




Beatriz
(baseado na canção Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo)
Giordana Medeiros
xxxxxx Beatriz observava a alvorada pela janela de seu apartamento de cobertura a beira mar, com suas cores deslumbrantes a colorir o horizonte, o azul celeste em conjunção com o vermelho-alaranjado do sol nascente: uma pintura digna dos mais renomados artistas. Escutava o cantar dos pássaros, as ondas do mar a bater nas pedras, a doce melodia do amanhecer.Todavia nem mesmo esse espetáculo de pura beleza era suficiente para reconfortar seu coração. Beatriz era uma atriz no auge de sua fama. Era reconhecida por todos, ganhava milhões de dólares atuando em filmes, novelas e comerciais. Tinha um belo namorado, ator como ela, também no auge de sua carreira cenográfica. Poder-se-ia dizer que tinha realizado todos os seus sonhos. Vivia alheia à pobreza que assola boa parte da população mundial. Tinha um carro blindado e seguranças para proteger-lhe desse mundo, com sua face tão aterrorizante. Tinha televisão a cabo para poder escolher o que gostaria de saber sobre esta realidade tão cruel. Pensava mesmo morar em outro país. Dava autógrafos a centenas de fãs, que diziam amar-lhe mais que a tudo nessa vida.
xxxxxx Entretanto, perguntava-se por que se encontrava tão deprimida. Por que estava tão triste se seu último filme foi um sucesso de bilheteria? Por que tanta tristeza se seu namorado, na noite que terminara, pedira-lhe em casamento? Por que chorava tanto? Como podia estar tão mal se tinha o mundo aos seus pés? Por que tinha tanta dor em sua alma? Por que se olhava tanto no espelho? Por que temia tanto o tempo? Por que tanto temor de ser esquecida caso engordasse ou envelhecesse? Por que havia de ter essa preocupação tão grande com a aparência ? Todas essas perguntas tinham uma única resposta: porque era necessário aparecer bem em todas as fotos, afinal, os paparazzi a flagravam a todo instante. Ela tinha a obrigação de ser perfeita o tempo inteiro.
xxxxxx Era isso que a preocupava. Como tinha de ser perfeita, não podia errar como qualquer ser humano. Não, ela era a grande Beatriz Souto, a famosa atriz de cinema com o corpo perfeito, com a vida perfeita, com as ações perfeitas. Era uma filantropa, contribuía com uma fundação que cuidava de crianças abandonadas, fazia caridade com os mais necessitados. Era o símbolo da perfeição, invejada e copiada por todos. Lembrava-se que quando cortara o cabelo com o corte da moda e milhões a imitaram, fizeram até um concurso para ela cortar os cabelos dos fãs. Era necessário fazer-se simpática, mostrar-se simples e amável. Não tinha o direito de irritar-se com o assédio exagerado. Com as centenas de fãs impedindo que pudesse agir como uma pessoa normal. Estava deprimida porque tinha de ser Beatriz Souto, atriz. O símbolo da perfeição.
xxxxxx O corpo exaurido de carnes, fruto de uma mal disfarçada anorexia, era o ícone adorado por milhões de fãs. Era fundamental ser magra. A comida fazia-lhe mal, não podia saborear nem mesmo um único dos caros bombons dos quartos de hotéis que a hospedavam. Era essa vida de privações e sacrifícios que a atormentava. Seu último filme foi um sucesso, mas se o próximo fosse um desastroso fracasso? Se todos começassem a comentar que ela usava drogas, que vomitava tudo o que comia, que estava envelhecendo mais que o normal? Se começassem a perceber que ela não era assim tão perfeita? Se seu noivo então a traísse com uma atriz mais nova e mais bonita? Era tudo previsível, era assim que acabaria a sua vida de atriz, esquecida como uma boneca de louça quebrada, no seu quarto de hotel, a fumar cigarros baratos pois desperdiçara sua imensa fortuna com carros blindados, ações filantrópicas, roupas de marcas famosas e bajuladores falsos que lhe arrancavam todo o dinheiro dos cachês.
xxxxxx Era por isso que Beatriz chorava tanto em seu luxuoso apartamento de cobertura a beira mar. Por isso que subira no parapeito da janela. Por isso saltara para o infinito, num vôo derradeiro. Sua última aparição, sem cachês, nem flashes, sua derradeira atuação digna de Oscar. Porém, nesse caso, um último arcanjo passou o chapéu entre os passantes que viram um corpo despencar do céu e cair sem nenhum glamour na fria calçada da praia de Ipanema.
