




Piegas!
Rafael Marçal
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xxxxxx Mais uma vez me levanto, pego meu copo descartável e vou para o bebedouro, eu não estou com sede, mas isso é uma boa desculpa para não trabalhar. Meu trabalho é muito chato, computador, Excel, sentado o dia inteiro. Se bem que minha cadeira nem esquenta de tanto que eu levanto. Se eu ganhasse um salário proporcional ao tanto de água que eu bebo, meu Deus, já poderia me aposentar.
xxxxxx Só hoje eu já bebi uns... mais... bom, eu parei de contar em quinze copos. O pessoal daqui já fez um bolão de apostas; não me deixaram participar. Foi um rolo porque naquele dia eu me levantei vinte vezes e tomei vinte e cinco copos d'água. Então o prêmio foi dividido entre os que apostaram no vinte e no vinte e cinco.
xxxxxx Eu já estava no meio do caminho quando passei pela cadeira do Luciano, um mala que trabalha aqui, que me falou pelo canto da boca:
- Dezenove, hi hi hi!
- Vá a merda, Luciano!, respondi.
xxxxxx Já no bebedouro eu encontro a Tarsila. Ela é legal, eu gosto dela, mas quando essa menina começa a falar do namorado, meu Deus, ela consegue infernizar até o Gandhi. O problema é que ultimamente ela não faz outra coisa a não ser narrar cada capítulo dessa novela que é o namoro mel-com-açúcar dela com o Pepê (Pedro Paulo), e eu não sou nenhum exemplo de paciência.
xxxxxx Cumprimentei-a dando um sorrisinho e erguendo as sobrancelhas. Ela me retribuiu, depois olhou para o fundo do copo dela e soltou suspiro. Eu, como qualquer um, perguntei o quê que tinha no fundo do copo para fazê-la suspirar:
- Nada não, e suspirou de novo. Eu devia ter parado aqui, mas não, eu tinha que ser idiota o suficiente para voltar a perguntar.
- O quê que tem nesse raio de copo, menina?
- Ai, disse ela ofendida.
- Você não pára de suspirar, parece estar numa crise de asma!
- É que a fábrica desse copo fica em Holambra...
- E...
- E é lá que o Pepê mora, e o número do CNPJ dessa empresa tem a data do aniversário do Pepê ao contrário...
- E esse mil ao contrário que tem aí é o tanto de neurônios que você tem na cabeça.
- E três é o tanto de filho que queremos ter...
- A ciência já conseguiu cruzar anta com jumento?
- Sem graça!
- Tarsila, porquê você não pega esse copo, dobra e coloca dentro da sua agenda e... Nesse momento a Tarsila me interrompeu.
- Junto com a minha coleção de ticket de ônibus Hortolândia - Holambra, boa idéia.
xxxxxx Eu não acreditava. A minha vontade era de apertar o pescoço dela até esbugalhar seus olhos, até sua língua sair inteira da boca, mas, coitada, deixa ela ser feliz. Ela me agradeceu pela idéia e nessa hora eu percebi que tinha uma mancha esverdeada no ombro dela. Comentei e ela me disse que era bosta de passarinho, que tinha acontecido quando ela vinha para o trabalho. Meu Deus, já era depois do almoço! Eu sei que não devia perguntar, que seria idiotice, mas...
- Tarsila, por quê você ainda não tentou limpar isso aí?
- Repara bem, não parecem dois "pês", de Pedro Paulo?
- Tarsila, isso é merda! Parece com o seu cérebro!
- O passarinho podia ter cagado mais para baixo, aí eu carregaria o Pepê no coração.
- Tarsila, isso é bosta! Se eu soubesse tinha trazido o cocô que minha mãe levou para um exame, era a cara do Pepê.
- Rafael, vá cagar!
- Não, eu não consigo esculpir em bosta com a bunda igual a minha mãe.
- Rafael, você é doente?
- Eu sou, converso com maluca e tudo. E, quando penso que não, nosso chefe interrompe a nossa conversa:
- Se vocês já tiverem acabado de tomar água, por favor, voltem ao trabalho.
xxxxxx Não foi a melhor maneira de terminar uma conversa, mas bem que eu gostei de me livrar da Tarsila e suas insanidades amorosas dedicadas ao Pepê. Agora me deu uma sede!