Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Sem título
Tatyana França

 

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xxxxxxEu sempre quis ter um avô. Um avô que dirigisse uma Brasília cor de creme, que lesse histórias pra mim, que me dissesse: “Como você cresceu!”, sem parecer piegas (será que isso é possível?), e me levasse para tomar sorvete na mesma praça onde ele jogaria dominó com os amigos. Tentaríamos fazer uma casa na árvore (numa mangueira, claro!).

xxxxxx E também queria uma avó. Uma avó que tivesse uma mangueira no jardim, onde eu sentaria para ler meus livros favoritos. Uma avó que soubesse fazer todos os tipos de doces que só as avós sabem fazer, que acobertasse as travessuras da neta, que tivesse um gato chamado Euclides e uma criação de galinhas no fundo do quintal.

xxxxxx Um dia na casa dos avós seria um dia no paraíso. Eu não precisaria de nenhuma outra criança por perto, porque aquele universo seria suficiente para fazer eu me divertir. E quando eu crescesse, meus avós me mostrariam as fotos de antigamente. Nós riríamos juntos na sala de móveis antigos e, claro, duas cadeiras de balanço.

xxxxxx A casa teria um jardim com rosas, um muro branco, baixo, daqueles que de um pulo só você sobe e senta. Teria uma varanda onde eu iria dormir, durante as tardes, numa rede comprada no interior. Antes de ir embora, eu iria merendar café com pão. Todos reunidos na mesa da cozinha: a vó, o vô, o Euclides, a Maria (o braço direito da vovó) e eu. Mas isso nunca aconteceu.

xxxxxx Minha mãe lia histórias pra mim. Eu sempre tomei café com pão na cozinha. No jardim da casa onde passei onze anos existiam rosas. Meu pai me levava para comer pizza (o que chegava perto de tomar sorvete!). Na minha ex-casa, existia uma criação de galinhas, o jardim... Eu lia todos os meus livros favoritos na casa da minha tia. Tantas coisas parecidas... Mas meus pais não poderiam dizer: “Como você cresceu!”, já que vivíamos na mesma casa. Não é a mesma coisa ter crescido sem avós. Na época, eu não sentia falta. E hoje sinto. É estranho.

xxxxxx Guardo com todas as forças as poucas lembranças que tenho da avó paterna. As tardes na casa que também tinha rosas no jardim e um papagaio (que hoje é da mamãe) na cozinha. A Maria fazendo café. Todas aquelas folhas no chão do jardim cimentado... O muro branco, e, claro, a cadeira de balanço da vovó. Eu cheguei perto. Mas isso já não importa. Eu posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que a infância foi o período mais feliz da minha vida.

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