




Holocausto
Individual II -
do tombo ao abandono real
Osimar Medeiros
Se não soubesse que já
estava morto,
teria lamentado a perda de minha vida,
Não há lugar em que eu possa me esconder
de minha mente doentia,
Pois, como um verme sempre cavando
e sobrevivendo da terra imunda,
Eu não consigo me livrar do terror noturno,
nem da dor imortalizada
Os amores, como chuvas
de verão,
são fortes e temporariamente belos,
Mas, ao passar a garoa,
seguem-se devaneios e desejos caóticos,
Eu não sou o que aparento ser,
nem pretendo ser o que não sou,
Eu atingi aquele ponto em que nada tem sentido,
senão o sentido que tem
Não há vontade no mundo
que não se dobre perante o abandono e a angústia,
Como cachorros sarnentos,
procuram carinho e recebem chutes e gritos surdos,
Mas ai daqueles que lhes tomam a defesa,
pois serão insultados como ladrões,
Retrocedendo o espírito até serem lançados
à loucura indômita e ruminada
A vingança desce o abismo,
desvairada em sua neurose invertebrada,
Procurando o alvo de sua premissa,
que lhe fez tanto mal e vaga solto,
Atingindo inocentes em seu caminho,
nem por isso parando para socorrê-los,
Tão louca está, em sua culpa interna
e externamente viva e visível
É perfeitamente possível
confundir esperteza
com desonestidade conflitante,
Difícil é saber julgar (e por isso julgar não
compete a nós) a razão oculta,
Que leva alguém a destruir sua já tão destruída
existência mortificada,
Saindo deste mundo agonizante e mórbido,
para entrar no reino da escuridão
A veracidade da mentira
está nos olhos cegos dos que a procuram,
E não faço eu por onde ser julgado
como benfeitor e benevolente,
Tanto que, ao ser declarado inocente,
procuro provar minha culpa,
Amortecendo a ambigüidade altruísta
e fútil de minhas ações indizíveis.