. Por quê estava lá? Será que eu estava começado a ter premoni... Não, nunca acreditei que aquele tipo de dom fosse como uma dermatite ou qualquer outra anomalia em minha herança genética.

xxxxxx Por fim, voltei para a cama e me cobri com quase tudo que deixara espalhado sobre ela. Coloquei o travesseiro na cabeça e esperei o fim daqueles toques, que ainda que tenham insistido por mais duas ou três vezes, acabaram parando. Uma sensação de alívio, acompanhada de curiosidade, tomou conta de mim. Finalmente eu havia me livrado daquela chamada insistente. Mas, por outro lado, esperava que o maldito tocasse novamente para que eu pudesse atendê-lo e colocar um ponto final naquela história. É muito estranho quando estamos enfurnados nesse tipo de situação. Não queremos mais que uma coisa aconteça, e quando finalmente essa coisa deixa de acontecer, sentimos saudades e novamente queremos que ela volte a acontecer. O ser humano é assim mesmo. Nunca está satisfeito com nada. Mas, se não fosse assim, estaríamos morando em cavernas até hoje.

 

4



xxxxxx Já eram quase três horas da manhã quando ele voltou a tocar. Eu já sabia que isso iria acontecer, não por ter sido assim nas outras noites, mas simplesmente porque sabia. Talvez por isso eu tenha deixado a porta do quarto aberta. Ou eu teria fechado? Não importava. Aquele som assustador e familiar ecoou mais uma vez pelo corredor, fazendo-me despertar novamente. Abri os olhos e senti meu corpo trêmulo, como o de quem acaba de sair de uma cirurgia.

xxxxxx Dessa vez não perdi tempo com cenários imaginários. Levantei-me impulsivamente e caminhei rápido até o aparelho. Percebi que tudo dentro de casa estava mais visível. Eram apenas três horas da manhã, mas o dia parecia estar chegando. Talvez tenha sido o meu cochilo de quase uma hora, - sabe como é -, toda aquela bobagem de olhos fechados no escuro se abrindo e bum! Sua visão se amplia... Mas algo me dizia que não.

xxxxxx De repente, o telefone parou de tocar. Tive vontade de quebrar o desgraçado, espatifá-lo na parede, mas a curiosidade me segurava. Dei-lhe as costas mais uma vez e fui caminhando até a cozinha. Estava quente naquela noite, e minha garganta arranhava de sede. Abri a porta da geladeira pretendendo tomar um copo d'água quando um velho conhecido me cutucou novamente o ouvido. Era ele! Desafiando-me para mais uma...

- Você não vai deixar que ele te derrote assim, vai? E sem que ele esperasse, corri de volta para a sala e em num único lance, o atendi...

 

5



- Alô!, disse eu, num tom de indignação. Uma voz calma e feminina, como só as telefonistas da madrugada podem ter, respondeu-me do outro lado do aparelho:

- Boa noite. É da residência do senhor Sete?

- É..., disse eu, ainda indignado, mas um pouco envergonhado com tanta educação.

- Com quem estou falando, por favor?, perguntou a telefonista.

- Com ele.

- Quer aguardar um minuto, por favor? Tenho uma ligação para o senhor, disse ela, desaparecendo pelos cabos telefônicos.

- Mas...


xxxxxx Tentei encontrá-la, mas foi inútil, já não era mais ela quem estava comigo. Era alguém de quem nunca mais esqueceria, nem mesmo depois de morto. Uma interferência invadiu a ligação. Um som distante e agudo, como o de uma gravação barata, misturou-se a algum tipo de vibração eletrônica, e uma respiração cansada foi ouvida do outro lado da linha. Meu coração começou a acelerar. Senti um filete de suor escorrer pelas têmporas. Eu estava ficando nervoso.

- Sete?, perguntou uma voz baixa e distante.

- Alô... Quem tá aí?, disse eu, lembrando daquela mancha negra na testa de minha mãe. Aquilo realmente me perturbava.

xxxxxx A respiração continuou se arrastando no fundo da ligação, quando uma interferência maior surgiu de repente. O ruído aumentou e diminuiu na mesma velocidade, como um telefone sem fio fora da base ou um celular antigo procurando por um sinal melhor de antena. Aquele monólogo me consumia cada vez mais.

- Escuta aqui, ô babaca... - Meu medo naquele momento foi dando espaço a indignação de ter sido perturbado todas aquelas noites. - É melhor que não...

- Sete!, exclamou a voz, grunhindo por entre as interferências.

- Quem tá aí? Que palhaçada é...

