




Vida...
em capítulos
Vitelli
I
Vamos
viver esse sonho,
antes que se entorne à realidade;
antes que tempo,
com sono,
esvaia-se na mentira,
à verdade.
II
Reza,
touro,
pro toureiro não vir valente
Hoje você não dormiu direito
Assobia... pra disfarçar medo.
Tem
gente olhando de cima...
Apostando de lado...
Desses você não escapa!
Touro sonhador... não sabe tourear...
Não deixe toureiro perceber!
Toureiro
vem correndo!
Depressa você tem que decidir:
É ele... ou você!
Galera...
embevecida!
Pagaram pra entrar!
Ver você... toureiro... sangue... do toureiro... ou seu!
Escolha!
Toureiro
não tem culpa...
Você também não tem culpa...
Quem tem culpa não se revela,
por medo de virar toureiro covarde,
nas mãos de touros valentes!
III
Depois da poderosa aflição...
Vem a aflição do poderoso!
IV
Á borda
da palavra,
Fio a língua,
Firo ouvidos.
V
Na boca
do canhão...
o céu é chão!
VI
Palavras...
Cada vez mais fracas.
Ouvidos...
duros demais!
VII
Silêncio...
sono da palavra
VIII
Em minhas
veias
Corre mais fel que sangue
Habita em mim
Mais dores que sorrisos.
Assim mesmo, minha alma, qual louca,
Tenta — em vão —
Fazer coração superar razão!
IX
Atrás
desses olhos...
certezas,
ideais perdidos,
angústias caladas...
Atrás
desses olhos...
à frente no tempo,
presa fácil no presente...
Atrás
desses olhos,
espelho da alma,
retrato do coração
um atestado de vida!
X
Nosso
corações
não têm tamanho certo
para nosso amor.
Mas
nosso amor
não arrebenta nossos corações:
nosso amor entra...
expande...
e faz flutuar nossos corações
até o espaço infinito,
onde os corações
não têm limites de amor...
onde o amor
não se limita aos corações!
XI
Sigo
por estradas
Sem acostamentos,
Sem paralelas,
Sem transversais,
Sem subidas,
Sem descidas,
Sem trancos
Nem barrancos.
Linha
reta,
Até você!
XII
Se tempo
parar sem avisar,
Eu estiver ao seu lado,
não sentirei diferença:
todos meus sentidos estão em você...
Com ou sem tempo.
XIII
Não
seja vidro de perfume
quebrado...
derramado de vez...
desencantado...
Só
deixe-me perceber sua presença
Quando não houver mais jeito...
Quando não houver mais tempo!
XIV
Quero
experimentar você
Como se fosse certo...
Tomar seu beijo
Como se fosse pouco...
Abraçar seu corpo
Como se fosse louco...
deixá-la sempre por perto,
— como se fosse sábio —
ao alcance de meu coração!
XV
Sem
você,
Tudo pára:
o sol esfria o dia,
o mar envelhece a praia,
o barco afunda,
o sonho acaba!
XVI
Para
ser homem,
Preciso de você.
Para, como o sol,
Vencer a noite... devagar!
XVII
Voa
tempo
Voa homem
Voa imaginação
Voa esperança
Voa liberdade
Voa realidade
Foge tempo
do homem sem imaginação
que perdeu esperança de liberdade
e não mais distingue realidade...
XVIII
Brincadeiras,
brincadeiras...
Felicidade brinca de esconde-esconde...
Tempo disfarça-se,
dividindo-se em
horas, minutos, segundos...
para fazer-nos crer que vivemos muito!
Com nenhuma brincadeira consigo sorrir.
Á noite,
Fantasma da solidão brinca de dizer
que tudo é imaginação...
que ninguém quer brincar
com sonhos de amor
— traição de serpente de duas cabeças
e liberdade
— bala mofada em espingarda de plástico!
XIX
Você
é típica de mim:
bailarina...
no palco de meu coração!
XX
Meu
peito ofega ao senti-la...
Qual peito do tempo,
batendo,
batendo,
regando de vida
o universo de meus sentimentos!
XXI
Você,
Com o ventre iluminado pelo infinito,
marca,
com diamante,
a silhueta do tempo!
XXII
Amor,
Criança que nunca dorme,
Passa férias no meu coração.
Mas meu coração é homem...
Tem que trabalhar
Com picareta de papelão
em mina de aço!
XXIII
Não
há amor que aguente
Tanto tempo sem sol!
Tempo me consola:
Diz que amor é assim,
Qual porta de vai e vem...
XXIV
Enquanto isso...
a lua brilha,
cumprindo missão
de espelho do sol.
XXV
Vento que sopra:
Sopra com cuidado
esse amor que vem chegando.
Não sopre tão forte
que o atire contra mim...
nem sopre tão fraco
que não consiga vir...
Vento que sopra :
não se perca pelos caminhos,
nem demore muito,
para não chegar cansado...
Depender desse vento caprichoso
Ainda não me cansou.
Mas não abuse,
Vento que sopra!
XXVI
A duração de seu amor...
É a duração de mim!
XXVII
Sonho, feliz,
o sonho dos acordados!
XXVIII
Você,
Manhã de um gesto,
Faz meu coração arregaçar as mangas
e sair derretendo a neve dos descaminhos
com o calor do nosso amor.
XXIX
Aos que trabalham à
noite:
Dois sóis de recompensa!
XXX
Antes que o mundo nos
canse...
Antes que passe o amor...
Vamos logo sentir
Todo doce néctar
dessa verdade
que é só nossa!
XXXI
Quem tem coração de
vidro...
não atira pedras
no sentimento do vizinho!
XXXII
Não faz mal.
Tal qual fênix,
inconformado,
renascemos (eu e meu coração)
das cinzas!
XXXIII
Enaltessência.
Ainda me resto.
Ainda me basto.
Por ora.
Por hora.
XXXIV
Conheço mulher
de perfume mais forte
que seu próprio coração;
de amor tão calmo e envolvente
quanto um furacão;
de vida errante:
sempre ao meu lado.
E ao lado da liberdade,
Tudo é válido,
certo,
bom.
XXXV
Por que Maria?
Porque Maria é igual às outras.
Por que Maria é igual às outras?
Porque Maria é simples.
Por que Maria é simples?
Porque Maria não pensa.
Por que Maria não pensa?
Porque Maria não faz perguntas!
XXXVI
Não procure amor...
Camaleão dos sabores,
não admite surpresas
maiores que ele mesmo!