




Fábula
do homem humilde
William Grisson
xxxxxx Era
uma vez um homem humilde. Morava em uma casa com apenas um quarto. Depois
vinha a pequena sala. A mínima cozinha. Um pequeno quintal com um tanque
menor ainda, para lavar as poucas roupas que ele a mulher e os filhos tinham.
Vivia com dificuldade e algumas vezes até podia comprar o que queria para
os filhos, para a mulher e até mesmo para ele. Mas não muito. Tudo era controlado.
O leite, o arroz, o xampu, o sabonete, a TV ligada, a cerveja preferida
e muitas outras mínimas coisas.
xxxxxx Silvério, às vezes, sentia-se muito injustiçado. Mesmo sendo apenas um minúsculo funcionário em uma minúscula fábrica. Assim como quase todos os moradores da mesma rua que ele. Com suas casas minúsculas e suas vidas controladas no papel. Silvério, apesar de nunca ter estudado, era admirado por todos os moradores da rua. Gostavam muito dele. De suas palavras, de seu modo de pensar e do seu jeito de enfrentar as adversidades da vida. Sua vida era ali e sempre tinha sido daquele jeito. Silvério nem ligava para o seu jeito de se vestir, de falar. Por falta de estudos, não achava as palavras certas na hora de defender alguma injustiça contra alguém na rua. Na maioria das vezes, conseguia apaziguar brigas de vizinhos e era aclamado por todos os moradores como o maior mediador de conflitos jamais visto naquelas redondezas. Suas palavras, mesmo que toscas, faziam sentido para todos. Todos acreditavam nelas. Era um líder, diziam.
xxxxxx Certo dia de madrugada, todos foram acordados por um barulho terrível, como se o mundo tivesse acabado naquela hora. Levantaram de suas camas assustados e do jeito que estavam vestidos foram para a rua ver o que tinha acontecido. O que se via no rosto de cada morador era uma expressão de medo, incredulidade e espanto. Inclusive no rosto de Silvério, protegendo com os braços a mulher, os filhos e alguns moradores para que não chegassem perto diante do que viam.
vBem no meio da rua, cravada no chão de terra batida e vermelha, a palavra IDIOTAS. Apesar da letra "I" estar quase enterrada no chão, os poucos que sabiam ler conseguiam entender perfeitamente. Era isso mesmo. Do céu havia caído, não se sabe de onde, aquela enorme palavra: IDIOTAS. Um dos moradores, que já tinha trabalhado em uma minúscula gráfica, arriscou:
- É uma "Times New Roman", mas nunca vi um tamanho assim. Pelo jeito está em negrito. Fica mais pesada. Por isso o barulho que ouvimos foi tão grande.
xxxxxx E não era pequena mesmo. Ao cair, o "I" ficara cravado em uma ponta da rua com o restante inclinado até o outro lado, no final do "S", fechando a passagem dos moradores em ambos os lados.
xxxxxx Alguns amigos mais próximos de Silvério pediram a ele que acalmasse a todos com suas palavras de conforto. Apesar de Silvério também estar muito assustado, camisa aberta, cabelos desgrenhados e transpirando muito, resolveu falar. A esta altura, ninguém estava prestando mais atenção àquela enorme palavra caída na rua. Nem queriam saber como aquilo foi parar justamente na rua deles. Muitos até nem sabiam o que ela significava. Todos só tinham olhos e ouvidos para Silvério. Ele então subiu no muro de uma casa e em seguida no telhado e lá em cima começou a falar.
xxxxxx Suas palavras eram ouvidas em ambos os lados da rua, por todas aquelas pessoas, hipnotizadas pelo som de sua voz rouca. Ele teria uma solução para aquilo tudo, concordavam os moradores. Todos estavam mais preocupados com o tamanho da palavra e em como resolver a questão daquele incômodo, cravado bem no meio das casas deles. A maioria nem sabia o que ela significava. E nem se importavam com isso. Só queriam que ela saísse daquele lugar, desaparecesse por completo de suas vidas, liberando a rua e fazendo com que as vidas de todos voltassem ao normal.
