




Recompensas
Regina Souza
Vieira
Marcar o que fazemos
no relógio
Anotar os dias no calendário
Guardar na alma todo esse diário
Para enfim, desfolhá-lo num tempo
em que não mais houver sequer tempo
Para ser lido ou refeito outra vez
Este é de todos o maior
idílio
De uma vida que foi à velhice
Que se passou sem qualquer mesmice
Vida de alguém que teve o que anotar
E que agora, velho e alquebrado,
Fecha os olhos e tudo lá encontra
Flashes, imagens dum longo passado
Valeu viver e mais ainda
valeu
Nada no papel se ter escrito
Tudo que passa voando, sem rastro
É de tudo o mais enorme bonito
Quisera eu estar assim
vivendo
Mas a folha branca me desperta
Fico à espreita da inspiração
Esse reflexo do que sentimos
Espelho translúcido da emoção
Terei de comprar óculos
ou lentes
Não me bastará, por certo, a memória
Por que será que em tudo nesta vida
Encontro enredo para uma história?