Gaveta do Autor - O portal do escritor na rede

Aqui
Dionísio Dinis

 


Aqui resistem sem queixumes, lancinantes vivências,
sorrisos em secas gargantas. Inefáveis nós com
socos no estômago por sobremesa,
entrecruzados caminhos, a jornada na escuridão

Neste lugar eu digo: e de passagem breve ou eterna estada
serei triste, mas alegremente só. Incontornável fado este, o
de ser no sofrimento ser possesso, a definitiva altivez da recusa,
a assumida presunção da dor exclusiva
Actor de sala com gente ausente, espectador único
do acto ultimo da patética existência

Importa agora não chorar, não ser rio, não ser mar,
cuidar que dos amores apenas idas lembranças são,
lembrar apenas o belo momento da partida,
o momento em que buscaram aconchego maior
Sem ironias, de amarguras isento, as mãos abertas em
coração livre, longe de mim toda a mágoa
Cuidar apenas que da apagada existência,
do cinzento do meu ser,
fui gloriosamente o desapercebido passeante

As palavras deprimidas procuram o quente dos afectos,
são solitárias as palavras das noites negras
dos dias não nascidos, e no entanto serão sempre
pertença de alguém, alguém no fado de as acalentar,
de saber não as arremessar em vão,
de deter, na própria desgraça, sabedoria de as usar
Existo no lugar profundo com palavras tristes nos olhos,
as palavras obscuras desse lugar podem ser letais,
e eu que sou dessas palavras o serviçal escolhido,
sei tarde demais…
As palavras letais não vêm com manual de utilização!

E velozmente se extingue qualquer imprecisa lembrança de mim,
que de memórias eu já não tenho e de futuros nada anseio
A pegada deixada, sumida em tempestades de areia,
no absoluto deserto do meu ser, útero e claridade
ou apenas nado-morto!

D

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