




Em
qualquer lugar
Eduardo Oliva
xxxxxxAgora, estou perdido... Lembro que tinha uma família, e que trabalhava no armazém do meu pai. O vento gelado me faz sentir dor; sinto saudade do calor desconfortável da minha terra. Vejo pessoas passando. Falam uma língua diferente, que não consigo decifrar. Encontro um banco de praça, sento-me para clarear as idéias.
xxxxxx Tudo começou quando recebi o convite de uma tia para viajar para um lugar que sempre quis conhecer. No início, estava inseguro. Muitas vezes, minha tia era cruel. A viagem foi um inferno. Ela me humilhava quase todos os dias. Dizia que eu era um homem de trinta anos fracassado. Nunca senti tanto ódio por uma pessoa. Seu veneno me corroía. Mas, teve algo de bom.
xxxxxx Encontrei uma prima distante. Chamava-se Sofia, e tinha quinze anos. Porém, sua essência era de uma mulher de quarenta. Tinha mais experiência de vida do que eu. Imaginava que ela fosse uma vampira ou que escondesse um quadro, que mostrava sua verdadeira aparência. Metia-me medo e curiosidade ao mesmo tempo.
xxxxxx Quando todos iam dormir, nós saímos escondidos para brincar com a neve e fazer amor na adega de seu pai. Um dia, descobriram. Minha tia me humilhou tanto, que o ódio submeteu a razão. Dei um empurrão nela e a chamei de vagabunda! Disse que sabia que traía seu falecido marido.
xxxxxx Resumo minha história. O frio é tanto que começo a esquecer. Quero gritar por socorro, mas não há pessoas nas ruas. Aliás, nem estou numa cidade. Estou num bosque. Como fui parar aqui? Minha cabeça está ficando vazia. O vácuo impera, exterminando os germes de sentimentos, pensamentos e lembranças que ainda me restam. O quê vai acontecer comigo? Qual mesmo é o meu nome?
xxxxxx Vou cair no esquecimento. Sempre ouvi falar de pessoas que somem e não deixam nenhum rastro. Será o que estou sentindo, elas sentiram também? Estou sem forças. Começa a tempestade de neve, e não sinto mais as minhas pernas. Nunca tive religião, porém gostaria que algum Deus me ajudasse agora. Por favor, Senhor! Salva-me...