




Naquele
domingo
Giordana Medeiros
xxxxxx Naquele domingo acordou indisposta, não tinha ânimo para sair da cama, sentia seu corpo pesado e deixou-se estar sobre o leito por quase uma hora. Não pensava em nada específico, seus pensamentos voavam sem rumo certo. Recordava-se de fatos que ocorreram distantes no passado e de coisas que haviam ocorrido naquele sábado. Lembrava-se de que, quando criança, costumava "casar-se" com seu primo Jean, sob a sombra da mangueira no quintal da vovó. O padre naquela ocasião era o irmão de Jean, seu primo caçula, Marcos. No fim da "cerimônia", depois de ambos terem dito sim às perguntas do "padre", trocavam beijinhos tímidos e saiam de mãos dadas. Apresentavam-se para todos como marido e mulher. Sorriu. "Brincadeiras de criança".
xxxxxx Fazia anos que não se encontrava com Jean. Soube que ele havia se casado. Sua mãe até lhe recriminou por não haver dado continuidade àquele romance. Como dar continuidade a algo tão pueril quanto um namoro de criança? Além do mais, não eram mais os homens que lhe atraiam atualmente. Agora seus pensamentos seguiam para aquele sábado, quando tentou declarar-se para a garota por quem estava apaixonada e levou um grande fora.
xxxxxx Talvez por isso se sentisse tão mal. Ainda via-se no carro de Juliana, a conversarem sobre amenidades; eram amigas há tanto tempo. Tanto tempo a recolher o amor dentro de si. Seu coração doía quando Juliana lhe falava sobre namorados, sobre as noites de amor que teve. Naquele sábado havia decidido declarar-se: confessaria seu amor. Era tudo ou nada. O amor de Juliana ou perder sua grande amiga. Infelizmente, o que ocorrera fora a segunda opção. Recordava-se da expressão de asco no rosto de Juliana quando lhe confessara seu amor e pegara na sua mão. Esta puxou a mão e uma expressão de horror tomou-lhe o rosto. Juliana pedira para que ela saísse do carro. Helena ainda tentou justificar-se: tinha de se desculpar, não poderia perder a amizade de Juliana. Mas essa não quis ouvir-la, arrancou com o carro sem dar chances a Helena de explicar-se.
xxxxxx Ela ainda ficou esperando que o carro de Juliana parasse e retornasse para lhe buscar, mas não houve retorno. Sentiu sua alma aos pedaços. Pegou um ônibus e foi para casa. Chorava baixinho. Entrou em casa e sua mãe, ainda acordada, às duas horas da manhã, perguntou-lhe como fora o show. Helena respondeu com um monossílabo: "bom", e dirigira-se para o quarto. Sua mãe perguntou-lhe se estava chorando, Helena respondeu com outro monossílabo: "não" e trancou a porta . Dona Regina ainda bateu na porta do quarto, mas Helena não foi abrir. Do outro lado da porta sua mãe gritava: "Tudo bem minha filha? Aconteceu alguma coisa?" Helena queria responder que sim. Mas como dizer a sua mãe que havia tomado um fora de uma garota.? Como se confessar lésbica? Como dizer que Juliana nunca mais voltaria a procurá-la?
xxxxxx Não havia como lhe dizer tudo isso. Tinha de sofrer sozinha, e abafar o choro com o travesseiro. Nem sabia a que horas fora dormir naquele sábado. Agora já era domingo, o sol estava alto e iluminava o quarto, ferindo-lhe os olhos inchados. Não tinha forças para levantar-se da cama. Mesmo assim se levantou. Ainda estava com a roupa que fora para o show de rock. Foi até os seus cds e escolhera o mais apropriado para aquele domingo. Uma música triste e melancólica para um coração despedaçado: Vento no litoral, da Legião Urbana. "De tarde quero descansar, chegar até a praia/ ver se o vento ainda está forte/ e vai ser bom subir nas pedras. /Sei que faço isso para esquecer/ eu deixo a onda me acertar/ e o vento vai levando tudo embora (...) Aonde está você agora/ além de aqui dentro de mim?" A música ainda lhe trouxe algumas lágrimas aos olhos. Estas escorreram pela sua face.
xxxxxx "Quero ser feliz ao menos, lembra que o plano era ficarmos bem?". Bem. Era necessário estar bem. Encenar a peça de sua vida. Não deixar ninguém saber o que se é realmente. Tinha de lavar o rosto, secar aquelas lágrimas. Dizer bom dia aos seus pais, contar-lhes que o show de rock fora ótimo, que sua vida era maravilhosa, que tudo era perfeito. Perfeito como se casar sob a sombra da mangueira no quintal da vovó. Naquele domingo o dia seria perfeito.
