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Das tantas coisas que não pode
Luis Benitez

 



Das tantas coisas que não pode
mostrar certamente a palavra,
a primeira impossível é o cheiro
tão próprio e exato das coisas.

A poesia também é como o aroma.

Assim ficam sem nome
o cheiro definitivo da chuva
e o efêmero matiz que se respira
ao aparecer às sombras de uma cisterna;
o cheiro do primeiro mar, aos seis anos,
a fragrância, que nos assustava, dos céus nublados,
e o cheiro da comida de uma casa
que foi querida.
A memória talvez seja
só visão de aromas esquecidos,
como este papel aonde chamo
à presença ardente de umas folhas queimadas
e à chave do enigma da rosa;
ao cheiro dos sangues
que não vi derramar-se,
ao cheiro do incenso e ao da cânfora,
um cheiro que resplandece;
ao das jovens mulheres nos banheiros públicos,
ao das moedas, que abandonam a mão
e que retornam, ao da terra de Pinzón
uma manhã de outubro, ao dos gatos,
ao cheiro milagroso das coisas vulgares,
das que apenas se compreende
que emanam a noite poderosa,
ao de um rio que corre longe
e ao que sem razão evoco,
ao da palavra marisma, ao de retablo,
aos desta manhã
que partiram para um país sem aonde,
ao de uma moça que foi embora,
em 2 de novembro de 1982,
para que minhas palavras
pedissem o perfume de uns versos
e ficassem a data e a balada,
o das baleias que tingem
a espuma de azeite e de tamanho,
o de um homem que falava da origem do dia,
ao das tantas coisas
às que não pude me aproximar e que me esperam.
São outro mundo mais sobre este mundo,
vejo o bosque e entre o bosque
a selva do aroma.
Eu vou embora dos homens e as coisas
como um selvagem que parte às cidades
e diz adeus ao seu mundo de aromas;
também para mim eles voltam
belos e pesados como um remorso.
Serão desde estes versos minha memória,
seguirão sobre o mundo
quando eu tiver morrido.

L

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