- Como vamos passar?
- Não quero viver com isso na porta da minha casa.
- Como vou explicar isso aos meus filhos?
- Tirem isso daí. Tirem logo.
- Nem dá para aproveitar nada. Se tirarmos uma letra sequer, não fará sentido.
- Tem que tirar tudo. A palavra inteira. Não tem que ficar nada aqui. Quem quiser pode ficar com uma letra ou outra. Mas é só. Podemos ficar com a letra "O". Ela pode virar uma mesa. Podemos usar no churrasco da nossa próxima reunião de moradores, no Domingo. É bem redondinha. Vai servir sim. Que tal?
- E se cada um de nós ficar com uma parte dela?
- Não quero abrir minha janela de manhã e dar de cara com isso. Nem guardar nada em casa. Já não tenho espaço nem pro cachorro. Imagine uma letra ou outra. O que eu vou fazer com isso dentro de casa? Poderia aproveitar todos os "IS" como prateleiras, mas eles são enormes. Não vão nem passar pela minha porta.
- Já chega o temporal que carregou todos os nossos telhados.
- Vamos falar com o dono das casas e da nossa rua. Ele tem obrigação de resolver.
- Fale Silvério. Fale por nós.
- Vamos ouvir o que o Silvério tem a dizer.
- Fala Silvério! Vai falar com ele por nós Silvério!
xxxxxx
O jeito mesmo era falar com o dono de todas as casas alugadas por eles.
Ele teria que resolver a questão, já que pagavam os aluguéis em dia e todos
os demais impostos cobrados. Era um direito deles. Sabiam que não tinham
estrutura e nem dinheiro para resolver aquele problema. Ganhavam muito pouco
em seus empregos e provavelmente precisariam contratar profissionais mais
capacitados para remover aquilo dali.
xxxxxx Silvério desceu do telhado, arrumou a camisa, pulou mais alguns muros e saiu do outro lado da rua, indo em direção à casa do dono das casas e da rua. Representando os moradores, narrou o ocorrido ao proprietário que, também assustado, disse não poder fazer nada. Disse que estava tentando entender o inusitado daquela noite. Que não poderia arcar com despesas extras na remoção daquele enorme problema. Seria necessário pensar em uma solução, mas não de imediato.
xxxxxx Era preciso pensar e esperar um pouco mais para resolver a questão. Falou que já fazia demais por eles, mandando pintar a cada ano suas casas; que tinha instalado uma excelente rede elétrica, assim como água e uma bem estruturada rede de esgotos. Sem falar que a cada final de ano, enviava duas cestas básicas de natal para cada um dos moradores. Que também havia contratado um médico particular para o posto de saúde daquela pequena rua. Tudo sustentado por ele. Pago por ele. E não podia arcar com mais despesas.
xxxxxx Silvério sabia que, apesar de nunca ter estudado, tinha lá as suas qualidades. Era uma pessoa calma, amigo fiel, bom vizinho, bom pai, bom filho, paciente e ponderado, etc. Mas acabou saindo muito irritado daquele encontro. Por que nós? Já fazemos demais. Ele fica com o dinheiro dos aluguéis. Dos impostos. E nós não temos nada. Somente nossas vidinhas. Ele vai ter que resolver este problema sim senhor. Vai sim.
xxxxxx Indignado, Silvério voltou para casa e, com suas palavras, alertou a pequena multidão que nada poderia ser feito, que não havia recebido apoio do dono das casas, e que aquilo tudo era um assunto deles. Teria que ser resolvido por eles mesmos. Silvério, muito revoltado, gritava que aquilo era um abuso. Pouco caso. Desmando. Um dos moradores foi até ele e lhe deu um microfone instalado toscamente num pequenino aparelhinho de som. Com isso, todos puderam ouvir a voz de Silvério.
- Não vamos mais pagar os aluguéis se ele não tirar isso daqui.
- Não vamos mais pagar os demais impostos.
- Vamos fazer um caminho alternativo em volta da palavra.