- Papai está com saudades..., disse a voz, seguida de uma gargalhada macabra, longa e seca.


xxxxxx Um calafrio percorreu minha coluna. Meu coração, antes acelerado, agora disparava num ritmo alucinante. A testa, encharcada de suor, contrastava com o seco da garganta que ardia por detrás das amígdalas. Um barulho forte, como o trancar de uma porta ao vento, foi ouvido do outro lado da linha. Então, a ligação caiu e um som comum a todas as noites sibilou mais uma vez.

xxxxxx Permaneci um tempo com o fone junto ao ouvido, como se esperasse algum tipo de retorno daquela voz, que nem mesmo de longe e com tantas interferências, parecia-se com a de meu pai. Mas aquilo me deixou de certa forma preocupado. Quem poderia estar fazendo esse tipo de brincadeira?. Com certeza deveria ser alguém que me conhecia, pois ainda nem mesmo havia passado o telefone para meu nome, o que descartava a possibilidade de ter sido consultado na lista telefônica. Naquele momento, tive uma idéia que não sei por quê não havia tido antes. Pensei em ligar para a companhia telefônica e descobrir o número daquelas chamadas, mas a descartei logo em seguida. Era muito tarde. Iriam acabar pensando que era trote.

xxxxxx Coloquei o fone de volta à base, com a certeza de que não seria mais perturbado aquela noite. Olhei a geladeira ainda com a porta entreaberta, e imaginei como seria bom tomar um gole de alguma coisa gelada.

xxxxxx O caminho da sala para a cozinha era pequeno, mas mesmo assim o fiz lento, em velocidade de cruzeiro. Aquele telefonema parecia ter esgotado com quase todas as minhas forças. E eu não pretendia acabar com o resto que ainda tinha. Terminei de abrir a porta e fiquei alguns segundos recebendo aquela fumaça gelada que saia do congelador. Demorei um tempo para escolher o que beber. Por fim, fiquei entre a cerveja e a água - uma escolha difícil, já que as duas matam a sede como ninguém - mas como já havia tido dor de cabeça demais naquela noite, peguei a primeira jarra que vi e tomei um longo gole d'água gelada, qual desceu rasgando por minha garganta. Alguns filetes escorreram pelo canto da boca, alojando-se como projéteis perto do pescoço...


Sentada sobre uma velha cadeira de madeira, estava minha mãe. Ela bordava uma toalha de rendas, daquelas que se coloca em baixo de jarras ou algo parecido. Suas mãos estavam magras, tão ressecadas como pés de galinha. Suas unhas compridas, sujas de terra, esbarravam nos dedos finos e ossudos, e de vez em quando prendiam suas pontas quebradas na linha que saia do novelo, emitindo um som assustador.

Ela não tinha mais aquela cara viva de sempre. Era uma versão mais fúnebre, com a pele ressecada sobre os ossos - uma pele escura, enegrecida nas extremidades - tão fina como papel. Não era exatamente como um cadáver, mas com certeza era muito mais assustador.

Como uma sinfonia profana, eu ouvia a mesma respiração frouxa daquele telefonema.

Um buraco profundo e disforme cavado ao seu lado lembrava uma grande cova feita à mão. No fundo, uma mão negra tentava se erguer através da lama, que ia enchendo o restante da cova.

Minha mãe agora observava tudo de fora da cadeira. Era uma coisa assustadora vê-la ali de pé com aquele corpo curvado, tão ressecado como uma velha árvore.

Eu me aproximei vagarosamente com o intuito de não assustá-la, o que para mim naquele momento parecia algo muito perigoso. Ela lembrava uma louca não medicada. Qualquer movimento em falso poderia ser fatal.

Ela estava de costas para mim, e conforme fui me aproximando ergueu suas mãos e às levou até o alto da cabeça emitindo um grito de dor. Tentei acariciar suas costas, mas ela se virou e eu me assustei. Ela parecia oca, como se estivesse vazia por dentro. Seus olhos não existiam, sua boca aberta, estava sem dentes, sem língua.

- Sete ajuda a mamãe, por favor..., disse ela, começando a chorar pelos buracos vazios dos olhos.

Passei a mão pelo seu rosto ressecado e tentei enxugar suas lágrimas, mas ela segurou minhas mãos e me puxou para junto da cova. Sua força era assustadora.

- Volte para dentro da buceta da sua mãe, seu filho desnaturado!, gritou ela, me puxando novamente.

Tentei lutar contra aquilo, mas minhas forças não foram suficientes, e ela me atirou para dentro da cova.


xxxxxx Tudo isso me veio em segundos. Eu havia sonhado ali, em pé, de frente para a geladeira, apoiado sobre a porta. O cansaço tomara conta de todos os meus sentidos e aquele sonho me deixara ainda mais preocupado.

xxxxxx Tomava um novo gole d'água quando o telefone voltou a tocar. Eu não acreditava que tudo aquilo fosse recomeçar. Larguei a jarra no meio do caminho, fazendo um estrago considerável na cozinha. Ela esbarrou sobre a primeira prateleira lançando-se em direção à porta, esparramando tudo pelo chão, irritando-me profundamente e me fazendo atender ao telefone com mais raiva do que deveria.

- Escuta aqui o filho da puta... Se me ligar de novo eu...

- Mas senhor... Eu tenho um pedido seu para lhe despertar às seis da manhã.

- O quê? Às seis?, disse eu, olhando para o relógio de pulso que marcava três e quarenta e cinco da madrugada.

xxxxxx Olhei para o da parede e vi que a pobre da telefonista estava certa. Meu relógio havia parado sem que eu desse conta. Desculpei-me rapidamente com ela, arranquei o telefone da tomada e fui direto para o quarto. Minhas forças haviam se esgotado por completo. Acendi um cigarro, joguei-me sobre a cama e, finalmente, consegui dormir.

T

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