Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

De repente
Rafael Marçal

 

xxxxxx

xxxxxx O sol invadia casas, prédios, escritórios, cabines telefônica, carros e nem à sombra escapávamos do seu calor. As nuvens compostas pelos mais variados componentes tóxicos provenientes de chaminés, escapamentos e bocas ajudam a aumentar a sensação de estarmos sendo assados vivos. O som do tráfego intenso dificultava bastante o trabalho dos ambulantes que, por sua vez, dificultavam os transeuntes, que se amontoavam na esquina esperando o semáforo abrir. Um típico dia de verão numa metrópole.

xxxxxx Finalmente o semáforo priva de movimento os veículos, liberando assim os pedestres de seguirem seus caminhos. Dentre eles está Washington, um office-boy não muito dedicado e muito, mas muito desbocado. Por dois motivos: por falar palavrões com certa freqüência e naturalidade e por conta de uma porção de carne esponjosa no nariz que lhe obriga a respirar pela boca, mantendo-a sempre aberta, acentuando o seu lábio inferior. Ele tem o apelido de Beiço e jura que é por causa do seu nome. Diz que ninguém na favela onde mora sabe falar Washington, exceto sua mãe, então todos lhe chamam de Beiço.

xxxxxx Washington tinha dez minutos para andar uns quinhentos metros até o banco, missão fácil não fossem esses malditos semáforos em cada quarteirão.

xxxxxx Numa dessas esquinas Washington se distraiu com um cara baixo e cabeçudo, com entradas generosas na testa, que pingava suor. Expressão de dor no rosto pois o sol castigava suas mãos, que batucavam com habilidade um pandeiro encardido, enquanto cantava uma bem-humorada canção num sotaque inconfundivelmente nordestino:


A minha sogra parece uma anta
mesclaru fusca com jamanta
com as perna cabeluda

Mulhé feia com corpinho de sereia
Meio véia meio baleia
Com a cara bigoduda

O zóio vesgo, cabelo pixaim
Com seus peito muxibin
E a boca cariada

Pra minha sogra ficar ficá feia pá dana
Tem muito o que melhora
Aquela véia desgraçada

Essa feiúra me faz me perguntá
"Botaru a véia pra queimá
e apagaru na paulada?"

Véia fedida, bigoduda
Perna seca cabeluda
E a boca cheira mal
Tem asma e tosse aguda
Com a barriga rechonchuda

O pé é uma frieira com dedo
Essa bixa é de dar medo
Não tem mais salvação
Nem macumba nem milagre
Faz essa boa ação!


xxxxxx Só agora que Washington percebe que o semáforo já tinha aberto e fechado várias vezes. Seguiu apressado para o banco, pensando em como um cara talentoso daquele sofria debaixo de um sol infernal para ganhar uns trocados. E pensava também numa desculpa para o seu chefe caso não desse tempo de chegar ao banco! Desculpa esfarrapada é a especialidade de Washington.

R

Início

Verso

Prosa

Colunas

Notícias

Sugestões

Links

Como publicar

Contato

Copyright © 2007 por
"Ana Laux"
Todos os direitos reservados
gavetadoautor@uol.com.br