




A
decisão
Glauco
Fernando
xxxxxx
O
telefone toca. Vou atendê-lo, mas sem pressa. Ao pegar o aparelho, penso
mais uma vez se devo ou não fazer isso, ou melhor, se devo saber sobre a
notícia que estava esperando. Serei forte o bastante para suportar? Ou minha
vida se esvairá com a dor de sabê-la?
xxxxxx Atendo o telefone. Uma voz rouca e triste balbucia algumas palavras que não consigo compreender. Peço que as repita. Sentindo que a pessoa está recuperando as forças, volto meu pensamento na decisão. Cabe a eu saber? Ela inicia o diálogo. As primeiras palavras soaram como uma advertência de que o seguinte não seria tão agradável como eu esperava.
xxxxxx O tempo vai passando e a pessoa terminando o recado. À medida que se aproxima do fim, meu corpo entra num estado quase catatônico, só não o sendo pois consegui pronunciar algumas palavras de agradecimento para o mensageiro.
xxxxxx Retorno o telefone ao gancho e, num movimento nada mais que condicionado, me assento na aconchegante poltrona que ganhei de meu irmão, e passo a meditar nas palavras que me foram dadas pelo telefone.
xxxxxx Não pude partir de imediato, pois não havia digerido aquela notícia por completo ainda. Estava tentando manter as forças ou, pelo menos, o que restava delas, para tomar alguma decisão. Havia anos que não conversava com ele, que nem notícia tinha dele e, de repente, a única notícia que recebo, depois de todos estes anos, é que meu irmão sucumbiu a uma doença.
xxxxxx Não nego que pensei em não ir ao velório, pois apesar de ser meu irmão e termos brigado, meu orgulho veio à tona. Uma decisão deveria ser tomada, ou algo deste tipo; anos a fio sem comunicação para reatamento e agora poucos segundos para uma decisão importante.
xxxxxx Fecho meus olhos. Respiro fundo. Mando meu orgulho às favas. Vou ao meu quarto, preparo minha mala e me deito decidido a ir ao velório e, ao menos, despedir-me dele. Como recompensa para uma decisão assim, um sono tranqüilo como um mar depois da tempestade.
xxxxxx Sonho. Vejo-me flutuando num límpido lago em meio a uma floresta escura e fria, onde dificilmente os raios solares conseguem transpassar as copas. Sinto aquela água gélida e calma penetrar meu corpo e, como ela, sentimentos vis serem depositados na minha alma. Quanto mais me invadem, mais enrugado meu corpo se sente. Começo a gritar algo como um pedido de socorro, mas a única resposta que obtenho é meu estridente eco. Sinto meu corpo afundar e entro em desespero. Algo parece me puxar, como se fossem mãos, enrugadas como meu corpo e gélidas como a água. Ao me debater vejo flores caindo, das copas ao lago; seu doce perfume ameniza meu desespero e afundo sem sofreguidão.
xxxxxx Acordo suado e apavorado. Meu relógio marca seis horas cravadas. Olho para a mala e renovo minha decisão de partir. Levanto-me, ainda atordoado pelo sonho, e me dirijo ao banheiro; visualizo um rosto abatido e confuso por ter que tomar decisões tão difíceis.
xxxxxx Depois de uma boa ducha revigoro minha energia. Volto ao quarto e pego minha mala. Penso novamente se devo ou não ir; olho meu quarto, minha aconchegante cama e a porta de saída. E agora? Passo pela porta e, com isso, por cima do meu orgulho, ou abraço-o e fico com a última visão que tenho de meu irmão quando brigamos?
xxxxxx Posso afirmar que doeu muito isso, mas, convictamente, atravessei a porta e fui em direção à estação rodoviária, com devaneios mil em minha cabeça, para tentar esquecer a dor de como é ferir um orgulho desses.