- Vamos bloquear a passagem dele por aqui. Ele precisa sair de casa e utilizar este caminho.
- Não vamos deixar nenhum parente dele passar pela nossa rua.
- Ele não tem saída. Seu único caminho é por aqui. Ele vai ficar confinado dentro da sua casa.
- Enquanto ele não resolver a questão, as coisas por aqui vão ficar paradas.
- Vamos impedi-lo de tentar obstruir uma letra sequer para facilitar a sua passagem.
- Por aqui ele não passa. Não vamos ceder.
- Quero ver como ele vai fazer se a gente parar de pagar nossos aluguéis e impostos.
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Naquele
momento, Silvério se deu conta de que realmente as suas palavras tinham
força. Que apesar de não ter estudos, conseguia influenciar toda aquela
pequena multidão, fazer com que seus direitos fossem respeitados. Era mesmo
um líder. Sua emoção foi ainda maior quando todos aplaudiram e gritaram
seu nome. Muitos vieram até ele com abraços apertados, palavras de apoio
e total dedicação no que ele precisasse naquela empreitada.
xxxxxx Muitos dias se passaram e aquela palavra ainda continuava no meio da rua. As pessoas passavam pelo caminho alternativo em volta da letra "S". Um monte de terra, misturada com pequenas pedras, criando um monte alto e difícil de transpor. Pior ainda em dias de chuva. Era preciso ser refeito todas as vezes que isso acontecia. Mas era a única solução. Todos acreditavam nisso. Enquanto o dono das casas e da rua não retirasse aquilo tudo, não cederiam.
xxxxxx Mas tudo tinha um preço, e as dificuldades eram muitas. O caminhão de gás não conseguia ir até o final da rua, fazendo com que os moradores carregassem os próprios botijões até em casa. Às vezes, a uma distância muito grande. O médico do posto de saúde tinha ido embora. Reparos na rede elétrica ou na rede de esgoto eram impossíveis, já que a palavra impedia os caminhões de passarem. As crianças se sujavam muito ao irem para a escola ou ao voltarem dela. Muita roupa precisava ser lavada, aumentando o consumo de sabão em pedra e em pó na maioria das casas. Vizinhos não podiam mais visitar uns aos outros.
xxxxxx O desvio em volta da letra "S" incomodava a todos; preferiam ficar em suas casas. Somente os que precisavam ir trabalhar se aventuravam passar por ele. Até as crianças já não iam mais para a escola por causa daquilo. Era preciso fazer alguma coisa.
xxxxxx Depois de não resistirem mais, foram falar com Silvério. Era preciso uma solução. Aquilo precisava sair dali. De qualquer jeito. Custe o que custar. Nem que seja na força. Silvério estava tentando arrumar sua caixa de luz quando percebeu todos à sua volta.
- Silvério. Você precisa falar com ele novamente.
- Não podemos mais agüentar isso.
- Está a cada dia mais insuportável.
- Queremos uma solução. Você é a nossa voz. Vá falar com ele.
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Um
dos moradores sugeriu até uma doação em dinheiro para a compra de uma roupa
melhor. Bem vestido, talvez Silvério fosse mais respeitado e seria de igual
para igual. Vestido daquele jeito, com camisa aberta, cabelo desgrenhado,
sapatos sujos, barba por fazer, talvez voltasse com um não novamente. A
mulher de um deles, que era manicure, também poderia ajudar. O outro, que
já havia sido cabeleleiro em um salãozinho quando morava em uma outra rua,
mais ainda. E assim foi feito.
xxxxxx Silvério apareceu na frente deles como um príncipe. Novamente recebeu aplausos, abraços, beijos emocionados e o apoio de todos. Para que Silvério não se sujasse, todos levantaram seu corpo para que não passasse por aquele monte de terra e pedras que tanto sujava os adultos e principalmente as crianças.
xxxxxx Chegando na casa do dono das casas e da rua, contou tudo novamente sobre o ocorrido. Agora com mais detalhes sobre os graves problemas no dia a dia que aquela palavra havia causado para eles. O dono ouviu tudo pacientemente e não parecia preocupado com a situação, já que tinha mandado construir uma passagem particular e não tinha problemas para ir e vir de sua casa.
