




Ela
Robert
Zimmerman
xxxxxx
xxxxxx Sabe aquela alegria de ver seu time campeão no Maracanã, com gol no último minuto? Aquele olhar vazio de office boy andando pela rua com walk-man no ouvido? A surpresa de quem é pego no flagra e ainda tenta balbuciar "não é nada disso que você tá pensando..."? Aquele estalo salvador que te lembra, dentro do ônibus, que é aniversário da sua namorada, e ainda dá tempo de você ligar pra ela e dizer: "Ahá! Pensou que eu ia esquecer, né!?". O alívio de saber em cima da hora que a prova foi adiada? O orgulho de quem tá vendo a calcinha daquela gostosa mas não vai mostrar a ninguém? Pois bem, se algum dia você já sentiu tudo isso ao mesmo tempo ao ver uma mulher, não tenha dúvida, é Ela. É, maiúsculo mesmo. Ela.
xxxxxx Ela. Ar inteligente e cheio de si como quem diz: "Sou bonita e inteligente sim, e daí??". Andar decidido, jeito independente e durão, mas que chora vendo filme francês, morre de medo de barata e adora um cafuné. Romântica sem ser fresca, fiel sem ser piegas, elegante sem ser esnobe, bem-humorada sem ser idiota. Que não discorde sempre, mas que também não concorde o tempo todo, por que pra isso tem a sua mãe... ah, e linda. Linda de morrer.
xxxxxx Ela chega, como diria o poeta, não mais que de repente, mas nunca despercebida e, quando vai embora, o lugar fica vazio. Deus só quer saber dela, uma espécie de "queridinha do Homem". Homem que, aliás, deve tê-la criado num rompante de ego de publicitário, sem ouvir os gritos da produção: "projetos faraônicos!!" e, depois de criá-la, teria pensado em voz alta: "Reclama deles agora...", e a tenha guardado das intempéries da vida moderna. Como se o sol se inspirasse com seu sorriso e a lua, admitindo a derrota, sugerisse: "Olha só, vamos combinar o seguinte: você sai à noite às segundas, quartas e sextas, e eu às terças, quintas, sábados e domingos. Sabe como é, não tô acostumada a dividir atenções..."
xxxxxx Ela que te olha como se o mundo estivesse acabando em chamas e você fosse um picolé de uva! Com um misto de ternura, respeito, admiração e preocupação. Que te mima feito criança assustada com os fogos no ano-novo. Que te afaga como quem afaga um gatinho numa pet-shop. Que te ama e te deseja como se você fosse quinze centímetros mais alto, dez quilos mais forte, tivesse olhos verdes e mais cinco dígitos na conta bancária. Positivos, claro... Que não liga pra sua barba por fazer e que te divide com o Fluminense e nem liga se a sua casa parece um almoxarifado de brechó na periferia da Cidade de México sexta à noite. Que só pede carinho, atenção e mãos-dadas, como se isso fosse um enorme sacrifício. Que diz que esse texto idiota e sentimentalóide "é uma gracinha!! Não é nada idiota. E eu não sou nada disso que você disse, eu só te amo, seu bobo...". Ai, ai...