




Retrato
do Brasil
Giordana Medeiros
xxxxxx Comia seu desjejum na padaria em frente ao seu prédio, como de costume. Não era um repasto sofisticado. Consistia em um simples pão com manteiga e um pingado, como é comum à maioria dos brasileiros. Como também se tornou comum a milhões de brasileiros, Pedro era mais um desempregado, na árdua busca por uma vaga no mercado de trabalho. Já contava dois anos de entrevistas e desilusões. Precisava de um trabalho para pagar suas contas e principalmente para se casar com Cristina, garota a quem namorava há longos anos. O sofrimento de não poder concretizar o sonho de se casar era maior para Pedro que aquele de ver as contas se acumularem, de ter cobradores no seu encalço e de faltar-lhe o dinheiro para pagar um desjejum tão simples como o que comia.
xxxxxx Pediu para seu Quincas, dono da padaria, colocar na sua conta, a qual já não era solvida por meses seguidos. Mesmo assim, sabia que seu Quincas não lhe negaria o café da manhã. Este conhecia o sofrimento que Pedro vivia desde que perdera o emprego como office-boy numa empresa que falira. Logo após, Pedro ainda perdera a mãe, morta na frente de um hospital público na longa espera por atendimento. As despesas do funeral somaram-se às despesas comuns do dia-a-dia. A mãe de Pedro contribuía com a aposentadoria que, com o salário de Pedro, bastava para manter as dívidas sob controle. Porém, quando ela morrera, fora-se com ela a aposentadoria e ficaram-lhe as dívidas. Pedro vivia sozinho, desde que perdera a mãe, num pequeno apartamento que seu pai, outrora, deixara, ao falecer, para a mulher e o filho. Pedro agradecia todos os dias por possuir ao menos um lugar para dormir a noite. Um lugar para criar a família que pretendia formar com Cristina. Seu Quincas, antes de Pedro sair, entregou-lhe os classificados do jornal:
- Não se preocupe, é por conta da casa.
xxxxxx Pedro saiu a ler os classificados. Pensava como era difícil conseguir um emprego no mercado de trabalho atualmente. Eram cada vez maiores as exigências; afinal, para que um office-boy precisava de curso de inglês e nível médio completo? Não havia terminado o segundo grau e, em inglês, sabia poucas palavras, algumas que aprendera numa música que ele escutara no rádio. Ouvira a música e a achara tão bonita que pedira para o filho de seu Quincas traduzir. Ricardo já fazia faculdade, o que Pedro apreciava, considerava-o inteligentíssimo por saber falar inglês. Aquelas palavras bonitas que só se escuta nas novelas e nos filmes de cinema. Era uma música do Elvis Presley. Love me tender. Sabia o refrão inteiro: Love me tender, love me sweet, never let me go. Cantara para Cristina, que ficara muito impressionada.
xxxxxx Cristina, pensava em como a amava, em como desejava fazer-lhe sua esposa, todavia, o pai de Cristina proibira o casamento enquanto Pedro não arrumasse um emprego, afinal, não poderia sustentar uma família com os bicos que fazia. Pedro até concordava com ele, pois não seria justo submeter Cristina a uma vida de privações como a que vivia.
xxxxxx Súbito seu rosto iluminou-se: ofereciam um emprego como faxineiro em uma escola no centro da cidade. Exigiam somente o primeiro grau completo. Não era necessário ter experiência. Meteu a mão no bolso, contou uns poucos trocados, o suficiente para pagar somente a passagem de ida, teria de voltar a pé. Animou-se. Já se via a varrer o chão da escola, a limpar as lousas, organizar as carteiras. Imaginava-se ainda a casar com Cristina, na alegria de sua namorada ao saber que conseguira um emprego. Estava exultante. Finalmente sua vida tomaria o rumo que desejava. Um emprego, uma família. Não se preocupava com a fila de concorrentes que teria de enfrentar. Regozijava-se como se já o houvesse conseguido , sonhava com o salário, em pagar as contas, em poder retribuir ao Seu Quincas o apoio, bem como pagar a dívida da padaria, do açougue, da mercearia.
xxxxxx Pegou o ônibus no ponto. Sentou-se perto do cobrador. Desceria em pouco mais de meia hora. Pedro seguiu a viagem a sonhar com o emprego de faxineiro no colégio. Observava as pessoas que entravam no ônibus, sorria para elas, queria dividir com todos sua felicidade. Sentia que tudo, desde aquele momento, melhoraria, seria feliz era o que achava lhe reservar o destino. Porém os caminhos tortuosos da vida seguem rumos inesperados, as curvas são sinuosas e em poucos instantes a alegria converte-se em tristeza, amor em ódio e a coragem em medo. Faltavam poucos minutos para Pedro descer quando entrou um tipo a quem considerou bastante suspeito no ônibus. Segurava algo numa sacola e aparentava estar muito nervoso. Passou a roleta e pagou a passagem como todos, porém ficou em pé perto do cobrador e ao lado de Pedro.Uma inquietação tomou conta de nosso herói suburbano, que se poderia dizer estar prevendo uma situação inusitada que poderia dar fim a todos os seus sonhos. Estava certo em suas premonições. Logo que o ônibus voltou a andar, o sujeito anunciou um assalto empunhando uma arma que retirara da sacola. Pediu todo o dinheiro do caixa ao cobrador. Assim que pegou todo o dinheiro do caixa passou aos passageiros, Pedro foi o primeiro. O assaltante apontava a arma para a cabeça de Pedro e pedia aos berros tudo que Pedro tinha. Como não tinha o que dar para o assaltante, Pedro ficou estático, sem ação. Olhava espantado para o sujeito.
xxxxxx Um policial que estava no ônibus, também empunhando uma arma, resolveu reagir ao assalto. Declarou-se policial e exigiu que o ladrão soltasse a arma. Momentos de tensão no ônibus. O ladrão gritava que mataria Pedro se o policial não soltasse a arma, e o policial mantinha-se rígido, com a arma apontada para o assaltante. Pedro tinha nesse momento plena certeza de seu fim. Via seus sonhos desfeitos naquele instante. Morreria. Não mais limparia a lousa do colégio, não varreria as salas nem arrumaria as carteiras, pior, não se casaria mais com Cristina. A última coisa que ouviu foi o estampido surdo da arma. Sentiu, ainda, a bala penetrar-lhe a cabeça. Morrera sem saber que o seu algoz também morreria. Logo após o tiro que matou Pedro, o policial descarregaria sua arma no assaltante. Um desempregado como Pedro, com três filhos como contaria o jornal do outro dia, que roubava para sustentar a família. Um retrato do Brasil estampado na primeira página dos jornais do dia seguinte.