xxxxxx Depois de escutar tudo aquilo propôs a Silvério, que representava todas aquelas pessoas, suas idéias. Sugeriu primeiramente que poderia arcar com a retirada de somente metade da palavra. A outra metade da palavra ficaria por conta deles. Falou que tinha consultado vários técnicos e que a remoção de somente metade da palavra ia custar muito dinheiro e muito tempo. A letra "I" tinha caído bem em cima dos controles de água e energia elétrica da rua e das casas. A retirada comprometeria o fornecimento de ambos e que era preciso laudos técnicos e mais laudos técnicos para solucionar o problema sem afetar as instalações hidráulicas e elétricas. Lembrando novamente que ia levar muito tempo para ser feito. Sem falar da remoção da outra metade da palavra, de responsabilidade deles. Silvério voltou para casa e explicou a proposta do dono das casas e da rua.
- Não!
- Não!
- Não e Não!
- Impossível!
- Jamais aceitaremos isso!
- Não é justo!
- Volte lá Silvério e diga que não aceitamos.
- Isso mesmo Silvério. Você é a nossa voz. Diga a ele que não aceitamos.
xxxxxx
Silvério
concordou com todos e, novamente, recebeu abraços, beijos calorosos e apoio
de todos. E cheio de confiança, foi novamente até a casa do dono das casas
e da rua. Chegando lá, Silvério deu a resposta para o dono das casas e da
rua. Então, o dono das casas e da rua lhe fez uma proposta. Já estava tendo
muito prejuízo com a falta de pagamento dos aluguéis e dos impostos, sem
contar o custo de retirada da sua metade da palavra. Ainda mais ter que
gastar com a palavra toda. Falou que já estava muito velho para enfrentar
todo aquele problema. Estava cansado de tudo. Como tinha guardado um bom
dinheiro, iria morar em outro lugar. Não queria mais as casas e nem a rua.
Queria sossego, paz e tranqüilidade.
xxxxxx Naqueles anos todos, com os aluguéis pagos por eles, tinha conseguido criar sua família e educar todos os filhos, que já não viviam mais com ele. Sentia falta de sua mulher, que tinha morrido muitos anos antes, e já não tinha tanto interesse nas casas, na rua e até mesmo naquelas pessoas.
- Você pode ficar com a minha casa. Ela é maior que a sua. Os móveis são melhores que os seus. Pode ficar com os aluguéis das casas e ser o novo dono das casas e da rua. Vou até um cartório e passo tudo em seu nome gratuitamente. Você passará a receber os aluguéis e tudo o mais que era meu. Sei que meus filhos não vão precisar mais disso aqui. Todos eles estão bem de vida. Talvez eu vá morar com algum deles. Quero ficar com eles. Pensei até em comprar novas casas e uma nova rua. Mas vou continuar vivendo sozinho aqui ou em outra rua. Não quero mais. Chega. Estou muito velho e cansado para isso.
- Tudo?
- Sim. Mas com uma condição. Você será o responsável em tirar aquela palavra do meio da rua. Em resolver o problema deles. É a minha proposta. Você aceita?
- Vai ser uma surpresa e uma alegria ao mesmo tempo para todos.
- Se você não aceitar vou deixar aquela palavra eternamente lá. Como um castigo. Você deve lembrar que apesar de tudo sempre fui correto com todos. Arrumei médico, pintava as casas todos os anos, fazia reparos na rede elétrica e de esgoto, presenteava com cestas básicas no natal, sem nenhum custo para qualquer um de vocês. E os meus aluguéis, assim como os impostos, não eram tão altos. Eram bem menores que em outras ruas que você conheça.
- Verdade...Mas precisamos de muito mais.
- Eu ainda ia contratar um dentista e asfaltar a rua...Mas agora é tarde. Não quero mais. Pois bem...você aceita isso?
- Vou falar com todos e contar as novidades.
