




Ofício
amoroso
Edmilson
Molina
-liturgia ao
longo do dia-
- matinas -
24 horas
Nas vezes em que a tive
em meus braços
recordo que era calma a noite
e matinal a esperança do dia
Temporária e volátil
partiu nos meridianos do outono
De coxas brancas e seios
como duas pombas que pousaram
em minhas mãos
senti frio quando de mim saiu
deixando um deserto árido
em minha vida de camponês urbano
onde impiedosamente não caiu a chuva
nem a névoa de sua beleza
nem o hálito de seus beijos
- laudes -
03 horas
Dos seus beijos
não esquecerei o gosto
e um sofrimento em mim perdura
no inverno próximo e sol posto
persiste o sabor que a saudade
apura
Beijos beijos beijos
sem conta
beijei-lhe a boca o colo o ventre
beijei-lhe até que ficasse tonta
fruindo suavemente
Beijos: remédio curativo
alimento substância
tudo busquei na fonte da sua boca
que dava de beber ao meu amor que
beijava
- prima -
6 horas
Amanhecia lavrando temporal
de beijos
em sua alva nudez de noiva
do remanso das nádegas às axilas
do umbigo aos cumes rosados do peito
lavrava minha boca e
pedia:
o rito sacrossanto do s eu beijo.
- terça -
9 horas
O amor era uma mulher
voluptuosa
vestida de orvalho
e os cabelos derramados
nas costas brancas
Giravam os olhos dela
a procura do quê
quando minhas mãos
colhiam amoras de ramos tenros
e sua voz queimando
morria em meus ouvidos?
- sexta -
12 horas
Nua em minhas redes
que a colheram
como peixe em águas rasas
ficou exposta ao sol do meu desejo
Descansei nas frescas
vertentes
de seus seios
sorvendo o perfume
da sua boca
e derramando nela
o silêncio do meu olhar
- noa -
15 horas
Porém ergueu-se a hora
improvável e melancólica
partiu para nunca mais
Nunca mais em mim
Em vão lanço redes
que não a trazem
- véspera -
18 horas
Ela era uma casa cheia
de aromas
de mesa posta e banho quente
para onde eu regressava eternamente
cansado das usuras do dia
Hoje percorro
dias sem fim
noites de ventos
que açoitam pinheiros
erguidos na escuridão
grito seu nome
e apenas o eco responde
do fundo da memória
- completas -
21 horas
Noites enluaradas
e de estrelas trêmulas
passamos juntos
tendo o amor aos pés
Qual fogueira
ardendo nas madrugadas
sentia seu cheiro vindo
ao meu encontro
no escuro das horas
colhia rosas de frágeis pistilos
e pétalas delicadas
Colinas ofegantes
trigais de cachos dourados
vulcões e soluços
suspiros e calmarias
era a alma em chamas
e músculos retesados
sua humana geografia
estendida e desdobrada
O amor era uma mulher nua em minha alma
Caía um sereno denso
e fecundo
nas noites em que ela
me habitava.
