




Três
noturnos
Salomão Rovedo
Nº 1
Quando a minha noite
chegar
e se fechar manta sobre mim,
vai me encontrar o pequenino,
não verá o velho ancião não,
mas aquele mesmo menino
filho das noites sem calafrio
Quando essa noite me visitar,
verá o mais breve reencontro
entre a paz total e a escuridão,
vai encarar o mesmo olhar
que nela previra o desatino,
o habitante da noite devassa
É primavera em algum lugar,
aqui a escuridão se debruça
a matutar porque não a temo.
Nº 2
Se pressentisse pobre,
temeroso,
breves sinais de Sua existência,
leve caminho, eternidade, instante,
tivesse Deus a mim escolhido,
pespegando-me que fosse chaga,
seria eu uma de Suas moradas?
De repente está tudo claro, claro,
noutro tempo escurece de repente,
tal qual a primavera em outra terra
Venci na existência tantos deuses:
não sei quando este virá, se existe,
onde está, se Deus é êxito em fé
Se alguém quer ser feliz e alegre
que seja hoje, porque amanhã
nenhuma coisa se pode garantir
É certo encontrá-lo algum dia...
Outubro! Quem diria que apura
em mim coragem, não incerteza?
Nº 3
Podem conservar meu coração salpreso, as vísceras não,
mas que será do peito em que baterá um coração ferido?
Eis o que resta: pernas, braços, costelas, pomo de Adão
Mais tarde estarei comendo grama e margaridas pela raiz
Êta mundo sem sucesso, sem nunca se dar por vencido...
Foi assim que gozei a dor sem jamais me sentir desinfeliz
O que não foi? O que fiz? O que foi? O que não fiz? Tudo
Um dia na vida fui o Cavaleiro da Triste Figura – e errante
Tive de gritar, gritei, chorei, nu esperneei, ri de todos e tudo
Podem conservar o coração salpreso, transborda emoção
Sabe? Se for bater em outro peito, talvez chorará sofrido,
porque jamais tem cura esta ferida a nós legada por Adão.