- Vá dizer tudo a eles. Eles vão saber te ouvir. Já sei que você é considerado um líder por eles. Tenho certeza que eles irão aprovar tudo isso.
- Serei dono desta sua casa. De todas as casas da rua e da rua? Receberei os aluguéis, os impostos? Terei a liberdade de escolher como queremos viver, quando devemos pintar nossas casas, de como escolher nossas cestas de natal e tudo o mais?
- Exatamente. Mas seja breve, preciso resolver esta questão logo. Não quero ficar mais tempo por aqui. Você tem até o final desta semana para irmos ao cartório. E tudo será seu.
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Voltando
para casa, com aquele terno bem cortado, cabelo e barba bem feitos, com
seus sapatos brilhando, Silvério contou a todos a grande novidade. Naquela
noite, na rua, em volta da palavra, fizeram uma grande festa como nunca
tinha acontecido naquele lugar. Dava para ouvir as pessoas cantando e batendo
palmas muito longe dali. Estouraram fogos, deram abraços, dançaram e choraram
muito de tanta emoção. Silvério era mesmo um grande líder. Para todos eles,
não existiria mais outra pessoa com tanto valor sendo o dono das casas e
da rua como Silvério. Seu terno ficou todo amassado de tantos abraços, e
a pele de seu rosto vermelha de tantos beijos. Uma festa. Um acontecimento.
De agora em diante tudo seria diferente.
xxxxxx Já sendo dono das casas e da rua, Silvério conseguiu convencer a todos da rua que aquela palavra não poderia ser retirada. Ela era um símbolo de resistência de todos aqueles moradores. Servia para lembrar os problemas que passaram por causa daquilo. Um exemplo para os filhos, netos e até para outros moradores de outras ruas. Mandou pintar a palavra e colocar uma placa comemorativa do lado da letra "I". No desvio da letra "S", mandou construir uma pequena ponte. Uma passagem que permitia as pessoas de irem e vir por ali sem se sujarem. Teve música e tudo. Todos tiraram fotos ao lado dele.
xxxxxx Com o tempo, sem consultar ninguém, aumentou os aluguéis e os impostos como nunca havia sido feito. Contratou um novo médico, mas ele só aparecia uma vez a cada dois meses. No natal, resolveu fazer uma única festa para todos ao invés de gastar dinheiro em cestas básicas. Churrasco, bebidas e um pouco de futebol somente com os antigos moradores mais íntimos. Alguns moradores até achavam justo tudo aquilo. Afinal, foi ele que enfrentou o antigo dono das casas e da rua. Foi uma conquista dele. Um merecimento.
xxxxxx Aos poucos, todos os antigos moradores da rua foram mudando para outras casas e outras ruas. Foram procurar casas onde os aluguéis e impostos fossem mais baratos, mesmo que as casas fossem, infelizmente, menores ainda que as que viviam na antiga rua.
xxxxxx Comentam que Silvério comprou uma casa e uma rua só para ele. Quase não aparece na antiga rua. Não fala mais com os antigos amigos. Tem chofer, mordomo, babá e quase nunca repete um terno. Seus novos amigos agora são os outros donos de casas e de ruas. Os novos moradores da antiga rua não agüentam mais os aluguéis tão altos e impostos sendo aumentados todos os meses. Os reparos na rede elétrica são pagos agora pelos próprios moradores, assim como a pintura das casas e a manutenção da rede de água e esgoto.
xxxxxx Eles estão tentando uma entrevista com Silvério, mas é preciso passar por dois de seus secretários. Marcar hora e data para um encontro não podem coincidir com as viagens da sua família. Alguns moradores mais íntimos de Silvério não tiveram seus aluguéis renovados. Por o criticarem demais, foram obrigados a sair de suas casas e morar em outras ruas.
xxxxxx Enquanto isso, turistas passam pela rua e tiram fotos diante daquele símbolo de resistência. Querem mostrar aos amigos e parentes que estiveram naquele lugar. Seus sorrisos na frente e a palavra "IDIOTAS", ainda cravada na rua de terra vermelha, no fundo da foto. Um orgulho para todos.