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O parque de diversões
Giordana Medeiros

 

 

xxxxxx João aguardava ansiosamente pelo pai na porta do barraco onde morava. O dia estava acabando e a noite já despontava no horizonte. Aguardou pelo pai durante todo o dia, ali com os olhos fixos no fim da rua, enchendo-se de esperança quando via qualquer fisionomia assemelhada a de Severino, catador de papelão e latinhas de refrigerante, por imposição do destino e pai de seis filhos, com a graça de Deus.

xxxxxx O coraçãozinho de João batia apressadamente, aguardava os parabéns de seu pai, o abraço apertado e sua voz grave a dizer-lhe: "muito bem já esta quase um homem, daqui a pouco vai sair comigo para trabalhar". Apesar de saber que João e seus irmãos já trabalhavam vendendo doces nos sinais de trânsito. Conseguiam pouco dinheiro, mas o que arrecadavam era essencial para o sustento da família. Presentes, João não ganhava, mas já se acostumara com isso. Sabia que tinham muito pouco para comprar presentes. No natal sonhara com uma bicicleta vermelha que vira numa vitrine no centro da cidade, pedira-a ao Papai Noel, mas sua cartinha não deve ter chegado às mãos deste, pois a bicicleta nunca viera.

xxxxxx Nesse aniversário, como em todos os outros, a mãe de João o abraçara e chorara: lamentava por não poder dar-lhe presentes, mas dizia amar-lhe muito como a todos os seus irmãos. João secava-lhe as lágrimas e sorria. Em seus seis anos de idade tinha consciência de que não poderia exigir de seus pais nada além de suas posses. Tinham pouco mas eram felizes, com a graça de Deus, como seus pais sempre diziam.

xxxxxx Já eram mais de oito horas quando Dona Maria colocou os meninos na cama. João choramingou, não queria dormir sem antes falar com o papai. Mas Dona Maria não permitira que ele permanecesse acordado. O outro dia seria longo, era necessário "recobrar as energias". Dormiu pensando na bicicleta que o Papai Noel não trouxera.

xxxxxx Severino só chegou em casa às dez horas da noite, quando as crianças já dormiam profundamente. Dona Maria repreendeu-lhe por haver esquecido o aniversário de seu filho mais novo. Disse-lhe como João havia ficado decepcionado. Severino lamentou-se, como poderia ter esquecido o aniversário de seu Joãozinho?

xxxxxx Súbito teve uma idéia fenomenal: como naquele dia havia ganhado mais que o de costume, pediu à esposa que acordasse as crianças, a noite seria especial. Severino levou as crianças, que trajavam ainda pijamas, ao pequeno parque de diversões que se instalara no fim da rua. João nunca houvera se divertido tanto. Não se importava com o fato de os brinquedos do parque estarem com a pintura gasta, nem por o cavalinho, em que montava no carrossel, estar sem uma das patas. Nem mesmo por não trajar nada além de seu pijama de aviõezinhos. Aquela noite ele era o dono do parque, sentia-se o Zorro, no seu cavalo Silver, dando voltas no carrossel estava alheio a todas adversidades daquela vida sofrida, de privações e dificuldades. Era uma noite mágica em que um simples catador de papelão torna-se um herói para seus filhos.

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