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Lição na praia
Dionísio Dinis

 


Saio de casa ainda o dia é primícias,
Sentado na língua molhada da praia
Encho o olhar de mar e do regresso do pescador, Completo-me de brisas e de sol nascente,
Cresço na elevada vivência de quem ama a vida!

Observo as redes vazias do pescador,
E não vejo tristeza e amargura em seu rosto,
Por ter sido arredio o peixe ás suas redes.
Sorri como se farta tivesse sido a faina,
Assim, como se dádiva preciosa fosse,
O mar ter-lhe dado um dia de redes vazias

Guardo do seu olhar brilhante de navegares,
A sublime aceitação dos dias de menor sorte
Sereno no saber da dinâmica da vida,
Confiante na cumplicidade dos mares,
Tranquilo na escassez e na fartura,
Paciente na espera de melhor acaso

Faz-se entender na linguagem do mar,
E nas palavras das coisas simples
Acha sustento maior
Do mar aprende o tudo e o nada,
Numa singeleza quase ascética
Detêm a erudição de sabedorias maiores

Canta uma canção de alegria
Ao passar por mim o pescador,
Saúda-me com sorriso de felicidade
E eu, já nem sei, se por contemplação,
Ou por suprema gratidão,
Retruco em vero sorriso de bondade

Já vai alto o sol quando regresso
E não maldigo as noites não dormidas
Apetece-me lembrar apenas
As alvoradas na praia do saber
A vida por inteiro
Na vida de um pescador
Compreender que muito ou nada possuir
Vem a ser coisa una e indivisível!

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